As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

UTAX 2017 (110km) - Eu e o filhadamãe do trilho.

Cinco anos depois voltei à serra que acolheu a minha primeira aventura no trail. Desde então já fiz uma mão cheia de provas na Lousã. Duas vezes o TSL, outras duas os Abutres e ainda o Louzantrail. Mas faltava-me uma: a rainha. Uma das mais antigas em Portugal, a prova que explora a fundo a mítica Serra da Lousã, sem dúvida uma das melhores, mais agrestes e inacessíveis Serras para a corrida de montanha. Depois de um encontro adiado em 2015, este foi o ano em que finalmente enfrentei os 110km do Ultra Trail Aldeias do Xisto.


Três meses e meio depois da Andorra Mitic, parti para a minha terceira aventura de 3 dígitos de 2017. Foram 3 meses a treinar bem, talvez como nunca tinha treinado. À quilometragem e desnível que já fazia juntei duas sessões semanais de ginásio, o que sem dúvida me tem ajudado. Sentia-me bem, em forma, pelo que na sexta feira estava surpreendentemente calmo e confiante, tendo em conta a enormidade que ia enfrentar. À primeira vista seria a mais acessível das 3 deste ano. 110km com 5300+, quando a Mitic na mesma distancia tinha 10000D+ e o MIUT 7200

Mas foi só mesmo à primeira vista... Se eu precisava de um exemplo que nem sempre os números dizem tudo de uma prova, a Lousã tratou de mo dar. Não, nem foi bem isso. A Lousã tratou de me meter dentro de uma máquina de lavar roupa, ligou a centrifugação, deixou-me lá 20 horas e no fim deu-me um chuto no rabo e deixou-me estendido no chão!


A previsão era de chuva desde a meia noite até às 6 da manhã, mas às 23:59 o tempo estava perfeito. Fresco QB e sem chuva. Parti com uma tshirt térmica e manguitos, mas depois do que aconteceu em Andorra não facilitei e meti na mala material para o pior cenário. 

À meia noite em ponto deu-se inicio ao punk rock. A sério, literalmente! Blitzkrieg Bop a bombar bem alto, os power chords do Johnny Ramone, que ecoaram na minha cabeça horas e horas durante aquela noite, trataram de electrificar ainda mais os 321 que se preparavam para atacar de relâmpago os trilhos da Serra! Bora!

HEY, HO, LET'S GO!!


Ok, ok.. O ataque não foi bem um blitzkrieg. Na verdade aos 4km já estávamos engarrafados na entrada dos trilhos, e, convenhamos, o melhor é ir com calminha não vá a marreta dar de si. Por isso, Joey, se não te importas, LET'S GO mas com cabecinha.

Digam lá, já estavam com saudades dos meus gráficos feitos no paint.
Uma coisa engraçada nesta prova é que já conhecia praticamente todos os sítios onde passámos, pelas diferentes provas e treinos que lá fiz. Esta parte inicial, com saída da Lousã, passa por alguns dos meus trilhos preferidos da Serra, incluindo a passagem pelo castelo da Lousã e a famosa levada com quase dois quilómetros que nos mete a correr numa varanda de 50cm de largura com um precipício do lado esquerdo. 

Para quem ainda não sabia ao que ia (não deviam ser muitos), estes primeiros 17km mostraram bem o que esperar. Na Lousã raramente as subidas são constantes. Primeiro porque os trilhos são quase sempre muito técnicos, com muitas pedras, paus, raízes e pontes que obrigam a todo o tipo de movimentos, a inclinação nunca é constante, depois há as passagens por aldeias com muitas escadas e em cima disso tudo são quase sempre intercaladas com dezenas de pequenas descidas. 

Candal, foto do Miguel Cadalso
A chegada a Cerdeira, local do primeiro abastecimento foi aos 10km. O tempo mantinha-se surpreendentemente seco e frio, o que era excelente. Já não tinha os manguitos e comecei a alimentar a esperança de afinal a noite ser seca. Seguia-se uma pequena subida até ao ponto mais alto desta primeira fase, nos 900m. O abastecimento.... bem, vou guardar a opinião sobre os abastecimentos lá mais para a frente, para não me começarem já a bater.

Foi ali naquele planalto antes da grande descida, enquanto seguia a bom ritmo num excelente grupo, que começou finalmente a chover. Eram duas e meia da manhã, não pararia até às 7:30, ao nascer do dia. Bom, ninguém esperava que fosse fácil.

Até Povorais, 2º abastecimento
E que boa altura para começar a chover! Provavelmente a descida mais difícil da prova. Super inclinada e técnica. Apoiei-me nos bastões de maneira a poupar ao máximo os quadriceps do esforço de amparar os meus 70 e tal kilos em movimento. Resisti a vestir o impermeável até ao fim da descida, até que cruzámos um ribeiro no fundo de um vale apertado. Parei para o vestir e comer um gel. A chuva entretanto começara a cair forte e a temperatura baixara muito. 

Confesso que não me lembro muito bem do caminho até Povorais. Como sempre na Lousã, nunca sei muito bem se estou predominantemente a subir ou descer, e com a chuva a sensação de estar a ser centrifugado ainda é maior. A chuva pesada e o vapor da respiração impedem que veja muito mais que 2 metros à frente, por isso concentro-me unicamente em progredir da maneira mais eficaz possível. Entretanto tinha passado uma hora desde que meti o gel no vale, está na hora de comer. Olho para o relógio e estou em cima dos 9km anunciados para a distancia entre abastecimentos. Não devia tardar, decidi adiar a comida até ao abastecimento. Mas tardou. Quase 3km. A subir, o que significa uns bons 40 minutos. Lá chegou o abastecimento e ..... bom, falo disso lá mais à frente.

Povorais - Castanheira de Pera
Esta foi a altura mais difícil da prova. A chuva continua incessante e a temperatura baixa muito com a altitude. Felizmente esta fase final da subida era fácil, toda em estradão, o que deu para meter um ritmo muito constante e recuperar um pouco do esforço. A única dificuldade neste ataque ao ponto mais alto da prova foi o trânsito automóvel. Passaram uns 10 carros a subir e descer o estradão. Às 5 da manhã. A chover. No topo da Serra. Era uma festa lá em cima, acho eu. Sim, vamos dizer que era uma festa.

Seguia-se a looonga descida até Castanheira de Pera, 11km onde se perdem quase 700 metros de desnível. Lembrava-me bem dela da TSL que fiz há dois anos. Uma primeira fase muito técnica e trabalhosa depois maioritariamente estradões até lá abaixo. 

A entrada no vale de Castanheira de Pera coincidiu com o nascer do dia e com ele começou o festival Miguel Cadalso. Devem lembrar-se dele de outros posts aqui do blog, é o fotografo oficial do Quarenta e Dois. Ele é que ainda não sabe.




Os estradões e longos trilhos bons de correr embalam-nos num trote até à Praia das Rocas, local do terceiro abastecimento, em Castanheira de Pera. Os quilómetros feitos em passo de corrida desgastaram bastante o corpo e, como já aconteceu noutras provas, o nascer do dia tem um efeito negativo em mim, pelo que chego ao abastecimento um bocado abatido e desmoralizado. Entro e preparo-me para comer bem, para ganhar algum alento, mas..... enfim, falamos disso mais lá à frente.

Castanheira - Talasnal (Base de Vida)
O vale de Castanheira de Pera foi o único sítio devastado pelos incêndios por onde passámos. Foi impressionante. Já tinha feito esta subida no TSL há dois anos, lembrava-me bem de andar embrenhado numa floresta por um trilho que serpenteava entre as árvores. Agora a encosta estava completamente despida de árvores, mas por todo o lado despontavam da terra preta pequenos pontos verdes. O incêndio, o catastrófico incêndio de Pedrogão, já foi em Junho, entretanto a natureza estava a encontrar o seu caminho. Paisagens verdadeiramente surreais. 



Impressionante.
A subida foi, finalmente, ao meu jeito! Quase 600 metros de desnível positivo num trilho muito constante. Serviu para recuperar fisicamente mas principalmente voltei a ganhar ânimo. Lá em cima, no planalto, seguimos por estradões que puxavam à corrida e eu respondia-lhes. Enquanto houvesse pernas assim seria! 

A chuva entretanto tinha parado e o sol de vez em quando lá aparecia entre as nuvens. Não podia pedir condições mais perfeitas para fazer a descida até o Talasnal, é provavelmente dos melhores trilhos da Serra. Com poucas pedras e raízes, quase sempre coberto de folhas castanhas e ouriços dos castanheiros. É como se corrêssemos em cima de um colchão que serpenteia pela encosta abaixo. Estou convencido que é humanamente impossível não correr ali, mesmo que estejamos rebentados! O abastecimento do Talasnal, base de vida, está muito perto. Com ele a perspectiva de mudar para roupa seca e comer finalmente alguma coisa quentinha! Finalmente a coisa estava a encarrilhar.
A sério, tentem não correr aqui
Olha eu a chegar ao Talasnal! Desta vez a (muito boa) foto é da Patrícia Povoa.
O abastecimento do Talasnal é, como quase todos os outros, bem apertado e abafado, mas lá encontro uma cadeira e começo de volta dos meus afazeres. Depois do fiasco das bases de vida do MIUT e Mitic não queria falhar em nada desta vez. Percorri mentalmente a lista de tarefas e executei-as eficazmente sem perder muito tempo. Depois dos pés limpos com uma toalha, meias lavadas, tshirt e manguitos novos, relógio a carregar, reabastecidos os geis e barras para a segunda metade, power bank com cabo para carregar o frontal, casacos e equipamento para o frio na mala, lá me sentei a beber o litro de Compal de pêra que tinha levado no saco da muda. Uma dica do campeão Luiz Mota que aconselho vivamente, soube espectacularmente bem! Viro-me para uma pessoa da organização e pergunto pela comida quente, pelo que ela me responde....... bem, falamos disso depois.

Mochila às costas, saco fechado e siga!

Talasnal - Miranda do Corvo
Despeço-me da muita gente conhecida que está no abastecimento e saio bem disposto. Assim que meto um pé fora da casa vejo que o que se segue é uma descida um bocado técnica. Preparo-me para pegar nos bastões e...ups, ficaram lá. 

Volto para trás, envergonhado, pego nos bastões e meto-me a caminho.

Vou a sentir-me super bem, pernas leves e com muito ânimo. Desço as escadas do Talasnal em passo de corrida sem grande esforço e entro num trilho em bom ritmo. Lembro-me de olhar para o perfil que está no dorsal para ver o menu que se segue. Ora deixa lá ver o dorsal..ora o dorsal está...o dorsal....? O DORSAL!! 

Merda. Ficou no abastecimento! Filhadamãe. Toca de subir tudo até lá acima e com cara podre ir buscar o porta dorsal. Como disse o Bruno Ribeiro quando me viu a voltar para trás "tudo só para ter mais umas linhas para escrever!".

Saída do Talasnal. Esta parte fiz duas vezes a descer e uma a subir! Lucky me!!
Estávamos agora a encaminhar-nos para o vale de Miranda do Corvo, numa subida que nos levaria até ao Observatório. Foi a fase com mais estradões da prova, incluindo um longo e plano que nos obrigou a correr uns 5km. Antes de chegar a esse planalto, enquanto fazíamos uma outra subida em estradão, perguntei a um fotografo se o observatório era já lá em cima, ao que ele respondeu "o observatório?? oh amigo, ainda falta muito, MUUUUITO!!! Uuui, é tão longe!!!". E pronto, foi neste preciso momento que encontrei a única pessoa do mundo inteiro que à pergunta "ainda falta muito?" não responde com "é já ali!" ahahah.

Fim do estradão, mesmo a chegar ao Observatório. Viemos daquele lá ao fundo. Este da frente é o famoso Cadalso!
Cheguei ao abastecimento do Observatório bastante bem. É verdade, os estradões são chatos, mas se forem bem enfrentados são excelentes para recuperar energia, principalmente a subir. 

Lá em cima comecei a fazer contas de cabeça ao que faltava. Descer até Miranda e subir pelo outro lado do vale até Gondramaz. Ok, basicamente falta o percurso dos Abutres feito em sentido contrário e depois descer até à Lousã!

A descida é quase toda ela boa de correr, mas de vez em quando lá vamos passando por trilhos super técnicos que iam lentamente destruindo o corpo. A meio ainda passamos pelo abastecimento de Vila Nova. Este, para variar, num espaço bastante amplo. Como sempre, a descida é intercalada com pequenas e inclinadas subidas. Provavelmente não está a transparecer neste relato, basicamente porque ainda não rebentei, mas este tipo de percurso é terrível e está a ser duríssimo. Tanto passamos 5km a correr num estradão como entramos numa secção técnica em que progredimos com dificuldade ao ritmo de 20'/km. Sinto-me bem a nível muscular, mas as articulações começam seriamente a queixar-se do muito difícil terreno e brutal leque de solicitações. 

A chegada ao ponto mais baixo, em Miranda, acontece aos 90km. Faltam 20km, 10 até Gondramaz e depois a descida final. Nunca nesta prova pus em causa que chegaria ao fim, mas nem aqui, em Miranda, consegui pensar que já estava. Como a prova não tinha grandes descidas ou subidas organizei-a por etapas entre os abastecimentos. Sabia que me faltava pelo menos uma etapa muito difícil, a subida até Gondramaz.

Miranda do Corvo - Gondramaz
Este segmento é literalmente a parte final dos Abutres em sentido contrário. Foi engraçado os sentimentos contraditórios que tive nesta subida. Lembrava-me praticamente de tudo dos Abutres. Começa super técnico em Gondramaz e vai diminuindo de dificuldade à medida que chegamos a Miranda. Lembro-me do sentimento de alívio quando pisei o alcatrão de Miranda, mas desta vez ia em sentido contrário, perfeitamente consciente que ia enfrentar a parte mais difícil de toda a prova.

Estava muito moído, mas ainda me sentia com pernas, por isso corri toda a parte inicial de estrada e estradão, enquanto o nível de dificuldade ia subindo. E como previsto, ela foi aumentando. Gradualmente fomos entrando em trilhos mais e mais difíceis. Rochas, lama, correntes e cordas. A progressão era lentíssima, parecia que nunca saímos do mesmo sitio. Subíamos 50 metros, descíamos 20. Vezes sem conta. Sempre a pique, sempre difícil! A cota parecia não subir, até que finalmente chegámos à parede final, que nos levaria 200 metros acima, até Gondramaz. Lá de cima ouvi o João Rita a chamar por mim, companheiro do Grupo Desportivo da Parreira. Estava a chegar a casa. Gondramaz mais uma vez foi a nossa base e lá em cima estava toda a família da Parreira e Almeirim. Nem dei pela subida. Sentei-me à porta da nossa Casinha do México a comer uma sopa quentinha. Não era do abastecimento, era mesmo nossa...

Não me canso de elogiar esta casa. Procurem no Facebook - Casinha do México.
Eram 18:20 quando acabei de comer. O sol ainda brilhava mas a noite não tardava por isso aproveitei para meter o frontal e os manguitos.

Gondramaz - Lousã
Praticamente todos os quilómetros que percorri em grandes ultras foram sozinhos. Não gosto muito de me colar por duas razões: se estou mais lento não gosto de forçar para conseguir acompanhar nem que os outros esperem por  mim e se vou mais rápido não gosto de abrandar para esperar. Mas em Gondramaz saiu-me a sorte grande. Já há alguns quilómetros que passava e era passado por um grupo de 3 vimaranenses, íamos com andamentos muito parecidos. Decidi ali que seguiria com eles até ao fim e foi a melhor decisão que tomei, custou muito menos! 

Foi juntos que enfrentámos mais uma dose de trilhos super técnicos a sair de Gondramaz. Juntos entrámos na segunda noite e junto iniciámos a grande descida de 7km até à Lousã. Cruzámos a meta os 4, 20 horas e 38 minutos depois de termos partido da Lousã. 

Infelizmente ainda não achei uma fotografia com os 4.
Foi assim a história da minha 9ª aventura de 3 dígitos. Eu sei, o relato não foi grande coisa. Na verdade a minha corrida também foi um bocado sem história. Nunca rebentei, nem me senti perto disso, mas também nunca andei tão leve e solto como achava que andaria. Antes de começar apontei para entre as 20 e 21 horas, o que seria uma prova a correr bem. Secretamente tinha a esperança de baixar das 20 horas, porque me sentia muito bem nas semanas que antecederam a prova, mas infelizmente não se confirmou. Não me interpretem mal, foi provavelmente a prova de 3 dígitos mais sólida que já fiz, mas... não sei, esperava mais. A Sara e os miúdos não me puderam acompanhar, depois de estar tudo combinado há muito tempo, acho que isso contribuiu para que no fundo tivesse passado 20 horas a ver se despachava aquilo.

Quanto ao percurso, organização e abastecimentos... bom, acho que tenho que dizer qualquer coisa. 

Primeiro, o percurso. Como disse lá atrás, reconheci praticamente todos os sítios onde passámos, a UTAX agrega todos os trilhos da Lousã. Sinceramente, acho que uma prova de 50km é mais equilibrada nesta Serra, fiquei com a sensação que houve um certo enchimento de chouriço para chegar aos 110km. Quanto ao tipo de percurso, como perceberam, não é de todo onde me sinto melhor. Prefiro subidas e descidas muito longas, quilómetros verticais e alta montanha. Mas percebo perfeitamente que haja quem prefira este tipo de percurso. Reforço, é só a minha opinião. Gostei de fazer as provas de 50km nestes caminhos, adorei os TSL e os Abutres que fiz, mas desta vez, a certa altura, já só queria sair dali. 

E agora, os abastecimentos. Prometi a mim mesmo que nunca mais falaria de abastecimento, depois da tareia que levei no relato do Louzantrail. Mas desta vez queria dizer alguma coisa. Eu sei que assim que lerem isto vão aparecer os mauzões do costume a dizer que os abastecimentos podiam ser só casca de pinheiro e água da chuva, mas para mim há mínimos a cumprir. Por exemplo, não acho normal que numa prova de 110km só haja comida quente em dois abastecimentos, um aos 34 e outro aos 98km, nem na base de vida havia!. Não acho normal que haja um desequilibro tão grande entre salgados e doces, via tortas danecake, chocolate, gomas e biscoitos em todos, mas salgados praticamente não vi. Não acho normal que a informação de distancia entre abastecimentos tenha sido erradas tantas vezes, e isto para mim é o pior. Aprendi com o tempo a não estar dependente dos abastecimentos, porque nem sempre são ao nosso gosto, por isso parto sempre com comida para ser auto suficiente e foi isso que aconteceu. Nunca comi tantos geis numa prova. Quando percebi o que enfrentava passei a comer um gel ou barra de hora a hora, certinho, se apanhasse um abastecimento 10 minutos depois não interessava. 

Enfim. Detesto acabar neste tom negativo, por isso deixo-vos uma ultima foto do Cadalso. Eu nunca fui ao pé dele, quando passei neste ponto ia sozinho. Juro que pensei "epah, que espetáculo. Só espero que o Cadalso tire uma foto disto, tem que entrar no post!" E, adivinhem, o Cadalso tirou :)

As encostas queimadas de Castanheira, pontuadas de verde. A vida vence sempre!



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Freita Skyrunning (42km) - Uma prova quase fofinha

"Freita Sky Marathon. É uma prova sonsa, começa toda fofinha e depois mastiga-te." M.S.D.


Pronto. Este relato podia ficar pela citação do Miguel, o que até dava jeito porque ao elaborar terei inevitavelmente que falar da diferença do sky running para o trail normal e não sei bem qual é. Mas não, vou a fundo.

Ora bem, pelo inicio. Este fim de semana corri os 42km da Freita Sky Marathon na...isso mesmo, na Serra da Freita. Além dos números impressionantes, 2800+ para a distancia, aliciava-me conhecer finalmente os trilhos técnicos e agrestes desta Serra, coisa que, curiosamente, cada vez me atrai mais. A 5 semanas do UTAX, distancia e desnível na medida certa: toca de esmifrar o Airbnb, pegar na Sara e nos miúdos e partir para um fim de semana na montanha. 

Tenho que confessar, desde o início que algo me parecia estranho com esta prova. Uma primeira edição, por uma organização que nunca tinha ouvido falar, uma imagem simples e uma página de Facebook apenas com o essencial. Numa altura em que somos bombardeados com spam diário de tudo o que é prova, pareceu refrescante. Bom, na verdade deixou-me de pé atrás. Pensei: na pior das hipóteses faço um bom treino, até me perder por más marcações, desidratar por não haver água nos abastecimentos e cair de uma ribanceira de 800m. Não há-de ser nada. 


As duas ultimas corridas que participei foram o MIUT e a Mitic, duas super provas, com organizações gigantes e centenas de pessoas. Já não me lembrava o que era levantar um dorsal sem confusão, ir até à primeira fila por baixo do pórtico cumprimentar amigos e voltar lá para trás para esperar calmamente pela partida. Às 9, hora marcada para a partida, ainda alguém da organização discursava a agradecer a presença de todos, os cerca de 80 que partiam para os 42km e outros tantos para os 25. 

Poucos minutos depois, sem qualquer expectativa ou conhecimento do que me esperava, partia para enfrentar aquele que certamente foi um dos melhores e mais desafiantes percursos que já percorri.



Até ao primeiro abastecimento
Começou fofinha, como diz o Miguel. Uma pequena subida em estradão e logo entrámos num trilho com mais de 2km a descer por entre maciços graníticos cravados no chão. O pequeno pelotão rapidamente dispersou. Corria completamente à vontade e assim continuei na subida de 300+ que nos levaria de volta à cota inicial. Praticamente toda a suave subida foi feita a trote, até abrir a passada e entrar na simpática descida em single track que nos levou até ao primeiro abastecimento, nos 10km. Cheguei lá com 1 hora de prova. 

Hm, isto do sky running é só manias, a prova até é bem fofinha!


O abastecimento estava a meio da descida. Rapidamente comi uma banana, uns salgados, beijos na Sara & miúdos e segui caminho a bom passo. A descida continuou agora junto a uma levada, num trilho muito estreito e incerto. Algumas pessoas optaram por ir com os pés dentro de água, outros, como eu, continuaram a saltitar de uma margem para a outra do canal. 

Desde a partida que raramente saímos de trilhos. Trilhos simpáticos que percorri quase sempre a correr, mesmo quando subia. Até que, do topo daquele montículo, se viu a descida que nos levaria ao fundo do vale. 

Olá. Isto é novo. 

Do topo via-se o fim da descida, 200 metros abaixo, até ao fundo apertado de um vale enorme. O trilho era selvagem, completamente exposto, por entre xisto solto e inclinações brutais que controlei com os bastões. Chegados ao fundo do claustrofóbico vale nem tivemos tempo de respirar antes de apanhar com uma parede subida a 4 apoios: pés e braços. 

"Poupem as pernas, a partir de agora isto é muito duro!!" Dizia um elemento da organização presente naquele sitio.


Até ao segundo abastecimento, situado a meio da grande subida de 800m que nos separava do topo, corremos num single espetacular, super variado, com picadas fortes a subir e pequenos troços planos que davam para esticar as pernas. Passámos pelas aldeias abandonadas de Porqueiras e Berlengas, por cascatas e trilhos de xisto, sempre numa sombra fresca.

Cascata de Porqueira. Sacado do Google, obviamente.
O abastecimento, situado na aldeia de Lomba aos 19km, marcava o meio da subida e parecia que entrávamos numa serra diferente. Os trilhos apertados e sombrios de xisto passaram a grandes paisagens de granito, expostas, megalómanas. Trepávamos agora por entre grandes maciços. Subíamos da minha maneira preferida: sem trilho. As fitas, sempre visíveis, estavam bastante distanciadas e deixavam ao nosso critério a melhor trajectória a seguir. Nem parecia que estávamos na mesma prova! 

A chegar ao topo. Foto do Nuno Baixinho.
Sem dar por isso já estava nos 1000m, no fim de uma longa e muito variada subida. Antes da descida tínhamos pela frente 3km de planalto para correr entre manadas de vacas arouquesas, solo macio e granito. Muito granito. 

42km não é de forma alguma uma distancia pequena, mas o meu chip ainda estava ligado nos três dígitos. O facto de percorrer menos de metade disso oferecia-me a confiança para abrir a passada e curtir os trilhos como há muito não o fazia. As pernas estavam soltas e eu fiz-lhes a vontade. Corri no planalto e na descida muito técnica, com muita pedra solta, até ao 3º abastecimento, onde estava novamente a minha comitiva. 



Estiveram muito tempo no abastecimento com pouco para fazer...



Mais uma vez, a descida levou-nos até ao fundo d'O Vale Mágico (é mesmo o nome, não estou a inventar). É impressionante como fica apertado lá em baixo. Acho que se abrirmos os braços conseguimos tocar nas duas encostas ao mesmo tempo. 

A coisa já tinha deixado de ser fofinha há algum tempo, mas agora ia começar a apertar. Esperava-nos um monstro de 800D+ percorridos em menos de 4km. E não foi meigo. 

O primeiro golpe foi disferido sem misericórdia. Uma parvoíce de uma encosta que nos levaria a ganhar cerca de 200m verticais com inclinações entre os 40 e 50%. Não, não me enganei a escrever. Ainda com as pernas a tremer, já fora da linha das árvores, deixamos a terra escura e húmida e voltamos ao austero granito. Vão-se os trilhos, volta novamente a outra face da prova. A encosta muito inclinada protege-nos do vento fresco que sossegava o calor e a subida continua a bater, bruta, até que finalmente avistamos a torre meteorológica, aos 1050m.

Quase lá em cima.
"O pior já passou!", dizia um senhor da organização lá em cima. 

Bom, se calhar tem razão. 33km, as duas principais subidas estão conquistadas, falta ali uma rampazinha de 350m mas não há-de ser mais difícil que esta.

Lembram-se da frase do MSD? Pois bem, entrámos na boca da Freita, agora é que vamos ser mastigados.

Parece fácil.
Logo a seguir à torre o percurso parece dar razão ao senhor. Um estradão, praticamente o único de toda a prova, embala-nos para 1.5km de corrida rápida e confortável, até apanharmos uma pequena rampa e nova descida tranquila, agora em trilho. Entrávamos na aldeia de Cabaços, local de uma segunda barreira horária. 

E então começou. Aos 36km, 6 do fim, quando tudo parecia resolvido, a Freita mostrou-se finalmente em todo o seu esplendor. Não há volta a dar, íamos ser sovados a torto e a direito e nem sequer desconfiávamos.

Aldeia de Cabaços.
Sem pedir licença, logo a seguir à saída da aldeia, mandam-nos para uma encosta que parecia saída dos Pirineus. Passámos por sítios vertiginosos durante a prova, mas nada como ali. Honestamente, tive medo de escorregar enquanto descia apoiado no rabo e com as mãos no chão. E não era uma rampa pequena. Descemos e descemos, sem trilho, num caminho cada vez mais difícil que se embrenhava nas árvores. Os bastões eram inúteis enquanto tentava única e simplesmente não resvalar por ali abaixo. 

O barulho de água a correr avisa-nos do fim da subida. De facto lá estava ela, a correr entre grandes maciços de granito no fundo de um vale. Atordoado ataquei imediatamente a subida, que ainda por cima era uma nova rampa super inclinada e incerta. 

Pufff. Progressão lentíssima. A subida acalma e entramos num trilho difícil que percorre a encosta numa espécie de varanda por entre as árvores. Paro para respirar e beber um pouco de água, enquanto aproveito para olhar à volta. Foi então que fiquei completamente arrebatado.

Não estava à espera. Não sabia que íamos passar ali! Ouvi falar dela dezenas de vezes, mas não esperava que fosse assim. Não consigo imaginar melhor maneira de a conhecer. Estava bem no coração da Frecha da Mizarela, à minha frente a água corria quase em câmara lenta pela gigantesca encosta de pedra até explodir no fundo do vale. Foi arrepiante. Saquei do telemóvel pela primeira vez para tirar uma fotografia, mas, como sempre, cheguei rapidamente à conclusão que não vai captar nem uma ínfima parte do que é estar ali e vê-la pela primeira vez. 

É impossível encontrar uma foto que lhe faça justiça.
Estava na barriga da besta. O trilho leva-nos ainda mais para baixo, numa descida muito perigosa que vou gerindo curva a curva. O tempo passa muito mais depressa que os metros. São, de longe, os quilómetros mais lentos de toda a prova. Começo a ficar com medo da "pequena rampa de 350m" que falava há bocado. 

Adivinhem? Sim, o medo era justificado. Já bem mastigados, a Freita preparava-se para nos cuspir. 

Apesar de ter metade do tamanho das outras, foi de longe a mais difícil. Completamente selvagem, sem trilho, com mato e pedras, exposta. Parece que um dos princípios do Sky Running é ir do ponto mais baixo ao mais alto pelo caminho mais curto possível. Aqui foi aplicado na perfeição! Que filha da mãe de subida! Estava a escassos 2km da meta e tinha a sensação que ainda ia a meio da prova! Lá em cima um elemento da organização incentivava com vontade todos os que se arrastavam encosta acima. Quando lá cheguei parei, olhei para ele e sorri. Ele riu-se de volta e disse-me orgulhoso: "Inventámos esta só para a prova!".

Demorei quase meia hora a percorrer os escassos 800 ou 900 metros! C'um caraças. Ainda com as pernas bambas corri na descida difícil e cheia de pedra que nos deixou às portas de Felgueira, a 500 metros da meta. Até que, finalmente, tivemos descanso. Era só passar o pórtico.


Que surpresa de prova! Adorei cada metro! O percurso é perfeito, foi-se mostrando nível a nível, nada monótono. Foi duro e técnico, com muito desnível e trilhos de progressão muito lenta, mas, como é característico das melhores provas, nunca deu a impressão que nos estavam a dificultar a vida só porque sim. A organização tem o maior crédito por ligar os diferentes trilhos de uma maneira que fez perfeito sentido. As marcações estavam impecáveis, sem exageros e colocadas de forma inteligente. Os abastecimentos, 4, eram suficientes e bem compostos. O único reparo que tenho é pela ausência de pessoal nas zonas mais perigosas. Atenção, sou completamente a favor da inclusão destas passagens, mas houve zonas que deviam ter alguma vigilância. 

Parece que há um bocado a tendência de colar a Freita ao UTSF e ao inevitável Moutinho. Mas, tal como a Serra da Lousã tem provas como o UTAX, Abutres ou Louzan, há espaço nesta magnifica Serra para mais que uma prova. Na minha opinião, esta primeira edição foi um sucesso estrondoso e esta prova tem tudo para ser marcante. Foi certamente das melhores que já participei e de certeza que vou voltar. 

Ah, já agora, lembram-se daquelas vacas arouquesas que eu disse que vi lá em cima? O naco que comi nessa noite era mais ou menos do tamanho de uma inteira.

Não me queria ir embora sem mostrar isto.



terça-feira, 5 de setembro de 2017

Porque fazemos o que fazemos.

Este fim de semana, em conversa com uns amigos Muggles, veio à baila a empreitada que o português José Massuça vai iniciar no Hawai daqui a uns dias: o EPIC 5. Trata-se de um ironman por dia, durante 5 dias, em 5 ilhas diferentes daquele arquipélago. Imediatamente a conclusão de todos foi que isso é uma parvoíce e que "já é de mais". Bem, de todos menos...eu. 

Não sei exactamente em que ponto da minha vida se deu a mudança. Tempos houve em que eu próprio falei em exagero, loucura ou ultrapassar limites. Como em 2010, quando corri a minha primeira maratona e me falaram em ultras. Ou 2012, quando fiz o meu primeiro trail, de 30km, e no mesmo dia se corriam os 80km do UTAX. 

O que leva alguém a fazer 5 ironman seguidos? Atravessar o Canal da Mancha a nadar, correr 250km no sitio mais quente do planeta, 300km nos Alpes ou na Via Algarviana? O que leva alguém, que tem uma família e uma profissão, a passar horas a treinar de madrugada, quando não tem a mais pequena ambição de sequer chegar a um pódio, quanto mais fazer uma vida disto? 40 ou 50 minutos de exercício 3 vezes por semana parece-me perfeitamente razoável para ter uma vida saudável, porque é que não ficamos por aí? Porquê perseguir uma série de conquistas inúteis, como tão brilhantemente o Rui Pinho descreveu depois da sua participação no UTMB'17?

A resposta não vem na forma de uma epifania. Aliás, sinceramente nem sei se há uma resposta! Cada um tem as suas motivações, suponho. Descobrir até onde podemos chegar, estar em comunhão com a natureza, a aventura ou a competição. Eu persigo aquela sensação de estar na linha de partida de uma aventura que durará 1 ou 2 dias, depois de horas e horas de treino, sem fazer a mínima ideia do que me espera. A conquista da distancia, do desnível, o virar de um cume, a vertigem de uma descida, o medo, a euforia, o desespero...

Mais do que uma resposta a esta pergunta, o ponto de viragem aconteceu no momento em que percebi uma coisa muito simples: nós somos capazes. 

Não é nenhum gene especial ou super poder físico. 

Sim, eu sei que isto soa a Gustavo Santos, mas a conclusão não podia ser mais básica e despretensiosa! É que, por arrasto, de repente damos por nós a fazer a pergunta que pode mudar a nossa vida: porque não?

Eu não sei qual foi a motivação do Massuça para ir fazer o EPIC 5, mas entendo-o. 




terça-feira, 11 de julho de 2017

Andorra Mitic - Indescritível.

21:50

A pequena praça de Ordino está apinhada de gente de um lado e do outro das baias. A adrenalina é impressionante, vêem-se muito poucos sorrisos enquanto um conjunto de percussão trata de acelerar ainda mais o ritmo cardíaco. Nunca estive tão tenso para uma prova. Fechava os olhos enquanto batia com os bastões dobrados na perna, ao ritmo dos tambores. 

21:55

Fogo de artificio. Os tambores foram substituídos por uma ópera que arrepiava todos os pelos do corpo. Finalmente vi o Sommer, do outro lado da barricada, que me veio entregar uma camisola térmica à ultima da hora. Esta ainda ia ter um papel importante na jornada. Mais fogo de artificio. Lembrei-me da minha Mel que devia estar a adorar. Vêem-me as lágrimas aos olhos à medida que a música aumenta de intensidade. Olho para o público e reparo que há muita gente do lado de lá com os olhos a brilhar.

21:59

De repente, mesmo no climax, a música pára. Um breve segundo de silêncio como que descarrega uma bigorna em cima dos ombros de cada um dos 446 que ali estão. Por momentos ninguém conseguiu reagir. Antes que alguém conseguisse sequer respirar fundo, a irromper o silêncio, um único badalar do sino da igreja a assinalar as 22 horas. 

GO!!!

Antes que pudesse sequer pestanejar voltam os tambores como um trovão gigantesco, fogo de artificio!! O corpo mexe-se sozinho, quase que vomito tal a adrenalina! Um ultimo abraço ao Joel, companheiro de aventura, um aperto de mão ao Sommer que devia estar do outro lado de cá das baias, mas estava ali de lágrimas nos olhos, passo por baixo do pórtico e procuro enervado a minha família. Só vejo a Sara, a quem dou um beijo. Também ela tem os olhos a brilhar. Todos vão iniciar comigo a corrida mais épica em que alguma vez participei. Vamos a isso.




Com o Joel, antes da partida
Nunca uma corrida me surpreendeu tanto como esta. Tudo o que pensava saber sobre o trail e a montanha foi revisto durante as quase 35 horas que durou esta epopeia. Sabia, obviamente, que ia ser muito dura. Mesmo por saber isso, confesso que nunca tinha tido tanto medo antes de começar uma prova. Ao contrário do primeiro MIUT ou do UTMB, as quais só queria começar e viver a experiência, desta vez dei comigo a repetir várias vezes à Sara durante o dia que nem se quer me apetecia correr, que tinha medo! Não esperava um milímetro de folga. Esperava sim um percurso super técnico, com muito desnível, desenhado exclusivamente para ser duro. Mas foi tão mais que isso...!!


Iniciámos a viagem com 5km muito tranquilos, de estrada e estradão, para sair de Ordino. A noite estava simplesmente perfeita. Nem muito calor, nem muito frio, nem humidade. Uma lua cheia num céu limpo desenhava os contornos dos monstros que se erguiam 360º à nossa volta, não me lembro de ter corrido numa noite melhor que esta. A ansiedade começou finalmente a baixar à medida que percorríamos o fundo do vale de Ordino, até que por volta dos 5.5km entrámos num trilho. E pronto, até voltar a percorrer estes mesmos 5km, que se repetem no final da prova, não voltaria a sair de trilhos. Não havia um único estradão ou estrada nos restantes 100km de prova.

Primeiros trilhos do dia
Como já perceberam, entrei nesta prova em nível de alerta máximo. Parti do principio que seria difícil do primeiro ao ultimo metro, logo fiz a única coisa que podia fazer: proteger-me e preparar-me para o pior. Não arrisquei um milímetro. Tentei ser eficiente nas subidas, escolhi as trajectórias mais fáceis e que implicassem menos amplitude de movimentos. As descidas, que me tramaram no UTMB, seriam feitas com a máxima poupança, até porque se previam demoníacas (mal eu sabia!). Foi assim nos 10km seguintes, que incluíam as primeiras duas subidas, uma de 400 e outra de 600+. Trilhos sempre embrenhados no bosque, numa encosta do vale, com as luzes de Ordino a ficaram muito pequenas lá em baixo. Segui sempre com o Joel, inseridos num comboio que percorria os trilhos tranquilamente, sem forçar nem ultrapassar. O trilho era em terra, com muitas raízes e algumas pedras, sempre em zigue zague. Bom de subir, sem grande dificuldade. Perto dos 2200m saímos finalmente da linha das árvores e tivemos o primeiro momento de deslumbre da noite. Afinal, apesar de já irmos a subir há mais de duas horas, a toda a nossa volta haviam montanhas muito, mas MUITO mais altas. À nossa frente, lá estava ele. Era inconfundível. Um triângulo perfeito erguia-se acima de todos. Era o Pic de Comapedrosa.


Chegámos à base do Comapedrosa (15km), local do 1º abastecimento, com 3 horas. Mais do que qualquer outra que tenha participado, esta prova requer uma grande autonomia em relação aos abastecimentos, chegando a passar várias horas entre eles, apesar de raramente estarem a mais que 10km. Não me senti muito confortável neste, ainda estava demasiada gente. No entanto, se há coisa que não podia falhar era a alimentação. Lá pedi um café e uma sopa, se é que se pode chamar sopa àquele caldo branco, espesso e salgado que à primeira vista até parecia leite! Na altura até pensei que se vomitasse aquilo certamente daria um efeito muito giro.

Era este o caldo!
Alimentação feita, era altura de respirar fundo e enfrentar o primeiro grande obstáculo da prova: a temível subida ao Comapedrosa.

Eu sabia os números, 900D+ em menos de 3km, o que dá uma inclinação média de 30%, a acabar nos 2942m do pico. O que não sabia, e nada me podia preparar para isso, era a insanidade que era aquela subida! Os 30% são muito pouco uniformes, há troços com menos que isso e outros que são autentica escalada. Primeiro numa encosta com terra e pedra, até que a terra desaparece e começamos a saltitar por entre grande maciços de pedra, uns soltos, outros cravados no chão. A certa altura todas as pedras se mexem por baixo dos nossos pés, enquanto tentamos escalar de maneira periclitante. A linha de luzes, que se vê desde a base até ao pico, estende-se fininha encosta acima quando parece impossível subir mais. De repente entramos num banco de gelo, que incrivelmente facilita a progressão, já que andamos por cima das rochas sem que estas se mexam. 

Subida ao Comapedrosa
Outra perspectiva
Quase uma hora depois de partirmos estamos a chegar ao fim da linha, no que parece ser o pico, mas, surpresa, era um colo! À nossa frente estendia-se agora nova linha de luzes, numa rampa que parecia perfeitamente vertical! Olho para o relógio e confirmo que ainda faltam subir 100m. Estar ali, no topo do mundo, depois de um esforço daqueles, com todas as montanhas iluminadas pela lua, linhas de luzes acima e abaixo, foi de tal forma extasiante que desatei a rir descontroladamente. Enfrentei esta rampa final, autentica escalada por grandes maciços, com um sorriso nos lábios. Que maravilha de subida! Que loucura! Mas as surpresas ainda não tinham acabado, quando parecia que tínhamos chegado ao fim, o pico apresentava-se à distancia de 200 metros percorridos na cumeada (ou ridge, se preferirem), toda ela em rocha com uma proeminência astronómica, falésias de centenas de metros para cada lado. Ultimo esforço e estávamos lá! Até o pico era brutal, não era uma elevação num planalto, era um verdadeiro pico, um pequeno triângulo muito apertado no fim da cumeada. 

Foto do pico, a encumeada percorrida fica para lá.
Como não podia deixar de ser, a descida seguinte foi bastante agressiva, num terreno muito parecido com a subida. Parámos (eu e o Joel) assim que nos sentimos minimamente protegidos do vento para comer e seguimos por mais 3 ou 4km de trilho pedregoso, troços com neve, outros ao lado de lagos, até chegarmos ao refúgio de Comapedrosa, no fundo de um vale. 

Foto deste ano, numa parte deste percurso até ao refúgio

Refúgio Comapedrosa, local do 2º abastecimento
Mais uma vez, não me senti confortável no abastecimento. Este era em comum com o Celestrail, uma outra prova do Andorra Ultra Trail, estava demasiada gente num sitio muito apertado, mas não se podia facilitar e lá comi novo caldo, presunto e mais umas coisas para compor. 


Esta parte do percurso, até ao abastecimento de Botella, mostra bem ao que viemos. As subida são invariavelmente íngremes, por mais curtas que sejam, as descidas sempre difíceis, quase sempre em trilhos cravados de pedra, e os únicos troços planos eram feitos nas cumeadas dos montes. Na grande descida até à base do abastecimento, mais de 700m de desnível negativo, andámos em terreno muito variado, inclusivamente com alguns troços que davam para correr, o que aumentava ainda mais o prazer. 

Eram 6 da manhã quando chegámos ao abastecimento aos 32km, depois de uma rampa de 300m feita como sempre em modo económico. Passei a noite inteira só com a tshirt, não tive frio e mal transpirei. É como disse lá atrás, não me lembro de ter apanhado uma noite melhor que esta para correr! As sensações eram excelentes e a moral estava altíssima. Já tenho a experiência suficiente para saber que numa altura tão precoce de uma prova isso não quer dizer nada, mas pelo menos sentia-me bem, estava a comer de hora a hora sem sacrifícios e mal podia esperar para continuar a descobrir o percurso. 


E que maravilha foi o percurso até Bony de la Pica! Uma primeira parte de 4km num trilho muito limpo, no meio das árvores, sem pedras, com um sobe e desce suave, numa encosta sempre acima dos 2100m. O sol nascia e iluminava lentamente as montanhas verdes do outro lado do vale. O trilho pedia para ser feito a correr e nós obedecemos. Fez-me lembrar o caminho entre os refúgios do UTMB e foi, tirando os primeiros e últimos 5km, o troço mais fácil de toda a prova. Desembocámos na base de mais uma rampa de cerca de 400m que nos levaria a uma das parte mais bonitas de toda a prova: Bony de La Pica.

Em Andorra, a chegada ao topo da subida quase nunca significa o fim da questão. A seguir há invariavelmente que percorrer uma distancia na cumeada e isso é das coisas mais espetaculares de fazer na montanha. Esta tinha mais de um km numa espinha com uns 20 metros de largura, ladeada por falésias, literalmente com mais de 1000m de queda para cada lado, isto aos 2400m de altitude. Abismal.

Foi mesmo ali no vértice que andámos
Esta fui eu que tirei! A única até agora eheh 
O prato seguinte era nada mais nada menos que uma descida de 1600m de desnível em menos que 8km. Sim. Façam as contas que se fizerem, é uma loucura.

Esta descida, numa palavra, posso descrever como assustadora. Assim que viramos o pico no fim da cumeada iniciámos uma espécie de queda livre numa encosta que chegou a ter 40% de inclinação. Lá de cima via-se o fundo, 1600m abaixo. Senti, pela primeira vez na prova (mas não a última), que um passo em falso poderia ter consequenciais verdadeiramente desastrosas. Pior fiquei quando tivemos que passar numa via ferrata, nessa mesma encosta, bem lá em cima. A certa altura o meu único pensamento não era descer mais ou menos depressa, nem poupar os músculos ou ser eficiente. Era simplesmente não resvalar por ali abaixo! À medida que descemos e nos embrenhamos no bosque o trilho vai mudando, ficando mais acessível. Era agora um caminho aos ésses, com menos pedra, muito divertido e bom de correr. O sorriso voltou e, pela primeira vez, baixei um pouco a guarda e curti a descida em vez de me preocupar com poupanças. Afinal a base de vida de Margineda já ali estava à vista e chegaria bastante tempo antes do previsto. O sol já tinha nascido, o céu estava limpo e a temperatura agradável, dificilmente poderia pedir que a prova corresse melhor do que até ali!

Neste edifício estava a Base de Vida. Sim, já cheguei ao ponto de ir ao street view sacar fotos!
A primeira base de vida estava situada aos 44km, sensivelmente um terço da distancia. Cheguei lá 2h30 antes do que previa inicialmente, às 9h30, o que impossibilitou a ida da Sara, dos miúdos e dos meus pais como estava combinado. Acabei também por não me cruzar com o Sommer, que em principio estaria lá mas que por azar tinha saído, precisamente à procura de wireless para saber a minha localização (o roaming em Andorra é absurdo). Sentei-me com o Joel no meio do pavilhão e, calmamente, tratámos cada um dos nossos afazeres. Troquei de tshirt e meias, comi e tomei algumas decisões relativas ao equipamento para o resto da prova. Pensei na noite espetacular que esteve e lembrei-me do céu limpo da manhã, com a temperatura a aquecer. Por alguma razão meti de lado toda a pesquisa que fiz sobre a meteorologia no fim de semana, incluindo várias perguntas ao João Pedro, que é meteorologista, e que apontavam invariavelmente para pioria do estado do tempo a partir da tarde. Nah. Eu sabia melhor que isso, o tempo ia estar espetacular, de certeza! Tirei a camisola térmica, as calças impermeáveis, o gorro e as luvas da mochila. Era só peso extra, não precisava daquilo para nada! Decidi continuar apenas com uma tshirt, corta vento e o casaco impermeável, chegava bem, de certeza! 

...dêem-me um desconto, já vinha com 11 horas de prova.


Saímos do abastecimento para a outra encosta do vale. Atravessámos a ponte de Margineda e preparámo-nos para subir uma besta com 1600m de desnível em 8.5km. Olhei para trás, para a estrada, e vejo o carro do meu pai a passar! Liguei logo para a Sara, fiz um pequeno desvio e esperei por eles na rotunda. Bem a tempo de lhes dar um beijo antes de seguir viagem! Agora só os veria na segunda base de vida, perto dos 80km. Não que não quisessem ir a algum ponto intermédio, mas simplesmente nos próximos 30 e muitos quilómetros não cruzaria sequer uma estrada, era montanha pura e dura!

Se ao menos lhes tivesse contado das decisões espetaculares que tinha tomado há uns minutos...

Pont de la Margineda, no ponto mais baixo de todo o percurso, aos 950m.
Voltei ao percurso e acelerei um pouco até voltar a encontrar o Joel, que tinha seguido lentamente. O calor estava verdadeiramente a apertar nesta altura, suava em bica e estava a começar a ficar preocupado com isso. Tomei eletrólitos e comecei a pensar em formas de racionar os 2 litros de água que levava. Seria então o calor o grande inimigo do resto da corrida.

...Do outro lado do vale uma trovoada formava-se...

Continuámos juntos a subir. Sem forçar nada, íamos no mesmo ritmo por ali acima. Raramente ando tanto tempo com alguém em prova, não gosto de adaptar nem que adaptem o ritmo ao meu, mas naquele dia eu e o Joel estávamos em perfeita sintonia. De 100 em 100 metros de desnível gritava para o Joel "MAIS 100!!!" e de hora a hora ele gritava para mim "ESTÁ NA HORA!". Então parávamos, mesmo que não estivéssemos no limite, e comíamos uma barra ou um gel descansados, num pausa que nunca tinha mais que 5 minutos. Mas estava tanto calor...

...Do outro lado do vale, os trovões intensificavam-se. Era um ribombar quase contínuo. Do outro lado...

A subida era imensa. Nunca fiz nada parecido, nem no UTMB. É enorme, infinita, e sempre com uma grande inclinação. Às tantas começou a soprar uma brisa muito fresca. Agradeci o ligeiro arrefecimento dos motores.

...Do outro do vale já quase não se viam as montanhas, tapadas por uma névoa de chuva... Felizmente não ia passar para este lado. Pois não?

Começou a pingar. Que bom! Sabe mesmo bem estas pingas fresquinhas, ainda fiquei mais bem disposto. Até pensei para mim que assim o tempo estava perfeito, que ia ser um grande dia!

Começou a chover. Grosso. Vesti o impermeável por cima da mochila.

Ok, no problem. São só restos da trovoada que está lá do out... 

Brrrroooooommmmm!!!

Ops. Este caiu perto. Deve ter sido mais na periferia.

Passámos os 2200m e saímos da linha das árvores. Estávamos agora completamente expostos e ainda com 400m de subida pela frente. A chuva intensificou-se, estava completamente ensopado. O vento era fortíssimo e a ficar mais intenso. Os trovões não cessavam até que...

BBBBBBRBRRRRROOOOOOOOOOOMMMMMMMM!!!!!

Ainda vi o raio que caiu muito, muito perto, imediatamente seguido de um trovão ensurdecedor!! 

A trovoada estava agora directamente em cima de nós!

Estremeci. A chuva intensificou-se e estava agora a cair granizo. Já via o colo que haveríamos de virar antes do abastecimento, mas comecei a arrefecer muito. Comecei a ficar verdadeiramente assustado quando os relâmpagos começaram a iluminar tudo, tal era a escuridão que as nuvens provocaram. Deixei de pensar no esforço da subida e em como vinha cansado, apertei o passo para chegar rapidamente ao abastecimento, que estava logo a seguir ao colo, depois de uma pequena descida. Mas assim que viro a montanha... 

Oh não.

Uma rajada de vento quase que me deita abaixo. Voa-me da cabeça o capuz do impermeável e o boné, que usava por baixo. Parei, em pânico, uns segundos antes de o perseguir. Voltei a colocar o capuz e completamente atordoado, ainda a tremer, começo a descer para o abastecimento. O vento era inacreditável, não conseguia usar os bastões porque eram empurrados por ele! A temperatura baixara de uma maneira incrível, pelo menos uns 20 graus desde a base da subida. A chuva era grossa e picava na cara, as minhas mãos arrefeciam brutalmente. OH NÃO!!!

Entrei no abastecimento, num refúgio, a tremer. Não só de frio. Sentei-me a respirar sofregamente e demorei uns dois minutos até reagir. Passou-me tudo pela cabeça, mas o que mais me irritava era o inacreditável erro de principiante que cometera! Ali estava, aos 2600 metros, com 30km de alta montanha pela frente até chegar a uma base de vida, sem qualquer acesso a ajuda externa e sem sequer o mínimo equipamento para enfrentar uma situação daquelas! Que estúpido, apeteceu-me esmurrar-me!

Tirei a mochila e vesti o corta vento, depois o impermeável por cima. As mãos estavam geladas, mas não tinha luvas, por isso enrolei os manguitos nas mãos. E era isso. Não tinha mais nada. Nem calças, nem gorro, nem luvas, nem sequer uma roupa térmica. Lá fora a trovoada não cessava, parecia que cada vez fechava mais. Respirei fundo à porta do refugio abafado e húmido, dei um passo em frente e senti um baque. Estava molhado, gelado e prestes a enfrente 30km sempre acima dos 2000 metros, com uma passagem nos 2900. Oh não...


Felizmente fisicamente estava impecável. Assim que saio do abastecimento meto um bom passo que me permitiria aquecer, mas estava difícil. Mesmo com os manguitos enrolados, as mãos estavam a ficar dormentes e a roupa não estancava de maneira nenhuma o frio. Pensei nas minhas hipóteses mas essas não eram boas. O que ia fazer? Desistir? Esperar por um helicóptero? Não, não queria por essa hipótese. Não há nada a fazer, na base de vida, aos 80km, está equipamento para o frio, só tenho é que arranjar maneira de lá chegar! Aumentei o ritmo na descida até começar a ficar finalmente ligeiramente confortável. Estremecia a cada trovão, que não abrandavam, mas ainda ficava mais assustado com o pensamento de num dos pontos de controlo me pedirem o equipamento obrigatório e eu fosse JUSTAMENTE desclassificado!

Estava nos 2000m, na base de mais uma grande subida com cerca de 900 metros de desnível, quando a chuva abrandou. Continuei a andar forte, não queria facilitar. Esta subida não era muito difícil e foi feita quase todo no meio de um bosque, o que protegia do vento. Nada mau. Além disso, a chuva parou e eu estava a aquecer! 

Até que, de repente, tão depressa como desapareceu, o sol brilhou! Não demorou mais que 15 minutos até o céu passar de cinzento escuro a completamente limpo. A temperatura voltou a subir muito e o sol brilhava. Numa questão de minutos. Incrível. A montanha decidiu dar-me uma lição que eu nunca mais me vou esquecer.

Passagem por um lago já perto do refugio, foto minha. Reparem no céu :)
Refugi de L'Illa, local do abastecimento
Uff...

Entrei no refúgio e fui comer. Uma construção moderna, muito engraçada, por cima de um antigo refúgio de montanha. Comi massa e sopa. Bebi e reabasteci bem com água e fui à casa de banho. Saí de lá novo! 


Seguia-se o ataque final a Collada Pessons, muito perto dos 2900m de altitude. Faltava apenas uma subida de 400m e depois um passeio em mais uma cumeada. E, meus amigos, que cumeada! 

Vêem o vértice lá atrás? Foi mesmo aí por cima que viemos, num terreno cheio de pedra como aquele mesmo por trás de mim.
Faltava agora uma longa descida de de 10km e 1500m de desnivel até ao abastecimento. Agora reparem bem no perfil oficial da prova e vejam se isto não parece um miminho de descida suave!
Deve ser fácil!
Ok, logo a seguir ao pico temos outra queda livre de 400 metros. Mas pronto, ali no perfil da prova também aparece uma parte mais inclinada antes de suavizar, a partir de agora é que é fácil.

Hm, hm. Claro que sim.

Foram 3km, sim 3, que demorei quase uma hora a percorrer, a descer por um vale completamente coberto com grandes maciços de granito. Uma hora a saltitar de rocha em rocha, quase sem tocar na terra, só pedra! Desesperante! No entanto, não me deixei afectar, a prova estava a correr-me lindamente, como já perceberam. Tinha mais de 8 horas de folga para o corte, sentia-me excelente fisicamente, estava a chegar à segunda base de vida onde me esperava a minha família e só me faltava um terço do caminho. Aceitei as dificuldades e continuei a descer até Bordes d'Envalira. Está quase! 

...achava eu...

Chegada à segunda base de vida, com a minha filhota.
Na base de vida estava o meu pai, a Sara e a Mel. A minha mãe estava com o Manel em casa. Comi muito bem, massa com atum, azeitonas e tomate. Bebi um fast recovery e, mais importante que tudo, equipei-me como deve ser para o frio. Camisola térmica, manguitos, corta vento, gorro, buff no pescoço e luvas. Na mala ainda levava as calças e o casaco impermeáveis. Na altura o céu estava limpo, mas já tinha facilitado tudo o que havia a facilitar naquele dia.

Saí muito bem disposto do abastecimento e preparei-me para o último terço do percurso. 


Esta ultima parte do percurso, desde a primeira vez que vi, faz-me lembrar a parte final do UTMB. Três montanhas praticamente iguais para virar antes de uma grande descida para a meta. No UTMB eram subidas e descidas trabalhosas mas muito boas de se fazer. Recuperei muito da minha prova aí. Na minha cabeça, essa associação ao UTMB estabeleceu-se imediatamente para os 3 montes da Mitic. O principal da prova seria chegar à segunda base de vida, depois é subir devagar e com eficácia, como eu bem sei, e descer o que pudesse. Como tinha chegado ali muito bem fisicamente, ainda fiquei mais contente porque achei que teria pernas para fazer boas descidas.

ROUND 1

A primeira subida, de 600m, correspondia exactamente ao que tinha previsto. Um trilho agradável, muito bom de subir. Meti um passo muito pequeno mas constante e ultrapassei algumas pessoas até lá acima. Só se complicou um bocado nos 100m finais, em que subimos à mau pela encosta, sem trilho. O sol pôs-se durante esta subida e o tempo estava fresco. Quando cheguei ao topo e comecei mais uma travessia de uma cumeada, sentei-me numa rocha e tirei o relógio da mala, que estava a carregar. Demorara menos de uma hora a subir, melhor do que esperava. Perfeito! Tirei uma barra e comi lentamente. Nesta altura já estava sozinho, infelizmente o meu andamento e do Joel ficaram diferentes a seguir ao Refugia de L'Illa e ele seguia um pouco atrás. 

Preparei-me para a descida.

Como podem ver no gráfico, a descida é mais que a subida. O fundo do vale era 800 metros abaixo de onde estávamos, vencidos numa descida com 5km. 

Começou.

Tentei correr logo de inicio, embalado pelo ânimo da subida, mas logo se começou a revelar impossível. Afinal o trilho não era propriamente limpo, estava cravado de pedra. A noite estava escura, entretanto tinham aparecido algumas nuvens que taparam a lua, só se via do outro lado do vale um carreiro interminável de luzes encosta acima. Ainda não lhe via o fim, era preciso descer mais um bocado. E descemos. Descemos muito. Continuámos a descer e o trilho a ficar mais difícil. Pedra, pedra e mais pedra! Desisti de correr e entrei em modo poupança, de qualquer maneira estava a dar cabo dos pés nas pedras que tapavam o trilho. Descemos, descemos, descemos... Até que finalmente vi umas luzes amarelas no fundo do vale. Era o abastecimento, no fundo de uma garganta muito apertada. Olhei para a a frente e arrepiei-me, um carreiro de luzes brancas recortava a outra encosta até ao céu. .

Vall d'Incles, local do abastecimento. 
No abastecimento encontrei o Rui Nascimento, que estava a terminar a sua Ronda dels Cims (100 milhas) e a ter uma prestação excelente. Ele estava eufórico, mas eu estava no outro lado do espectro. Não estava à espera daquela descida. Não estava mesmo. Estava aterrorizado com o que faltava, e ainda faltava muito. Agora, à distância, percebo que foi a minha cabeça que me atraiçoou. Mentalizei-me que esta seria a parte fácil da prova e de repente percebi que podia estar enganado. Tanta vez que isto já me aconteceu, mas há pouco que se possa fazer, faz parte deste desporto.

ROUND 2

Este era o mais temível. A subida tinha quase 900 metros de desnível, até aos 2800m, e depois uma descida que, agora já tinha a certeza, seria muito difícil. Até chegar a um abastecimento em alta montanha. Comecei muito a medo, cheio de dúvidas. Subi de maneira lentíssima, preparado para o pior. Assim que começo a ganhar uma pequena chama de confiança o trilho começa a empinar e a ficar mais difícil, mais técnico. É impossível fazer o que gosto, a passada eficaz, não consigo dar dois passos seguidos com a mesma amplitude, tenho que saltitar de socalco em socalco, de rocha em rocha.. O terreno é tão inclinado que os gémeos vão constantemente distendidos. Perco completamente a postura e subo dobrado para a frente, apoiado nos bastões. Começo a parar de 100 em 100m de desnível para descansar, até nem isso conseguir. A certa altura chegamos ao que eu achava ser o topo só para ver mais um carreiro de luzes, mais 200 metros de subida. Começou a chover e eu comecei a desesperar! Vamos. Ter. Problemas.

Topo virado.

Assim que lá chego acima sento-me numa rocha e vem ter comigo uma pessoa que estava lá a fazer o controlo das passagens. Fala comigo durante uns minutos e diz-me que a próxima subida é um pouco mais fácil que esta. Pensava ele. Depois lá me disse: "pronto, mas eu também não estava cansado quando a fiz. Se calhar é parecida com esta". 

...

Comecei a descida, tal como esperava era complicadíssima. Mais uma tareia de pedras, ainda pior que a outra! Batia, batia, batia... Mais 3km de porrada, pura e dura! Cheguei ao abastecimento ensopado, gelado e muito assustado. Ainda faltava um!

Refugio de Coms de Jan, o penúltimo abastecimento.
Entrei no pequeno refugio onde havia uma lareira acesa e procurei imediatamente um lugar para me sentar. No abastecimento haviam 4 ou 5 beliches, todos ocupados. Resisti à tentação de me deitar também, que era muita, bebi dois cafés e tentei comer alguma coisa. A comida continuava a entrar, mas nesta altura mais que problemas de estômago era pouca a vontade de comer. 

ROUND 3

Enchi-me de coragem e saí do abastecimento, mais um choque térmico. Esta subida era tão ou mais difícil que a anterior! Pedra e mais pedra! Subíamos por uma encosta coberta de pedra, as bandeirolas que indicavam o percurso estavam muito afastadas umas das outras, não havia trilho, havia apenas uma indicação do caminho, tínhamos que escolher a melhor maneira de progredir. Nesta altura vou completamente sozinho, nem sequer vejo luzes à frente ou atrás. Tenho várias vezes a noção que aquele caminho acarreta um perigo muito real, mais uma vez um passo em falso pode ter consequências graves. Ainda por cima vou a alucinar há algum tempo, isto acontece-me sempre que faço a segunda noite, mas nunca com tanta frequência como desta vez. Vejo caras em todos o lado, nas pedras, na terra, nas nuvens que cobrem a lua. Digo a mim mesmo que nada daquilo é real. É engraçado porque tenho essa noção, mas não consigo evitar que aconteça. A certa altura estava convencidíssimo que estava uma família sentada num banco na encosta a observar quem passava, só quando lá cheguei mesmo ao pé é que vi que eram umas rochas. No entanto fui avançando. Muito lentamente, a parar muitas vezes, mas cerrei os dentes e fui avançando, até que finalmente cheguei ao pico, mesmo na altura em que nasceu o sol. 

Ia agora entrar no Vall de Sorteny e iniciar uma descida longuissima que me faria perder 800 metros em 7km.

Vall de Sorteny
O vale era de uma dimensão avassaladora. Não quero sequer tentar descrever, era inacreditável. Estava completamente sozinho, não via ninguém à frente nem atrás até onde a vista alcançava, e a vista era desimpedida por vários quilómetros. Nunca me senti tão pequeno na montanha. O trilho não era fácil, claro, mas isso agora interessava pouco. Desci como pude, sempre a ver coisas que não existiam, como aquelas duas tendas brancas que de certeza que eram o abastecimento, e afinal eram nuvens reflectidas num lago. 

A sensação de derrota e medo tinha desaparecido há algum tempo, nesta altura já nada me fazia duvidar que a prova estava feita. Foi assim enquanto estive uns minutos sentado no ultimo abastecimento e mandei uma mensagem a avisar a família.

Cerca de duas horas depois chegava à meta. Uma meta triste, antes das nove da manhã, alegrada apenas pela presença da Sara. Desta vez sozinha, porque não teve tempo de preparar os miúdos, mas tinha que estar presente. Correu comigo do primeiro ao último metro, não fazia sentido que não estivesse também na chegada. 

Ainda há uma foto a chegar à meta, pela Sara. Ainda por cima prova que corri efectivamente numa subida!
Foram 34h55 para os 112km com 9700D+. Tenho que confessar que estou extremamente satisfeito com a minha prova. Modéstia à parte, fiz uma gestão do esforço muito boa, motivado pelo medo que tinha dela, é certo. Nunca senti que a prova estivesse em risco. Mas que isso não se confunda com desinteresse ou facilidade, muito pelo contrário. Esta foi sem dúvida alguma a corrida mais desafiante e exigente da minha vida. Foi tudo o que esperava e muito mais que isso. O percurso é extremamente duro, mas não é artificialmente duro. Tudo ali faz sentido, do primeiro ao ultimo metro, não podia ser de outra maneira. A organização, à qual pelos vistos há muito a apontar na nova prova Eufória (220km em equipa) na Mitic esteve irrepreensível. Aprendi muito sobre trail, sobre a montanha e até sobre mim. Adorei cada metro desta epopeia, cada pedra, cada subida e cada descida. Dito isto, antes partir um bracinho do que voltar a fazê-la, é que aquilo é de loucos! :)