As minhas corridas na estrada

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Dois dias de alta montanha - de volta à Serra Nevada.

Quase duas horas e 1200 metros de subida depois chegámos ao topo do Veleta. Escapámos das temperaturas negativas sentidas na primeira subida do dia, protegida do sol que nascera há pouco, e apanhámos os primeiros raios de sol  no pico, perto dos 3400m. É nesta altura que temos o primeiro vislumbre do que nos espera. A imensidão da alta montanha, a agressividade dos declives, o terreno agreste e o vento forte e gelado que dificulta ainda mais a respiração.  Mas é quando o vemos que o arrepio se instala. Inconfundível, o Mulhacen, a razão pela qual estamos ali, sobressai imponente numa paisagem lunar e inóspita. Ninguém consegue disfarçar o entusiasmo. Penso para mim que só por aquele momento já tinha valido a pena. Mas ainda havia tanto, mas tanto, para viver naquele fim de semana! Bem vindos a Serra Nevada.

O Mulhacen lá ao fundo 
Depois do fim de semana que tinha tudo para correr mal, mas que afinal foi perfeito, do ano passado, desta vez fomos mais ambiciosos. Aos 3 desse ano juntaram-se outros 6 e foram 9 os que partiram sexta feira depois do dia de trabalho para uma viagem de 8 horas rumo à Serra Nevada. Nove pessoas com objetivos, andamentos, personalidades e humores diferentes. Nove pessoas que  partilhariam todos os minutos dos próximos dois dias e meio na imensidão da Serra Nevada. O plano passava por cerca de 40km durante o sábado e outros 20 no domingo, com uma dormida no Refugio Poquera aos 2500m. Mais gente, caminhos novos, mais tempo e distância. Mais uma vez as probabilidades não estavam a nosso favor, a coisa podia ter corrido muito mal.

Chegada à cidade fantasma de Pradolano na sexta feira às 4 da manhã. O enorme parque subterrâneo onde estacionámos, que no inverno deve estar a abarrotar de gente e movimento, estava completamente vazio, com a exceção de uma raposa que procurava comida nuns caixotes do lixo perto de nós. No meu carro seguiam o Sommer, Arede, eu e o Miguel, que fez as 8 horas de penalty a conduzir. Preparámo-nos para dormitar,  Sommer e Miguel no carro, eu e Arede no chão, quando 5 minutos depois de nos deitarmos o Arede é mordido no pé pela raposa! Ups, estamos a mais, pegámos na esteira e saco de cama e fomos dormir para as escadas.

A raposa morde pés!

Menos de duas horas depois chega a outra metade da comitiva. Diogo, Manel, Brito, Goreti e Madeira. Equipar, tomar o pequeno almoço, ligar o relógio e sair pela rampa do estacionamento que desemboca literalmente nas pistas de ski. Vamos a isto.

O grupo à saída do parque
A primeira subida, que vos falei no inicio deste post, é o primeiro teste à reação de cada um à altitude. Começamos nos 2100m e acabamos nos 3300. Alguns de nós nunca tinham passado dos 1990 da Serra da Estrela (como eu o ano passado) e preparávamo-nos agora para subir 1300 metros acima disso. Acreditem,  os efeitos da altitude não são brincadeira e nenhum de nós está a salvo deles. Uns mais afetados, outros menos, ali por volta dos 3000m todos sentimos que estamos a entrar num mundo novo. No meu caso a aclimatização é toda feita nesta subida. A dor de cabeça que vai aumentando, a dificuldade em recuperar o fôlego, a resistência nula a variações de ritmo e as tonturas que batem à porta cada vez que olho para trás. Felizmente, das vezes que andei em altitude, passadas duas horas habituo-me, e com exceção da dificuldade em andar a ritmos altos todos os outros sintomas desaparecem. Mas atenção, todos reagimos de maneira diferente, e mesmo os que reagem melhor não estão a salvo de um dia se virem metidos numa alhada. Na verdade, parece que é bastante aleatório!

No topo do Veleta
Depois da conquista do Veleta segue-se o inacreditável caminho até ao Mulhacen. Cerca de 7km na cumeada, sempre acima dos 3000m, quase sempre em trilhos, corrivel, com passagem por dois colos que mais parecem janelas  para novos locais e a famosa via ferrata numa escarpa inacreditável. Nada disto era novo para mim, o Sommer e o Diogo, mas mesmo não tendo visto, aposto que corriam com o mesmo sorriso parvo estampado na cara com que eu estava.






Depois de percorrida a cumeada chegamos à base do ataque final ao Mulhacen. 400 metros de subida ingreme, num zigue zague espetacular, levar-nos-iam até aos 3480m no topo da Península Ibérica. Esta é provavelmente a minha subida preferida de todas que já fiz. É perfeita. O trilho tem pequenos patamares que permitem ir moderando o esforço, num caminho com pedra grande e terra no qual vamos constantemente a avaliar a maneira mais eficiente de subir. Colei atrás do Sommer, que também se dá muito bem em altitude e neste tipo de subida. Mesmo sem termos falado durante a subida, sabia que ele estava no mesmo estado de euforia que eu quando trepámos para cima do palanque de rocha onde está o marco dos 3480m. Primeira conquista do dia. Esperámos, pouco, pelo resto da malta para a fotografia da praxe e apressámo-nos em direção da descida. A temperatura era muito baixa, apesar do sol.

No topo do Mulhacen
Nesta altura tínhamos duas hipóteses. O plano inicial era descer até Trevelez (ou Trelevez? A dúvida mantém-se. Não, não quero ir ao Google!), base do duplo quilómetro vertical que tínhamos no menu, mas decidimos passar pelo refugio onde dormiríamos para comer e reabastecer. O ano passado descrevi esta descida como sendo à mau. Basicamente são 1000m de desnível negativo em 4km, sem trilho, numa encosta com pedra, terra e arbustos. Se no ano passado ainda andámos num estradão na primeira parte da descida, desta vez não estivemos com contemplações e apontámos ao refugio logo desde lá de cima. Mas a melhor maneira de perceberem é verem este pequeno vídeo do Sommer a descer por esta mesma encosta.

Refugio Poquera
Estivemos 20 ou 30 minutos no refúgio. Quando saímos já eram 13 horas. A segunda parte do treino era basicamente descer 1000m até aos 1500 (em Trevelez), depois subir 2000m até ao Mulhacen (3480m) e voltar a descer 1000m de volta ao refúgio. Contas por alto, tínhamos 9 horas de caminho pela frente. O jantar no refúgio só era servido até às 21, ia ser muito apertado. Decidimos descer na mesma, depois logo se via. Se nos víssemos apertados, ali por volta dos 2700m, apontaríamos ao refúgio. Se ao menos fosse tão fácil…

Antes da grande descida para Trevelez/Trelevez tínhamos um monte para transpor, que só iria aumentar a descida. No total foram cerca de 8km com uma perda de elevação de 1200m! Uma brutalidade! O melhor de tudo é que era num single que zigue-zagueava na encosta formando pequenos patamares. Frequentemente dava para cortar caminho e passar de um patamar ao outro, ou então seguir no caminho e aumentar a velocidade. O trilho fazia lembrar muito o que encontrei nos Alpes, com pouca pedra e muito corrível. Até a paisagem era parecida, existindo muito água nesta vertente da serra as encostas estavam cobertas de verde. Ninguém se poupou nesta descida. O mais impressionante é que também ninguém se distanciou! Durante os 50 minutos que demorámos a descer quase ninguém trocou palavras, todos estávamos completamente compenetrados na missão. Não houve esperas, ninguém forçou, todos estavam a curtir a descida à sua maneira. Com a povoação a aproximar-se lentamente, a temperatura aumentava a cada metro descido. A amplitude térmica que apanhámos neste fim de semana é inacreditável. Desde temperaturas negativas nos picos até 30 e muitos graus no fundo do vale em Trelevez.

Trevelez (ou Trelevez?)

Abastecimento
Parámos uns breves minutos para beber água e encher os tanques em Trelevez antes de atacar a besta do dia. A temperatura estava altíssima, e se a altitude influencia o desempenho, acho que a temperatura alta ainda o faz mais. Todos estávamos conscientes que teríamos que começar a subida rapidamente para apanharmos ar mais fresco.

O caminho, primeiro num estradão e depois num trilho que eu podia jurar já tinha percorrido nos Alpes, mostrava-se vagarosamente vale acima. Passámos por inúmeros ribeiros onde molhei a cabeça e enchi os flasks com água gelada. A subida é inacreditavelmente longa! Quando chegámos à cota 2700, a tal que supostamente nos permitiria virar para o refúgio, estávamos ainda com montanhas altíssimas a 360º. A solução era continuar caminho até dar para cortar. Assim foi até entrarmos numa zona mais técnica com muita pedra, que ladeava uma cascata espetacular perto dos 3000m. 



A cascata e um gajo qualquer
Virada essa ponta final, entrámos num patamar enorme, todo coberto de verde, com pequenas lagoas resultantes da neve derretida. A água corria de uma para a outra até sair pela cascata que tínhamos passado e de seguida alimentava todos os pequenos ribeiros que fomos passando. Parámos uns minutos a comer em cima de uma rocha e a contemplar mais um local de outro mundo. Uma espécie de cratera, com o Mulhacen 500m acima, ladeado por todos os lados por montanhas menos por uma janela, onde nascia a cascata.


Pensámos que era a altura certa para cortar caminho para o refúgio, já faltava pouco para a hora de fecho do jantar. Mal sabíamos que para isso ainda teríamos que subir mais 200m, ficando a escassos 300 do Mulhacen. Infelizmente não haveria tempo para essa recta final, ainda por cima o cansaço de 12 horas de treino estava a começar a fazer estragos na comitiva, e esta parte final da subida foi psicologicamente muito dificil, porque pensávamos que já estava. Virada a cumeada ficou a faltar a descida para o refúgio. Foi aqui que atirei a toalha ao chão. Tinha metido na cabeça que esta ponta final seria num estradão suave, mas mais uma vez foi encosta abaixo. Fui-me completamente abaixo e arrastei-me até ao fim da cauda do grupo. Uff.

Queria guardar um parágrafo para o refúgio porque foi uma experiência muito engraçada. O Diogo, organizador da empreitada, tratou de reservar dormida para o grupo inteiro no refugio de Poquera. Estamos então numa casa aos 2500m, literalmente no meio da montanha. Assim que entramos pedem-nos para tirar as sapatilhas e calçar umas croc, para não sujar os quartos e áreas comuns. Sentamo-nos à mesa juntamente com uns 40 ou 50 outros residentes e esperamos que nos seja servido um jantar de dois pratos e sobremesa. De seguida cada um de nós aluga uma toalha e uns lençóis. O refugio fornece o edredon e almofada, mas temos que fazer a cama com uns lençóis descartáveis. Para o banho são compradas umas fichas que nos permitem 4 minutos de água quente! E são mesmo quatro minutos, os 3 ou 4 duches têm uma maquineta com um temporizador que mostra a contagem decrescente. Lembrem-se que estamos no meio da montanha, não há nenhuma infra-estrutura (esgotos, água canalizada, energia elétrica), tudo tem que ser racionado! As camaratas dão para 16 pessoas e são fornecidos cacifos para guardar as coisas. Nunca tinha estado em nenhum refúgio, mas adorei ficar neste!

As croc cor de rosa

Jantar
A hora do silêncio era às 22. Apesar de +/- respeitada, estava tão esgotado da jornada que uns minutos depois ferrei e só acordei às 7! Não me lembro da ultima vez que dormi 8 horas eheh Isso obviamente ajudou a que tivesse uma noite regeneradora e estivesse de baterias carregadas para o segundo dia. Desta vez o plano era mais simples: subir um KV até ao Mulhacen, percorrer a cumeada dos 3000m e descer até Pradolano, cerca de 20km.

À saída do refúgio para o segundo dia
No inicio da subida percebi logo que estava bem e foi um prazer até chegar novamente ao pico. Esta subida tem a ponta final, os 400m do ataque ao Mulhacen, em comum com a que fizemos no primeiro dia. Mais uma vez ataquei-a com o Sommer, desta vez a forçar o ritmo e a acabar a dar tudo. Que adrenalina! Como chegámos lá mais cedo a temperatura ainda estava muito baixa, arrefecemos rapidamente. Uma das coisas que me mete mais respeito na montanha são as variações de temperatura. Estava sol, mas bastava o vento fortíssimo empurrar uma pequena nuvem para a frente dele que sentíamos a temperatura a baixar facilmente 5 ou 6 graus. Sentámo-nos lá em cima uns minutos protegidos pelas pedras mas não demorámos muito até perceber que era urgente descer.

Abrigados no Mulhacen
Com o grupo fresco, o caminho de volta foi muito tranquilo. Sempre na conversa, a andar a bom ritmo, lá chegamos ao colo do Veleta antes de iniciar a descida final de 1000m até ao carro. O ano passado penei muito nesta descida, por isso este ano decidi ir com o Brito por um estradão paralelo que descia mais devagar, ao contrário do resto do grupo. O pior é que descia tão devagar que se tivéssemos continuado ainda lá andávamos às voltas a esta hora! Não demorou muito até perdermos a paciência e atalhar à mau até encontrar o resto do grupo.

À chegada
Contas feitas, foram 41km com cerca de 3800D+ no primeiro dia e 20km com 1500 no segundo. Mas este fim de semana foi muito mais que isso. Foi um daqueles que me fazem lembrar porque gosto tanto deste desporto. Foram muitas horas de partilha, horas vividas intensamente por um grupo de 9 que até esta altura nem sequer era assim tão intimo. Ao ler a brilhante crónica do Sommer sobre este fim de semana fico roído de inveja por não conseguir transmitir-vos tão bem como foi bom. O que vos posso garantir, com toda a certeza, é que passem os anos que passarem vou recordar estes 3 dias com um sorriso.

No Mulhacen. Melhor foto do fim de semana!

terça-feira, 25 de abril de 2017

Madeira Island Ultra Trail 2017 - Bomba relógio.

As sensações não eram as melhores há algum tempo. Umas horas antes tinha percebido que não ia ser a prova sólida que consegui fazer o ano passado. Sempre soube que seria difícil repetir o MIUT 2016, quanto mais melhorar. Por isso foi sem qualquer frustração que, conformado, segui tranquilo o meu caminho em direcção à descida para o Curral das Freiras. Foi nessa descida, nessa descida com mais de 4km e 800D- que senti pela primeira vez o bater dos segundos. O temporizador estava ligado, a contagem decrescente tinha começado, eu era uma bomba relógio e podia rebentar a qualquer momento.

tic, tac, tic, tac, tic, tac....


A minha terceira viagem de autocarro de Machico até Porto Moniz não foi diferente da 1ª nem da 2ª. O nervosismo estava lá, acompanhado da ansiedade e do medo. Como sempre, encostei-me no meu lugar à janela e fechei os olhos durante praticamente toda a viagem. Refiz o percurso mentalmente pela enésima vez e pensei na Sara e nos miúdos, que infelizmente voltaram a não vir comigo (as viagens são muito caras). Chegado a Porto Moniz fui beber o habitual café ao habitual restaurante. Sentei-me nas habituais escadas e esperei pacientemente pela passagem de quase toda a gente pelo controlo zero para me dirigir para a partida. Este ano estava bastante mais gente, o que tornou aqueles últimos 15 minutos um pouco desconfortáveis.

Foi a terceira, podia ter sido a primeira ou a décima, mas aquela sensação de estar a iniciar um combate com um monstro nunca muda. Pórtico passado. Vamos começar o Madeira Island Ultra-Trail 2017.


A noite estava excelente. Fresco, pouca humidade e sem nuvens. A previsão era que se ia manter, o que permitiu aliviar um pouco nas camadas térmicas. Ainda assim, no fim da primeira subida à saída de Porto Moniz transpirava por todos os lados. Este ano houveram três alterações ao percurso, a primeira delas foi precisamente no fim desta subida, onde no ano passado existiram engarrafamentos, agora foi uma transição suave para os trilhos. Perfeito!

Segui com um grupo de 4 almeirinenses (éramos 5 nos 115km!) até à Ribeira da Janela, onde apanhámos aquele famoso banho de multidão, e continuámos juntos na primeira grande subida da prova, o quilómetro vertical até ao Fanal. Avisei-os que era ali que o MIUT começava, sem conseguir disfarçar a excitação de estar a entrar numa grande aventura. 


Esta subida é uma espécie de introdução à prova. Primeiro no meio de uma aldeia e depois os primeiros degraus da jornada, na entrada dos trilhos. É muito longa, quase 9km, mas nunca é demasiado difícil. Segui perfeitamente controlado, conforme o plano. Sabia exactamente o que tinha que fazer, onde e com que intensidade. Era como se estivesse a preencher um exame final de uma cadeira da faculdade para o qual me tinha fartado de estudar. Mas todos sabemos que às vezes, por mais que estudemos, há aquela pergunta com a qual não contamos e de repente nos tira o chão por baixo dos pés...

Descida do Fanal até ao Chão da Ribeira. Material de pesadelos. Este ano pela primeira vez seca, o que a tornou ligeiramente mais acessível e divertida. É aqui que os pouco precavidos percebem que o MIUT não é só desnível positivo, isto enquanto manuseiam atabalhoadamente os bastões ao descer os degraus em troncos de madeira. Impiedosa, estende-se por 5km intensos que inevitavelmente deixarão as suas marcas. 

Xavier Thevenard na subida do Fanal
Já lá em baixo, as costas folgam muito pouco enquanto o pau vai e vem. Um rápido abastecimento na base da descida atira-nos imediatamente aos pés do monstro: a subida para Estanquinhos, aquela que para mim é a mais difícil da prova. 1400 metros de subida em menos de 10km. Sempre em trilho, sempre muito inclinada, variada, assustadora! Uma loucura que quando parece estar a acabar nos surpreende como uma nova secção. Lembro-me de ter olhado para o relógio aos 23km e reparar que já estávamos com 2700m de desnível positivo desde o início, o mesmo que o Piodão em menos de metade da distancia! Foi com muito alívio que finalmente vi a tenda do abastecimento, à qual cheguei cerca de 10 minutos mais rápido que o ano passado. Apesar desta folga de tempo comecei a sentir que não estava tão bem como nessa altura. A descida a seguir era um bom teste, o ano passado fi-la quase a convencer-me para ir mais devagar, muito fluido e sem esforço. 

A primeira parte é feita num estradão com muita pedra, que nos obriga a ir constantemente a travar. Foi com alguma dificuldade e muito pouco conforto que mantive o ritmo que queria até à entrada no trilho. Por sorte apanhei um grupo que seguia a bom passo e colei atrás deles enquanto penetrávamos na floresta Laurissilva. Primeiro num trilho óptimo para correr depois uma secção com muitas escadas. Segundo a companheira que ia atrás de mim (penso que era guia turística) seriam 816 degraus a descer! Bem os senti nas pernas quando iniciámos a ultima parte da descida, num trilho fácil, coberto de folhas secas, muito bom para correr. Infelizmente os sinais confirmaram-se nesta parte, apesar de ir ligeiramente adiantado em relação ao ano passado não estava a sentir-me a 100% e descia de maneira um bocado forçada. Bem, sem problema, vamos ver o que isto dá.

Laurissilva. Foto do Google.
Ultrapassado o meio km vertical até à Encumeada, onde apanhamos o primeiro verdadeiro choque de escadas num caminho chamado Quebra Panelas (pelo menos parece-me que foi isso que os Madeirenses que iam comigo lhe chamaram eheh), breve paragem no Hotel da Encumeada para novo abastecimento. Até ao Curral, local de próxima paragem, esperava-nos o segmento mais longo do MIUT, que compreendia 1000m de subida e outros tantos de descida distribuídos por 15km. 

Ataquei a famosa subida do pipeline com a calma habitual, mas mais uma vez sentia que estava a forçar a barra. As pernas não respondiam bem nas partes corriveis e demorava a estabilizar a respiração nas subidas. O meio km vertical antes da descida para o Curral é das subidas mais fáceis da prova, mas algo não estava bem. Sentia-me a escorregar perigosamente. Comecei a olhar muito para o relógio e pelo canto do olho via gente a aproximar-se. Chegado à cumeada, onde virávamos a montanha para a descida, algo mudou.

De repente comecei a ouvi-lo: tic, tac, tic, tac...

Continuei na descida a bom ritmo. Aproveitava a aproximação de atletas mais rápidos dos 85km, que tinham partido às 7 da manhã, para encostar e respirar fundo. A descida para o Curral é muito complicada, tentei poupar-me nas zonas mais técnicas e fiz algumas partes a passo. Só queria chegar lá abaixo e fazer reset, mas ela não me deixava. Batia, batia, batia..

tic, tac, tic, tac...

Curral das Freiras
Asfalto. Fim da descida. Falta cerca de 1km a subir até ao abastecimento, num pavilhão do Curral das Freiras. Forço para manter um bom ritmo a caminhar de bastões. A respiração está ofegante e começo a sentir muito os ombros doridos do esforço. Ufffff. Preciso. Do. Abastecimento.

tic, tac, tic, tac...

Entro no pavilhão, está a confusão habitual. Antes de procurar caras conhecidas dirijo-me logo para a zona dos sacos. Encontro um colchão vazio e começo a preparar as coisas. Não queria demorar-me ali muito tempo, era importante não dar o sinal errado ao corpo e ele achar que já não estava para mais. Consigo comer uma taça de massa com carne, o que me deixa animado, troco de roupa e meto o relógio a carregar dentro da mochila. Altura de encher todos os depósitos com água e isotónico, saio com 2 litros só de líquidos. Passo uma camada grossa de vaselina no interior das coxas mas reparo que essas já passaram o ponto de não retorno. Já em sangue, ia ser incomodo até ao fim. Olho para as horas, é meio dia em ponto. Não me lembrava bem do ano passado, mas tinha ideia de ter chegado ali um pouco mais tarde. Efectivamente assim foi, mas apenas 7 minutos. Mas não eram os minutos que me afligiam, eram os segundos. O passar sonoro dos segundos que me lembravam que a qualquer momento a bomba relógio ia rebentar. 

tic, tac, tic, tac...

Saio do abastecimento preparado para o pior, mas com a segurança de pelo menos estar a conseguir comer e beber bem, isso é importantíssimo. Antes do início da subida começo a pensar no relógio que está na mala. O plano era deixar carregar até ao Pico Ruivo depois meter no pulso e passar a carregar o frontal até ser de noite. Tudo controlado. É só trocar o cabo que... 

MERDA

Deixei o cabo dentro do saco da muda! Não tinha bateria extra e o segundo frontal era muito fraco. E agora, voltar para trás? Naaah, já estava a uns 500m do abastecimento, Deus me livre de fazer mais 1km de maneira a conseguir andar seguro na segunda noite! 

Liz Lemon, autora do melhor revirar de olhos.
Lembrei-me de ligar à Andreia, que estava com a malta de Almeirim a dar assistência nos abastecimentos, para ela me tentar arranjar umas pilhas. Já estava à espera no Pico do Arieiro, se houvesse lá à venda ela comprava. Tá bom, não mexe mais! Voltei a meter o telemóvel em modo avião e fiz-me à subida.

Convencido que ia rebentar durante esta subida, activei todos os sistemas de poupança de energia. Passada curta, pouca amplitude de movimentos, alimentação certinha e muitos líquidos. Por falar nisso, está na hora de meter um gel. Deixa-me cá..

MERDA

Os géis. OS GÉIS!! Deixei a porra dos géis para a segunda metade da prova no saco da muda! Pufff agora é que foi! Tinham sobrado 3 da primeira metade, teriam que ser geridos até ao fim. Ultrapassado o primeiro pânico comecei a fazer contas de cabeça. Precisava de pelo menos 2 geis até chegar ao Pico Ruivo, depois mais um até ao Arieiro. Isto deixava-me com um problema, que era a subida ao Poiso, precisava de outro aí. A única solução era conseguir comer muito no Arieiro e depender apenas dos abastecimentos até ao fim. Seja, vamos à luta!

Fui sendo passado por muita gente, principalmente malta dos 85km, mas nunca alterei a estratégia. Assim fui subindo vagarosamente até chegar às árvores fantasma, na Boca das Torrinhas, onde entraríamos no carrossel de escadas. 

tic, tac, tic, tac, tic, tac...

Esta é minha! Do ano passado.. mas é minha!
Desta vez os 4km de sobe e desce de escadas até ao Pico não me apanharam desprevenido. Continuei seguro, a adiar o momento. Recuperei muitas posição que havia perdido na primeira parte da subida. Sem relógio, segui tranquilo escadas acima, escadas abaixo. O ano passado foi ali que rebentei, mas a coisa não estava má por enquanto. 

Quase 3 horas e dois géis depois cheguei ao abastecimento do Pico Ruivo. Este abastecimento não tem acesso automóvel, por isso era mais fraco que os outros. Tinha a ideia que só haviam líquidos, por isso sentei-me logo à entrada e voltei a encher os depósitos que entretanto já vinham na reserva. Continuava preocupado com a comida e como descarga de consciência perguntei a uma voluntária se por acaso não havia nada para comer. "Sim, ali ao fundo há uma mesa com doces e salgados"

Ah! Salvo! Nem tinha reparado! Ataquei o queijo, presunto, figos secos, amendoins, marmelada e banana que nem um labrego enquanto empurrava com isotónico. Estava a entrar tudo! Que dose brutal de ânimo. Em principio já me daria energia até ao Arieiro, poupando o terceiro gel para a ultima subida.

Saí do Pico Ruivo um homem novo, até o bater dos segundos ficou mais sumido, quase nem dava por ele! Foi a disposição certa para atacar aquele que, até prova em contrário, é o caminho pedonal mais bonito do mundo. 4km duríssimos, num constante sobe e desce de escadas em escarpas com uma proeminência abismal. Disse e volto a dizer, é por estes 4km que ano após ano me apetece voltar. 


Mas para aqui passar há que pagar a portagem. Não em dinheiro, mas em energia. A ultima grande subida antes de chegar ao Arieiro voltou a deixar-me com os bofes de fora e relembrou-me que nada estava garantido. E lá voltou o barulho ensurdecedor.

tic, tac, tic, tac...

Foto da Joana do Joel, à chegada do abastecimento
No abastecimento estavam a Andreia e a Joana, da comitiva almeirinense. É sempre um boost de energia brutal ver caras conhecidas em provas destas. Na altura fiquei com a ideia que tinha ali chegado mais ou menos à mesma hora que o ano passado, agora em casa vejo que foi menos de um minuto depois! A diferença é que este ano ainda não tinha rebentado, apesar de há muito ter percebido que isso seria uma inevitabilidade. Restava saber onde.

Ataquei novamente o abastecimento e mais uma vez consegui comer bem. Ainda não falei nisto, mas os abastecimentos do MIUT são os melhores que já apanhei na vida. Não falta rigorosamente nada e nunca vi tabuleiros com pouca comida. Foi com ânimo em alta que me fiz à descida até ao Ribeiro frio, plenamente consciente que as dificuldades estavam longe de ter acabado, ao contrário do que normalmente se pensa.

Fotos de boca cheia. Zach Miller style.
Esta descida é lixadíssima. São 10km muito variados, com uma primeira parte em que perdemos muito pouca altitude num trilho pedregoso, intercalado com várias pequenas subidas. Das duas vezes anteriores tive enormes dificuldades nesta parte, e este ano não estava a ser diferente. O ânimo desvaneceu e voltei a ter movimentos muito forçados e pouco fluídos. Reparei que estava a começar a dobrar-me sobre mim mesmo nas subidas e a meter cada vez mais esforço nas costas. Quando o terreno pedia para correr o corpo gritava para parar. Uh oh... Houston, we have a problem.

tic, tac, tic, tac...

Segunda metade da descida. Entrámos num bosque com árvores enormes, terreno escuro e cheio de raízes. Tentei meter passo de corrida mas tudo me doía. Parei, voltei a andar numa descida fácil. Respirei fundo e deixei passar dois colegas que se aproximaram entretanto. Insisti na caminhada mais uns metros até que voltei a tentar correr. Muito difícil ao início, mas forcei e insisti até estar anestesiado.

tic, tac, tic, tac...

Consegui correr os últimos 3 ou 4km até ao abastecimento, sempre nervoso a olhar para o indicador de altitude que me aproximava da cota de Ribeiro Frio, mas ainda assim bem sucedido. Esteve muito perto de acontecer, mas a explosão tinha sido adiada mais algum tempo e respirei de alivio quando entrei no restaurante do abastecimento. Desta vez já não consegui comer tão bem, mas era altura de meter o último gel de reserva e esses entram sempre. Foi aqui que encontrei o Luís, colega do Grupo Desportivo da Parreira, que foi uma grande ajuda para os quilómetros seguintes. Seguimos juntos para a ultima subida do percurso.

Estava mais que avisado para esta subida, a segunda das três alterações ao percurso. Antes um caminho em calçada muito suave, óptimo para recuperar, era agora um trilho inclinadíssimo aos ésses, num terreno cheio de raízes e terra escura. O efeito foi precisamente o contrário dos outros anos, em vez de descansar a subir senti todas as energias a desaparecerem. Mas não parei ou abrandei, cumpri os menos de 4km e 500D+ sempre a forçar até ao abastecimento. Lá em cima sentia as pernas as tremer e o estômago revirado. Lá estava ele, cada vez mais audível...

tic, tac, tic, tac...

Sentei-me no abastecimento e pedi que me trouxessem uma canja, já não tinha energia para me levantar. Sorvi o caldo salgado a custo, não me apetecia nada, mas estava dependente dos abastecimentos até ao fim. Parti novamente com o Luís para a descida seguinte, uma enormidade com 9km, que nos anos anteriores foi o ponto de viragem das minhas provas, onde renasci e consegui voltar a correr. Desta vez não tinha precisado ainda de renascer, mas a explosão parecia-me cada vez mais inevitável. A menos que... A menos que conseguisse fazer uma descida sólida. 

Bora lá, Boss.

(nota, dentro do GDP a alcunha dele é Boss)

tic, tac, tic, tac...

Começou bem. O Boss estava muito bem fisicamente e eu consegui colar no passo dele. Tal como me lembrava, os trilhos eram muito acessíveis, penso que parte dos circuitos de treino do Porto da Cruz. 

tic, tac, tic, tac...

Sempre na roda dele, entrei a bom ritmo nos estradões que marcavam a segunda metade da descida. Agora mais inclinado. As pernas começaram a gritar. Forcei, forcei, forcei. Meti bastões enquanto corria e apoiava brutalmente o peso nos braços. Todas as minhas fibras diziam para eu parar, mas continuei a tentar, continuei a empurrar o inevitável.

tic, tac, tic, tac...

Entrada numa levada. Degraus. Bastões a trabalhar mas ainda em passo de corrida. Lembro-me do UTMB e de como as descidas foram a razão da minha morte enquanto agonizo cada vez que tenho que travar a passada. Tenho que parar, tenho que parar...

tic, tac, tic, tac...

Cedi uns segundos e debrucei-me sobre os bastões. Respirei sofregamente enquanto o Boss se afastava. Voltei a tentar correr. Mais uns metros, só mais uns metros...

tic, tac, tic, tac, tic

M.O.A.B.
Parei. Sentei-me no chão e meti a cabeça entre os joelhos. Estive naquela posição algum tempo a tentar recuperar o fôlego, levantar-me parecia missão impossível, quanto mais correr. A noite estava a cair e já passavam por mim atletas de frontal. Tentei durante um bom minuto abrir a mala para tirar o frontal enquanto ela ainda estava nas costas, até me aperceber que tinha o corta vento vestido por cima da mochila... Ainda sentado despi-me, tirei a mochila e o frontal. Estava a arrefecer muito depressa, como é habitual nestas situações, e dois ou três minutos depois de rebentar voltei a levantar-me. 

Ufff.. Nada a fazer. Já tenho experiência suficiente para saber que lutar contra a marreta não leva a lado nenhum. A partir dali a prova era outra, tinha que saber lidar com o meu novo estado. Não me deixei abater minimamente, a menos de 20km da meta se tivesse que ir em modo Walking Dead assim seria!

Chegado ao abastecimento da Portela, no fim da descida, a minha primeira preocupação foi saber onde estava a comid.. mentira, foi saber como estava o Benfica! A perder 1-0 ao intervalo. Porra que quando a vida corre mal a um gajo não há nada que não lhe aconteça. O Boss estava lá a mamar uma média e uma sandes de presunto com a comitiva da Parreira. Alguma conversa, boa disposição, expliquei-lhe já tinha dado o estoiro mas que estava tranquilo. Seguimos novamente juntos.

Boss a ser Boss.
Sei muito bem gerir a parte física destas marretadas, mas a parte mental é sempre traiçoeira. Faltavam 16km para o fim, nada de especial, mas revia o que faltava na minha cabeça vezes sem conta e só de pensar onde teria que passar apetecia mandar-me logo para o chão. 

Mas aguentei. Andei nos estradões planos e tentei correr nos trilhos. Alguns consegui, outros não. Normal. Gritei GOLO quando recebi no relógio a notificação do livre do Lindelof e acelerei o passo para me meter com o Boss, que é lagarto. A seguir, claro, paguei. Não faz mal, mete bastões, anda. Sofri o martírio da descida do Larano que de ano para ano me parece mais desnecessária e desesperei nos 5km de vereda plana que lhe segue. Aqui sim, senti os efeitos secundários da explosão com força. Já tudo me custava, mas as luzes de Machico estavam lá ao fundo.

Se nos últimos dois anos consegui fazer as levadas finais todas a correr, desta vez isso estava fora de hipótese. Vá lá andar, já não era mau. Conformado, liguei à Sara e fiz conversa durante uns minutos na esperança que isso me distraísse das dores e do caminho infinito que ainda tinha pela frente. Estava completamente rebentado, mal conseguia andar, ainda assim bem disposto. 

Cheguei ao ultimo abastecimento, a 4km da meta, à meia noite e sete minutos. Exactamente o tempo final do ano passado. Não me chateou minimamente. Sempre soube, sem falsas modéstias, que repetir uma prova que foi quase perfeita seria muito difícil. Encarei as ultimas levadas antes de descer para Machico e 40 e poucos minutos depois lá estava ele. O passadiço de madeira que significa a ultima subida e entrada na recta da meta.

Ao meu lado corria o Rodrigo, já vestido à civil e ao telemóvel com a Sara. Correu comigo os últimos 200m antes de eu passar o pórtico e me juntar ao Boss, família e restante comitiva almeirinense e da Parreira. O Rodrigo passou-me o telemóvel para poder falar com a Sara. Mandei-lhe um beijo e respirei fundo.

Estava feito. 

24:52:40
Pela terceira vez cruzei a meta em Machico. Não vou dizer que teve a carga emocional da primeira, nem a alegria e satisfação da segunda. Ainda assim, é sempre um momento muito emocionante e de alívio. O MIUT é uma prova tremenda que não dá 1mm de folga. Não há nenhuma parte do percurso onde se possa dizer "o pior já passou". Não, ali não. É certo que aos 75km já vamos com 6500 dos 7200D+ finais, mas experimentem correr depois de um amasso de 75km daqueles. De ano para ano noto uma excelência cada vez maior na organização, em todos os aspectos. Só fiz uma prova no estrangeiro, o UTMB, mas duvido muito que hajam muitas provas no mundo com o nível de qualidade de organização e percurso como esta.

Quanto à minha prova, apesar de ter começado com um desejo de baixar das 24h, sempre soube que seria muito dificil, como aliás o confessei a vários amigos. Por isso, não estou minimamente frustrado. Nem com o tempo final nem com o facto de ter rebentado. Estranho era terminar uma prova destas sem dificuldades. Adoro a Madeira, adoro. Não só a prova, toda a ilha. Sinto-me em casa, gosto da comida, gosto dos meus amigos madeirenses, dos que conheço e dos que se metem comigo a dizer "olha o 42!". No entanto, aproveito para pedir a todos os leitores deste blog que no dia 31 de Outubro de 2017 à meia noite me enviem a seguinte mensagem: "Não te inscrevas outra vez no MIUT, lembra-te do que voltaste a sofrer este ano. LEMBRA-TE!"

segunda-feira, 10 de abril de 2017

MIUT - Algumas dicas para estreantes

Ponto prévio: o que se segue é apenas e só a minha impressão do percurso do MIUT e de como este deve ser gerido. Resulta das minhas participações na prova. Uma primeira, que terminei com grande sofrimento e a segunda, onde correu quase tudo bem. Não sou nenhum especialista e, obviamente, este post só poderá interessar àqueles que, como eu, andam pelo meio do pelotão.



Faltam duas semanas para estarmos em Porto Moniz, por isso o trabalho que havia a fazer está feito. Nesta altura, se forem como eu, já passam mais de metade do dia a antecipar ansiosamente o dia em que vão voar para a Madeira. Está na altura de afinar pormenores do equipamento, preparar os perfis para plastificar, planear a alimentação e, muito importante, estudar o percurso. 

Eu sei que há quem ache o contrário, que o melhor é chegar lá e o que vier morre, mas eu não. Nestas grandes provas gosto de estudar o percurso. Deixar de o ver em quilómetros e passar a defini-lo por etapas. Primeiro esta subida, depois o KV, depois aquela secção entre abastecimentos, a descida técnica, etc, etc. É isso que vou fazer de seguida, explicar como dividi o percurso do MIUT e a forma como acho que o esforço deve ser gerido de forma a concluir a prova em condições. 



1ª Etapa: Porto Moniz - Estanquinhos




Os primeiros 27km do MIUT, que terminam em Estanquinhos, são talvez a etapa mais importante da prova. Mas não pelas razões que estão a pensar: esqueçam a barreira horária. No meu primeiro ano obcequei com isso e depois cheguei à conclusão que não era assim tão apertada. Entretanto até já aumentaram 1 hora a este corte, por isso não é por aí. Estes 27km com quase 3000D+ são importantíssimos porque uma má gestão do esforço durante esta noite pode comprometer definitivamente o resto da prova.


Aquele primeiro montículo no perfil é uma prenda que a organização vos dá. Primeiro sobem 400m em alcatrão e desembocam numa descida em trilho muito fácil. Não vão voltar a encontrar estas facilidades até ao fim. Mas se a vossa ideia é fazer uma prova sólida, não se entusiasmem. Não vão ganhar nada por andarem feitos tontos a ultrapassar em singles, metam o orgulho a um canto e deixem passar os entusiasmados que vão a trote na subida, o mais provável é encontrarem-nos encostados lá à frente.

As subidas para o Fanal e Estanquinhos são uma brutalidade. Ambas com mais que 1000m de desnível, vão apanhar desde calçada, até lama, trilhos e degraus, muitos degraus. Quando amigos meus se vão estrear em ultras e me pedem conselhos, a primeira coisa que costumo dizer é que nas primeiras subidas se sentirem que vão em esforço é porque vão mal. Se começarem a quebrar não parem, mas metam um passo cada vez mais curto. Se estiverem num trilho procurem tricotar de forma a não levantarem tanto as pernas. Uma coisa que resulta comigo é meter-me atrás de um comboio e, mesmo que me sinta bem e achar que vou mais lento do que podia, evito até à ultima ultrapassar.

O abastecimento do Fanal, no fim do primeiro quilómetro vertical, não fica mesmo no topo da subida, quando saem ainda têm que subir mais um bocado. Evitem estar lá muito tempo, vão chegar muito quentes da subida, mas o ar nos 1500m vai estar frio. Vão arrefecer muito rapidamente e depois como não começam logo a correr, porque ainda há subida, vão demorar a aquecer.

A descida depois do Fanal é tão ou mais importante que os dois KV. É um pesadelo. Muito técnica, cheia de degraus e socalcos, com pedra muito escorregadia. Não pensem sequer em ganhar tempo ali, deixem isso para os prós. Preocupem-se em serem eficientes. Sejam poupados, não façam tonteiras, concentrem-se sempre, se tiverem que andar para passar alguns obstáculos, andem. Só vão ganhar com isso!

2ª Etapa: Estanquinhos - Curral de Freiras


Antes de mais, preparem-se. Dificilmente vão fazer uma descida melhor na vida do que a estão prestes a fazer a seguir a Estanquinhos. Provavelmente vão apanhar o nascer do sol nesta altura, por isso tudo se vai conjugar para ser inesquecível. A descida é relativamente fácil até à parte final, onde existem algumas escadas. A palavra de ordem é sempre "eficácia", mas vai ser dificil não se entusiasmarem num trilho tão bom como aquele.

Até ao inicio da descida final, para o Curral das Freiras, não há muito mais a dizer sobre este troço. Vão apanhar as primeiras grandes subidas em escadas, incluindo o famoso pipeline, paisagens brutais e alguns bons quilómetros que dão para rolar. 

Apesar de ser um troço aparentemente fácil, é aqui que vão perceber se se portaram bem nos primeiros 27km. No meu primeiro ano foi aqui que percebi que estava lixado! 

A descida para o Curral das Freiras é traiçoeira porque convida a andar depressa, mas tem muita pedra. Mais uma vez, há que ser económico. Não andem para lá aos saltos porque só vos vai desgastar e ainda falta muito caminho! Quando chegarem ao fim da descida vão pensar que já está, por isso não fiquem muito desiludidos quando perceberem que ainda têm mais 1km a subir em estrada até ao abastecimento. Esta parte é muito chata, teve que ser alterada para haverem mais condições no abastecimento.

3ª Etapa: Curral de Freiras - Pico do Arieiro




Muito importante: no Curral encham todos os depósitos de água que tiverem, vão precisar! 

Vão entrar numa parte determinante da prova. A subida para o Pico Ruivo é longuíssima, é o vosso ultimo KV, mas não são os primeiros 800D+ que interessam. Esses são pacíficos, num trilho aos ésses  e constante. O pior é quando acharem que já está! Acreditem, aos 800D+ vocês vão achar que já está. Mas não. Na verdade, ainda nem começou! É aqui que tem início o carrossel de escadas. 

Com a atenuante de estarem num sítio incrível, estes quilómetros, desde o tal patamar até ao Pico do Arieiro (incluindo a paragem no Pico Ruivo), são muito, muito duros. Vão subir e descer vezes sem conta, vão pensar que é já ali, vão ter vertigens, vão desesperar com as escadas infinitas e os degraus que parecem cada vez mais altos! O melhor disto tudo? No fim do dia vão chegar à conclusão que estes 7km valeram pelo esforço todo!

4ª Etapa: Pico do Arieiro - Machico





Provavelmente caíram no mesmo erro que eu, quando me estreei. Olharam para o perfil e acharam que as dificuldades nesta altura já tinham acabado, que agora era quase sempre a descer até à meta. Bem, na verdade até têm alguma razão, o pior já passou. O problema é o que ficou para trás! Nesta altura nem que fosse uma ciclovia com 5% de inclinação a descer vos custava, e a descida a seguir ao Arieiro está muito longe disso. Contem com alguns trilhos técnicos e, surpresa!, umas subiditas pelo meio. A parte final da descida é num terreno que faz lembrar a Serra da Lousã, com terra escura, muitas raízes e pedras. Muito inclinado.

EDIT - Alterei o parágrafo seguinte depois de vários amigos Madeirenses me terem alertado. Obrigado a eles!

Chegados ao Ribeiro Frio têm a ultima grande subida do percurso. Este ano alteraram a parte inicial e o que anteriormente seria uma boa descida para descansar num caminho com calçada, este ano passou a um trilho que, pela descrição, será parecido com a parte final da descida anterior (pedras e raízes). Mais inclinado, e técnico. A parte boa é que vão atingir os 400D+ até ao Poiso mais depressa, a má é que vão penar até lá. O melhor é no abastecimento pararem para respirar, comam e bebam bem, olhos no chão e toca a trabalhar até lá acima. Segue-se uma descida muito longa e fácil até à Portela, aproveitem bem esta parte do percurso para se convencerem que vão conseguir, já falta muito pouco!

Nesta altura a única dificuldade até à meta, além do cansaço acumulado, é a descida do Larano, aquele precipício que vêem ali no gráfico. Não desesperem, vão seguros e com calma. É uma descida enervante e difícil, já vão em piloto automático, uma distracção aqui pode ter consequencias chatas. 

Se chegarem ao fim dessa descida de dia (coisa que não consegui), aproveitem para se distraírem com a paisagem brutal enquanto percorrem os 7km da vereda do Larano. Se chegarem de noite preparem-se, vai parecer que estão num caminho infinito! 

Venha mais uma vereda, levada, trilho ou estrada, nesta altura nada vos vai desviar do caminho para Machico. Liguem para quem tiverem que ligar: estão a chegar!


Vereda do Larano
Está feito, parabéns!

Hm? Como é que é? Falta correr? Ah, pois.. Bom, então vemo-nos em Porto Moniz!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ultra Trail do Piodão 2017 (50km) - Dava para pedir mais?

O ano passado foi sem dúvida das minhas provas preferidas. Não só porque me correu muito bem, mas principalmente porque adorei o percurso, que é bem ao meu jeito. Gosto de subir durante muito tempo, gosto de recuperar em descidas longas e gosto, muito, de andar na montanha. E o Açor é montanha a sério.

Mais um post com a excelente contribuição fotográfica do Miguel Cadalso! Tenho que começar a fazer o meu calendário em função das provas que ele participa.
O fim de semana tinha tudo para correr bem. Pela primeira vez este ano conseguimos fazer uma viagem de família até uma prova. Saímos os 4 ao fim do dia rumo ao Inatel Piodão, para nos juntarmos aos companheiros do Grupo Desportivo da Parreira até domingo. A previsão era de tempo frio e seco, perfeito! No entanto, nas ultimas semanas andei sempre com a sensação que estava longe do meu melhor e como não abrandei a carga na semana anterior preparei-me para mais uma prova sofrida, como foram praticamente todas este ano.

Foto da meta tirada pela Sara da janela do nosso quarto no Inatel. Viu a partida sem ser preciso sair do quarto, luxo!
Este ano, ao contrário de todas as anteriores edições, a partida foi dada no centro da aldeia do Piodão, em vez de ser no Inatel. Foi essa a única diferença no percurso em relação ao ano passado, os 500m da descida e subida ao hotel. Olhei 360º à volta para as grandes montanhas que nos rodeavam, estávamos bem no fundo do vale. Percorri o percurso mentalmente uma ultima vez, lembrava-me bem quais os picos que subiriamos, para onde partiriamos e o caminho de regresso. Junto ao pórtico as caras conhecidas são mais que muitas. Últimos cumprimentos e fotografias e estávamos prontos para a viagem. Siga!



A partida foi dada e imediatamente entrámos no trilho que nos levaria até Chãs d'Égua, na base da primeira grande subida do Piodão Ultra Trail. Foram 5km tranquilos, num single muito bonito com pequenas subidas e descidas, ideal para meter o motor a funcionar antes de começarem os grandes desníveis da prova. 


O primeiro abastecimento (eram 7 no total!!) apareceu logo aos 5km, nesta aldeia. Não parei, estava com pouco mais que meia hora, mas aproveitei para armar os bastões e preparar-me para os 600m de desnível da primeira grande subida da prova. Primeiro em escadarias da aldeia e depois, a grande maioria, num estradão que zigue-zagueava pela encosta permitindo aliviar a inclinação em vários patamares. 

Não sendo fisicamente dotado e não treinando os volumes que outros treinam, tenho consciência que a gestão das provas e do meu esforço é dos maiores trunfos que tenho. Dificilmente me apanham em picanços ou a perseguir alguém que me passa. Ainda por cima pouco confiante como estava, a minha estratégia era simples: esta subida teria que envolver o mínimo de esforço possível, de forma a chegar lá acima incólume. Escusado será dizer que numa subida tão acessível como esta, e no início da prova, passaram dezenas de pessoas por mim! Escusado será também dizer que, apesar de não aumentar o passo para ir atrás, foram poucas as vezes que ao passarem por mim não pensei "espera lá que já te viro, ainda falta muito!" :)

Parte final do estradão da subida, foi só aqui que meti passo de corrida.
Parece ter resultado. Quando cheguei ao topo não estava minimamente cansado e ataquei os 5km de descida até Malhada Chã com alma. Um aspecto que acho perfeito nesta prova é que as descidas dão sempre para recuperar das subidas, apesar desta até ser das mais técnicas da prova. Um single espetacular numa encosta, com muita pedra e algumas pequenas subidas. Muito longa e variada, tive a sorte de andar quase sempre sem ninguém à frente ou atrás e pude meter o ritmo que era mais confortável para mim. Foi aqui que comecei a sentir que talvez fosse um bom dia.

Chegada a Malhada Chã
Malhada Chã é daquelas aldeias que só se vêem nos postais. É tudo perfeito! Bem no fundo do vale, do lado oposto da mesma montanha onde está o Piodão, com pequenas pontes e escadas de xisto. Era lá que estava o segundo, muito basto, abastecimento. Aqui já parei para beber uns copos de isotonico (gold drink, da gold nutrition) e umas fatias de presunto. Ultimamente tenho tomado mais atenção ao aspecto da reposição de sais. Não me apetece implementar a rotina de tomar uma cápsula de sais de hora a hora, já chega ter que me preocupar com a comida, mas em todos os abastecimentos meto alguns sais. Muitas vezes opto por banana com sal, que há em todas as provas, mas se há presunto como neste não hesito.

Da aldeia, lá bem de baixo, dá para ver o Picoto do Cebolo, ponto mais alto de toda a prova nos 1400m. Nova subida de 600m, esta com uma primeira metade bastante inclinada que depois desagua num estradão na cumeada que nos leva até Picoto. 

À saída de Malhada Chãs

Primeira parte da subida, no trilho mais técnico
Foi nesta primeira parte, a mais difícil, que realmente entrei na prova. Adoro este tipo de subida em que posso ir a tricotar de forma a encontrar o caminho que implique menos amplitude de movimentos. Apercebi-me que estava muito entusiasmado quando dei por mim a tagarelar com o Miguel, que já me respondia pouco eheh. 

Chegados ao estradão há um pequeno troço plano, antes do ataque final. Tal como no ano passado, as pernas respondem sem hesitar ao passo de corrida que imprimo. Está a correr bem, mas não me entusiasmo. Assim que inclina volto a andar com os bastões. Nesta altura, com a Estrela nas costas e acima dos 1000m, está um vento cortante muito frio.

Aqui ainda a correr, com o picoto lá ao fundo
Ops, já está a subir, toca a andar!
A partir daqui separei-me do Miguel, por isso as fotografias vão diminuir. Mas acho que já é seguro dizer que nunca tive um post com tantas! 

A segunda subida da prova foi conquistada mais uma vez sem grande esforço, agora seguia-se outra longa descida até Covanca. Lembrava-me bem desta parte no ano passado. Os dois primeiros quilómetros eram um estradão que, não sendo demasiado inclinado, permitia soltar completamente as pernas se assim o quiséssemos. Assim foi! Disparei para dois quilómetros muito rápidos antes de entrarmos numa parte mais inclinada e finalmente num trilho que nos levaria até à aldeia de Covanca, aos 25km, onde estava o terceiro abastecimento. 

Metade da prova estava feita e as sensações eram muito boas. Comi uma sopa de legumes e fiz-me ao caminho até à Fornea, próximo abastecimento. O caminho até lá é possivelmente das partes mais desinteressantes do percurso inteiro, com uma subida não muito grande no meio dos eucaliptos, depois uma secção intermédia em alcatrão e finalmente dois quilómetros em trilho que já acaba ligeiramente a subir até à Fornea. 

Cerca de 1km de alcatrão plano, até apanharmos o trilho
O que não é nada desinteressante é o abastecimento da Fornea. Se a subida seguinte é a mais conhecida do percurso, este abastecimento é daqueles que dão nome ao Mundo da Corrida. Um autentico banquete de casamento! Nesta altura ainda estava cheio com a sopa de Covanca, mas arranjei espaço para meia bifana, muito salgada, como se quer.

Como referi no parágrafo anterior, esta próxima subida é a mais temida do percurso. Curiosamente, desde que percebi que estava num bom dia, estava ansioso por a encontrar. Tal como aquela primeira parte da subida ao Picoto do Cebolo, toda ela é muito técnica e inclinada, não tão longa como as outras, mas mais trabalhosa. Meti o meu passinho certo e tricotei por ali acima com o entusiasmo em crescendo. Já perto do fim, com o motor a entrar em sobre aquecimento, começou a soprar uma brisa gelada que tratou de arrefecer para níveis confortáveis. Perfeito!

Parte final da subida, já menos inclinada mas com as mesmas pedras.
Virada a montanha, a vista é incrivel. 10km separam-nos do Culcurinho, ultimo pico do dia a conquistar, as eólicas instaladas na cumeada indicam-nos o caminho até lá. Mesmo por baixo de nós já se vê o Piodão, mas ainda há uma grande volta a dar antes de lá chegarmos. 

Aquele pico lá ao fundo é o Culcurinho.

Foi nesta altura que deixei de parte a estratégia conservadora e comecei a dar um bocado mais. Não que tivesse desatado a correr por todo o lado, mas já forçava muito mais do que até ali. Foi assim nos 10km de sobe e desce intermédios até ao ataque final ao Culcurinho, ultimo grande obstáculo da prova e onde o ano passado levei uma pequena marretada.


São apenas 300m de subida em estradão, mas facilmente apanham desprevenidos os mais incautos (como me apanhou a mim, o ano passado). Basicamente porque já ninguém conta com ela nesta altura. As três grandes subidas da prova, aquelas que saltam à vista no perfil, estavam ultrapassadas, era só mais um montículo antes da grande descida final! Nada mais errado, são 300 metros muito inclinados numa altura que já vamos com cerca de 2300d+ nas pernas, isto numa cota acima dos 1000m. Se não formos mentalizados para ela o homem da marreta espera por nós confortavelmente lá em cima na capela.

Início da subida, com a capela lá ao fundo no pico.
Parte final
Desta vez já não me apanhou desprevenido, mas confesso que vacilei um pouco aqui. Lá no topo estava o penúltimo abastecimento. Parei brevemente para beber isotónico e uns amendoins, o ano passado as cãimbras atacaram-me nesta ultima e longuíssima descida, não queria voltar a passar pelo mesmo.

São 7km e 800m de descida que nesta altura nos separam de Foz d'Égua. É muito raro apanhar descidas tão longas em Portugal e eu sei, por experiência própria, como elas podem ser perigosas. É muito mais fácil treinar subidas que descidas. Não há reforço muscular ou treino de propriecoiso (nem com a ajuda do Google consegui escrever esta palavra) que simulem a tareia que é para o corpo levar com uma grande descida deste género. Primeiro numa parte muito inclinada e com muita pedra, que nos obrigava a travar constantemente, depois num estradão infinito que zigue-zagueava e permitia meter velocidades mais altas e finalmente num trilho mais técnico, numa mistura explosiva para os quadricepes, que hoje estão bem doridos. Excelente!

Miguel, tive que ir ao Google buscar uma imagem da Foz d'Égua, estás a falhar!
Chegados ao Shire, perdão, a Foz d'Égua, estava à nossa espera o ultimo abastecimento da prova (recordo, de 7 (sete)). Apenas 3km separavam-nos do Piodão, num single que subia vagarosamente pela encosta, vale acima. Sentia-me na máxima força nesta altura e forcei bastante, sem nunca me sentir a quebrar.

Trilho de acesso ao Piodão. Pronto Miguel, estás perdoado.
A chegada ao Piodão foi pelo mesmo sítio do ano passado, com cerca de 500m a descer. A diferença é que desta vez ficámos por lá, em vez de subirmos os 500 metros até ao Inatel. Cortei a meta a sentir-me bem e muito satisfeito! 

Foto tirada pela mulher do Miguel. Vou contratar a família toda para o Quarenta e Dois!
Demorei 6h43, menos 5 minutos que o ano passado, mas se juntarmos o km que foi cortado o tempo seria ligeiramente superior ao anterior registo. Acreditem, não é da boca pra fora quando digo que o tempo foi o menos importante neste dia. Na verdade, considero que a minha prova foi perfeita! Foi uma das poucas vezes que sinto que venci a distancia de 50km, sem nunca quebrar, com uma gestão perfeita do esforço. Este ano raramente me senti assim. Desde os Abutres, quando comecei a desconfiar de tudo, que andava pouco confiante para o que aí vem (o MIUT). Era exactamente de uma prova destas que precisava para voltar a ganhar confiança.

À minha espera na meta estava o Vasco, do GDP. Juntos fizemos o que ficou a faltar: a subida ao Inatel. Não que tivessemos muita vontade mas..estávamos lá alojados :)

O dia continuou com um banho na piscina do Inatel com os miúdos, jantar no hotel com a família do GDP e no domingo ainda deu para passear pelo Piodão e ir até à Estrela ver a neve. Um fim de semana que só não foi MESMO perfeito por causa do Judas Pereira!

Jantar no Inatel. Grande grupo!

A nossa melhor tentativa de foto de família. Quase que os miúdos ficavam bem!

A Estrela ainda tinha muita neve. E o casaquinho vermelho de finisher do Circuito Endurance da ATRP? Ah pois é!
A três semanas de enfrentar mais uma vez o MIUT dificilmente poderia pedir um fim de semana melhor. Agora sim, estou confiante que o treino feito desde o início do ano não me deixará mal. Não quer dizer que a prova está no papo, se há corrida que não se dá com este tipo de sobranceria é o MIUT, mas sei que tenho o que é preciso. Segue-se uma semana ainda de carga com um longo mais suave e duas semanas a descer até ao grande dia. A ele!