As minhas corridas na estrada

terça-feira, 11 de julho de 2017

Andorra Mitic - Indescritível.

21:50

A pequena praça de Ordino está apinhada de gente de um lado e do outro das baias. A adrenalina é impressionante, vêem-se muito poucos sorrisos enquanto um conjunto de percussão trata de acelerar ainda mais o ritmo cardíaco. Nunca estive tão tenso para uma prova. Fechava os olhos enquanto batia com os bastões dobrados na perna, ao ritmo dos tambores. 

21:55

Fogo de artificio. Os tambores foram substituídos por uma ópera que arrepiava todos os pelos do corpo. Finalmente vi o Sommer, do outro lado da barricada, que me veio entregar uma camisola térmica à ultima da hora. Esta ainda ia ter um papel importante na jornada. Mais fogo de artificio. Lembrei-me da minha Mel que devia estar a adorar. Vêem-me as lágrimas aos olhos à medida que a música aumenta de intensidade. Olho para o público e reparo que há muita gente do lado de lá com os olhos a brilhar.

21:59

De repente, mesmo no climax, a música pára. Um breve segundo de silêncio como que descarrega uma bigorna em cima dos ombros de cada um dos 446 que ali estão. Por momentos ninguém conseguiu reagir. Antes que alguém conseguisse sequer respirar fundo, a irromper o silêncio, um único badalar do sino da igreja a assinalar as 22 horas. 

GO!!!

Antes que pudesse sequer pestanejar voltam os tambores como um trovão gigantesco, fogo de artificio!! O corpo mexe-se sozinho, quase que vomito tal a adrenalina! Um ultimo abraço ao Joel, companheiro de aventura, um aperto de mão ao Sommer que devia estar do outro lado de cá das baias, mas estava ali de lágrimas nos olhos, passo por baixo do pórtico e procuro enervado a minha família. Só vejo a Sara, a quem dou um beijo. Também ela tem os olhos a brilhar. Todos vão iniciar comigo a corrida mais épica em que alguma vez participei. Vamos a isso.




Com o Joel, antes da partida
Nunca uma corrida me surpreendeu tanto como esta. Tudo o que pensava saber sobre o trail e a montanha foi revisto durante as quase 35 horas que durou esta epopeia. Sabia, obviamente, que ia ser muito dura. Mesmo por saber isso, confesso que nunca tinha tido tanto medo antes de começar uma prova. Ao contrário do primeiro MIUT ou do UTMB, as quais só queria começar e viver a experiência, desta vez dei comigo a repetir várias vezes à Sara durante o dia que nem se quer me apetecia correr, que tinha medo! Não esperava um milímetro de folga. Esperava sim um percurso super técnico, com muito desnível, desenhado exclusivamente para ser duro. Mas foi tão mais que isso...!!


Iniciámos a viagem com 5km muito tranquilos, de estrada e estradão, para sair de Ordino. A noite estava simplesmente perfeita. Nem muito calor, nem muito frio, nem humidade. Uma lua cheia num céu limpo desenhava os contornos dos monstros que se erguiam 360º à nossa volta, não me lembro de ter corrido numa noite melhor que esta. A ansiedade começou finalmente a baixar à medida que percorríamos o fundo do vale de Ordino, até que por volta dos 5.5km entrámos num trilho. E pronto, até voltar a percorrer estes mesmos 5km, que se repetem no final da prova, não voltaria a sair de trilhos. Não havia um único estradão ou estrada nos restantes 100km de prova.

Primeiros trilhos do dia
Como já perceberam, entrei nesta prova em nível de alerta máximo. Parti do principio que seria difícil do primeiro ao ultimo metro, logo fiz a única coisa que podia fazer: proteger-me e preparar-me para o pior. Não arrisquei um milímetro. Tentei ser eficiente nas subidas, escolhi as trajectórias mais fáceis e que implicassem menos amplitude de movimentos. As descidas, que me tramaram no UTMB, seriam feitas com a máxima poupança, até porque se previam demoníacas (mal eu sabia!). Foi assim nos 10km seguintes, que incluíam as primeiras duas subidas, uma de 400 e outra de 600+. Trilhos sempre embrenhados no bosque, numa encosta do vale, com as luzes de Ordino a ficaram muito pequenas lá em baixo. Segui sempre com o Joel, inseridos num comboio que percorria os trilhos tranquilamente, sem forçar nem ultrapassar. O trilho era em terra, com muitas raízes e algumas pedras, sempre em zigue zague. Bom de subir, sem grande dificuldade. Perto dos 2200m saímos finalmente da linha das árvores e tivemos o primeiro momento de deslumbre da noite. Afinal, apesar de já irmos a subir há mais de duas horas, a toda a nossa volta haviam montanhas muito, mas MUITO mais altas. À nossa frente, lá estava ele. Era inconfundível. Um triângulo perfeito erguia-se acima de todos. Era o Pic de Comapedrosa.


Chegámos à base do Comapedrosa (15km), local do 1º abastecimento, com 3 horas. Mais do que qualquer outra que tenha participado, esta prova requer uma grande autonomia em relação aos abastecimentos, chegando a passar várias horas entre eles, apesar de raramente estarem a mais que 10km. Não me senti muito confortável neste, ainda estava demasiada gente. No entanto, se há coisa que não podia falhar era a alimentação. Lá pedi um café e uma sopa, se é que se pode chamar sopa àquele caldo branco, espesso e salgado que à primeira vista até parecia leite! Na altura até pensei que se vomitasse aquilo certamente daria um efeito muito giro.

Era este o caldo!
Alimentação feita, era altura de respirar fundo e enfrentar o primeiro grande obstáculo da prova: a temível subida ao Comapedrosa.

Eu sabia os números, 900D+ em menos de 3km, o que dá uma inclinação média de 30%, a acabar nos 2942m do pico. O que não sabia, e nada me podia preparar para isso, era a insanidade que era aquela subida! Os 30% são muito pouco uniformes, há troços com menos que isso e outros que são autentica escalada. Primeiro numa encosta com terra e pedra, até que a terra desaparece e começamos a saltitar por entre grande maciços de pedra, uns soltos, outros cravados no chão. A certa altura todas as pedras se mexem por baixo dos nossos pés, enquanto tentamos escalar de maneira periclitante. A linha de luzes, que se vê desde a base até ao pico, estende-se fininha encosta acima quando parece impossível subir mais. De repente entramos num banco de gelo, que incrivelmente facilita a progressão, já que andamos por cima das rochas sem que estas se mexam. 

Subida ao Comapedrosa
Outra perspectiva
Quase uma hora depois de partirmos estamos a chegar ao fim da linha, no que parece ser o pico, mas, surpresa, era um colo! À nossa frente estendia-se agora nova linha de luzes, numa rampa que parecia perfeitamente vertical! Olho para o relógio e confirmo que ainda faltam subir 100m. Estar ali, no topo do mundo, depois de um esforço daqueles, com todas as montanhas iluminadas pela lua, linhas de luzes acima e abaixo, foi de tal forma extasiante que desatei a rir descontroladamente. Enfrentei esta rampa final, autentica escalada por grandes maciços, com um sorriso nos lábios. Que maravilha de subida! Que loucura! Mas as surpresas ainda não tinham acabado, quando parecia que tínhamos chegado ao fim, o pico apresentava-se à distancia de 200 metros percorridos na cumeada (ou ridge, se preferirem), toda ela em rocha com uma proeminência astronómica, falésias de centenas de metros para cada lado. Ultimo esforço e estávamos lá! Até o pico era brutal, não era uma elevação num planalto, era um verdadeiro pico, um pequeno triângulo muito apertado no fim da cumeada. 

Foto do pico, a encumeada percorrida fica para lá.
Como não podia deixar de ser, a descida seguinte foi bastante agressiva, num terreno muito parecido com a subida. Parámos (eu e o Joel) assim que nos sentimos minimamente protegidos do vento para comer e seguimos por mais 3 ou 4km de trilho pedregoso, troços com neve, outros ao lado de lagos, até chegarmos ao refúgio de Comapedrosa, no fundo de um vale. 

Foto deste ano, numa parte deste percurso até ao refúgio

Refúgio Comapedrosa, local do 2º abastecimento
Mais uma vez, não me senti confortável no abastecimento. Este era em comum com o Celestrail, uma outra prova do Andorra Ultra Trail, estava demasiada gente num sitio muito apertado, mas não se podia facilitar e lá comi novo caldo, presunto e mais umas coisas para compor. 


Esta parte do percurso, até ao abastecimento de Botella, mostra bem ao que viemos. As subida são invariavelmente íngremes, por mais curtas que sejam, as descidas sempre difíceis, quase sempre em trilhos cravados de pedra, e os únicos troços planos eram feitos nas cumeadas dos montes. Na grande descida até à base do abastecimento, mais de 700m de desnível negativo, andámos em terreno muito variado, inclusivamente com alguns troços que davam para correr, o que aumentava ainda mais o prazer. 

Eram 6 da manhã quando chegámos ao abastecimento aos 32km, depois de uma rampa de 300m feita como sempre em modo económico. Passei a noite inteira só com a tshirt, não tive frio e mal transpirei. É como disse lá atrás, não me lembro de ter apanhado uma noite melhor que esta para correr! As sensações eram excelentes e a moral estava altíssima. Já tenho a experiência suficiente para saber que numa altura tão precoce de uma prova isso não quer dizer nada, mas pelo menos sentia-me bem, estava a comer de hora a hora sem sacrifícios e mal podia esperar para continuar a descobrir o percurso. 


E que maravilha foi o percurso até Bony de la Pica! Uma primeira parte de 4km num trilho muito limpo, no meio das árvores, sem pedras, com um sobe e desce suave, numa encosta sempre acima dos 2100m. O sol nascia e iluminava lentamente as montanhas verdes do outro lado do vale. O trilho pedia para ser feito a correr e nós obedecemos. Fez-me lembrar o caminho entre os refúgios do UTMB e foi, tirando os primeiros e últimos 5km, o troço mais fácil de toda a prova. Desembocámos na base de mais uma rampa de cerca de 400m que nos levaria a uma das parte mais bonitas de toda a prova: Bony de La Pica.

Em Andorra, a chegada ao topo da subida quase nunca significa o fim da questão. A seguir há invariavelmente que percorrer uma distancia na cumeada e isso é das coisas mais espetaculares de fazer na montanha. Esta tinha mais de um km numa espinha com uns 20 metros de largura, ladeada por falésias, literalmente com mais de 1000m de queda para cada lado, isto aos 2400m de altitude. Abismal.

Foi mesmo ali no vértice que andámos
Esta fui eu que tirei! A única até agora eheh 
O prato seguinte era nada mais nada menos que uma descida de 1600m de desnível em menos que 8km. Sim. Façam as contas que se fizerem, é uma loucura.

Esta descida, numa palavra, posso descrever como assustadora. Assim que viramos o pico no fim da cumeada iniciámos uma espécie de queda livre numa encosta que chegou a ter 40% de inclinação. Lá de cima via-se o fundo, 1600m abaixo. Senti, pela primeira vez na prova (mas não a última), que um passo em falso poderia ter consequenciais verdadeiramente desastrosas. Pior fiquei quando tivemos que passar numa via ferrata, nessa mesma encosta, bem lá em cima. A certa altura o meu único pensamento não era descer mais ou menos depressa, nem poupar os músculos ou ser eficiente. Era simplesmente não resvalar por ali abaixo! À medida que descemos e nos embrenhamos no bosque o trilho vai mudando, ficando mais acessível. Era agora um caminho aos ésses, com menos pedra, muito divertido e bom de correr. O sorriso voltou e, pela primeira vez, baixei um pouco a guarda e curti a descida em vez de me preocupar com poupanças. Afinal a base de vida de Margineda já ali estava à vista e chegaria bastante tempo antes do previsto. O sol já tinha nascido, o céu estava limpo e a temperatura agradável, dificilmente poderia pedir que a prova corresse melhor do que até ali!

Neste edifício estava a Base de Vida. Sim, já cheguei ao ponto de ir ao street view sacar fotos!
A primeira base de vida estava situada aos 44km, sensivelmente um terço da distancia. Cheguei lá 2h30 antes do que previa inicialmente, às 9h30, o que impossibilitou a ida da Sara, dos miúdos e dos meus pais como estava combinado. Acabei também por não me cruzar com o Sommer, que em principio estaria lá mas que por azar tinha saído, precisamente à procura de wireless para saber a minha localização (o roaming em Andorra é absurdo). Sentei-me com o Joel no meio do pavilhão e, calmamente, tratámos cada um dos nossos afazeres. Troquei de tshirt e meias, comi e tomei algumas decisões relativas ao equipamento para o resto da prova. Pensei na noite espetacular que esteve e lembrei-me do céu limpo da manhã, com a temperatura a aquecer. Por alguma razão meti de lado toda a pesquisa que fiz sobre a meteorologia no fim de semana, incluindo várias perguntas ao João Pedro, que é meteorologista, e que apontavam invariavelmente para pioria do estado do tempo a partir da tarde. Nah. Eu sabia melhor que isso, o tempo ia estar espetacular, de certeza! Tirei a camisola térmica, as calças impermeáveis, o gorro e as luvas da mochila. Era só peso extra, não precisava daquilo para nada! Decidi continuar apenas com uma tshirt, corta vento e o casaco impermeável, chegava bem, de certeza! 

...dêem-me um desconto, já vinha com 11 horas de prova.


Saímos do abastecimento para a outra encosta do vale. Atravessámos a ponte de Margineda e preparámo-nos para subir uma besta com 1600m de desnível em 8.5km. Olhei para trás, para a estrada, e vejo o carro do meu pai a passar! Liguei logo para a Sara, fiz um pequeno desvio e esperei por eles na rotunda. Bem a tempo de lhes dar um beijo antes de seguir viagem! Agora só os veria na segunda base de vida, perto dos 80km. Não que não quisessem ir a algum ponto intermédio, mas simplesmente nos próximos 30 e muitos quilómetros não cruzaria sequer uma estrada, era montanha pura e dura!

Se ao menos lhes tivesse contado das decisões espetaculares que tinha tomado há uns minutos...

Pont de la Margineda, no ponto mais baixo de todo o percurso, aos 950m.
Voltei ao percurso e acelerei um pouco até voltar a encontrar o Joel, que tinha seguido lentamente. O calor estava verdadeiramente a apertar nesta altura, suava em bica e estava a começar a ficar preocupado com isso. Tomei eletrólitos e comecei a pensar em formas de racionar os 2 litros de água que levava. Seria então o calor o grande inimigo do resto da corrida.

...Do outro lado do vale uma trovoada formava-se...

Continuámos juntos a subir. Sem forçar nada, íamos no mesmo ritmo por ali acima. Raramente ando tanto tempo com alguém em prova, não gosto de adaptar nem que adaptem o ritmo ao meu, mas naquele dia eu e o Joel estávamos em perfeita sintonia. De 100 em 100 metros de desnível gritava para o Joel "MAIS 100!!!" e de hora a hora ele gritava para mim "ESTÁ NA HORA!". Então parávamos, mesmo que não estivéssemos no limite, e comíamos uma barra ou um gel descansados, num pausa que nunca tinha mais que 5 minutos. Mas estava tanto calor...

...Do outro lado do vale, os trovões intensificavam-se. Era um ribombar quase contínuo. Do outro lado...

A subida era imensa. Nunca fiz nada parecido, nem no UTMB. É enorme, infinita, e sempre com uma grande inclinação. Às tantas começou a soprar uma brisa muito fresca. Agradeci o ligeiro arrefecimento dos motores.

...Do outro do vale já quase não se viam as montanhas, tapadas por uma névoa de chuva... Felizmente não ia passar para este lado. Pois não?

Começou a pingar. Que bom! Sabe mesmo bem estas pingas fresquinhas, ainda fiquei mais bem disposto. Até pensei para mim que assim o tempo estava perfeito, que ia ser um grande dia!

Começou a chover. Grosso. Vesti o impermeável por cima da mochila.

Ok, no problem. São só restos da trovoada que está lá do out... 

Brrrroooooommmmm!!!

Ops. Este caiu perto. Deve ter sido mais na periferia.

Passámos os 2200m e saímos da linha das árvores. Estávamos agora completamente expostos e ainda com 400m de subida pela frente. A chuva intensificou-se, estava completamente ensopado. O vento era fortíssimo e a ficar mais intenso. Os trovões não cessavam até que...

BBBBBBRBRRRRROOOOOOOOOOOMMMMMMMM!!!!!

Ainda vi o raio que caiu muito, muito perto, imediatamente seguido de um trovão ensurdecedor!! 

A trovoada estava agora directamente em cima de nós!

Estremeci. A chuva intensificou-se e estava agora a cair granizo. Já via o colo que haveríamos de virar antes do abastecimento, mas comecei a arrefecer muito. Comecei a ficar verdadeiramente assustado quando os relâmpagos começaram a iluminar tudo, tal era a escuridão que as nuvens provocaram. Deixei de pensar no esforço da subida e em como vinha cansado, apertei o passo para chegar rapidamente ao abastecimento, que estava logo a seguir ao colo, depois de uma pequena descida. Mas assim que viro a montanha... 

Oh não.

Uma rajada de vento quase que me deita abaixo. Voa-me da cabeça o capuz do impermeável e o boné, que usava por baixo. Parei, em pânico, uns segundos antes de o perseguir. Voltei a colocar o capuz e completamente atordoado, ainda a tremer, começo a descer para o abastecimento. O vento era inacreditável, não conseguia usar os bastões porque eram empurrados por ele! A temperatura baixara de uma maneira incrível, pelo menos uns 20 graus desde a base da subida. A chuva era grossa e picava na cara, as minhas mãos arrefeciam brutalmente. OH NÃO!!!

Entrei no abastecimento, num refúgio, a tremer. Não só de frio. Sentei-me a respirar sofregamente e demorei uns dois minutos até reagir. Passou-me tudo pela cabeça, mas o que mais me irritava era o inacreditável erro de principiante que cometera! Ali estava, aos 2600 metros, com 30km de alta montanha pela frente até chegar a uma base de vida, sem qualquer acesso a ajuda externa e sem sequer o mínimo equipamento para enfrentar uma situação daquelas! Que estúpido, apeteceu-me esmurrar-me!

Tirei a mochila e vesti o corta vento, depois o impermeável por cima. As mãos estavam geladas, mas não tinha luvas, por isso enrolei os manguitos nas mãos. E era isso. Não tinha mais nada. Nem calças, nem gorro, nem luvas, nem sequer uma roupa térmica. Lá fora a trovoada não cessava, parecia que cada vez fechava mais. Respirei fundo à porta do refugio abafado e húmido, dei um passo em frente e senti um baque. Estava molhado, gelado e prestes a enfrente 30km sempre acima dos 2000 metros, com uma passagem nos 2900. Oh não...


Felizmente fisicamente estava impecável. Assim que saio do abastecimento meto um bom passo que me permitiria aquecer, mas estava difícil. Mesmo com os manguitos enrolados, as mãos estavam a ficar dormentes e a roupa não estancava de maneira nenhuma o frio. Pensei nas minhas hipóteses mas essas não eram boas. O que ia fazer? Desistir? Esperar por um helicóptero? Não, não queria por essa hipótese. Não há nada a fazer, na base de vida, aos 80km, está equipamento para o frio, só tenho é que arranjar maneira de lá chegar! Aumentei o ritmo na descida até começar a ficar finalmente ligeiramente confortável. Estremecia a cada trovão, que não abrandavam, mas ainda ficava mais assustado com o pensamento de num dos pontos de controlo me pedirem o equipamento obrigatório e eu fosse JUSTAMENTE desclassificado!

Estava nos 2000m, na base de mais uma grande subida com cerca de 900 metros de desnível, quando a chuva abrandou. Continuei a andar forte, não queria facilitar. Esta subida não era muito difícil e foi feita quase todo no meio de um bosque, o que protegia do vento. Nada mau. Além disso, a chuva parou e eu estava a aquecer! 

Até que, de repente, tão depressa como desapareceu, o sol brilhou! Não demorou mais que 15 minutos até o céu passar de cinzento escuro a completamente limpo. A temperatura voltou a subir muito e o sol brilhava. Numa questão de minutos. Incrível. A montanha decidiu dar-me uma lição que eu nunca mais me vou esquecer.

Passagem por um lago já perto do refugio, foto minha. Reparem no céu :)
Refugi de L'Illa, local do abastecimento
Uff...

Entrei no refúgio e fui comer. Uma construção moderna, muito engraçada, por cima de um antigo refúgio de montanha. Comi massa e sopa. Bebi e reabasteci bem com água e fui à casa de banho. Saí de lá novo! 


Seguia-se o ataque final a Collada Pessons, muito perto dos 2900m de altitude. Faltava apenas uma subida de 400m e depois um passeio em mais uma cumeada. E, meus amigos, que cumeada! 

Vêem o vértice lá atrás? Foi mesmo aí por cima que viemos, num terreno cheio de pedra como aquele mesmo por trás de mim.
Faltava agora uma longa descida de de 10km e 1500m de desnivel até ao abastecimento. Agora reparem bem no perfil oficial da prova e vejam se isto não parece um miminho de descida suave!
Deve ser fácil!
Ok, logo a seguir ao pico temos outra queda livre de 400 metros. Mas pronto, ali no perfil da prova também aparece uma parte mais inclinada antes de suavizar, a partir de agora é que é fácil.

Hm, hm. Claro que sim.

Foram 3km, sim 3, que demorei quase uma hora a percorrer, a descer por um vale completamente coberto com grandes maciços de granito. Uma hora a saltitar de rocha em rocha, quase sem tocar na terra, só pedra! Desesperante! No entanto, não me deixei afectar, a prova estava a correr-me lindamente, como já perceberam. Tinha mais de 8 horas de folga para o corte, sentia-me excelente fisicamente, estava a chegar à segunda base de vida onde me esperava a minha família e só me faltava um terço do caminho. Aceitei as dificuldades e continuei a descer até Bordes d'Envalira. Está quase! 

...achava eu...

Chegada à segunda base de vida, com a minha filhota.
Na base de vida estava o meu pai, a Sara e a Mel. A minha mãe estava com o Manel em casa. Comi muito bem, massa com atum, azeitonas e tomate. Bebi um fast recovery e, mais importante que tudo, equipei-me como deve ser para o frio. Camisola térmica, manguitos, corta vento, gorro, buff no pescoço e luvas. Na mala ainda levava as calças e o casaco impermeáveis. Na altura o céu estava limpo, mas já tinha facilitado tudo o que havia a facilitar naquele dia.

Saí muito bem disposto do abastecimento e preparei-me para o último terço do percurso. 


Esta ultima parte do percurso, desde a primeira vez que vi, faz-me lembrar a parte final do UTMB. Três montanhas praticamente iguais para virar antes de uma grande descida para a meta. No UTMB eram subidas e descidas trabalhosas mas muito boas de se fazer. Recuperei muito da minha prova aí. Na minha cabeça, essa associação ao UTMB estabeleceu-se imediatamente para os 3 montes da Mitic. O principal da prova seria chegar à segunda base de vida, depois é subir devagar e com eficácia, como eu bem sei, e descer o que pudesse. Como tinha chegado ali muito bem fisicamente, ainda fiquei mais contente porque achei que teria pernas para fazer boas descidas.

ROUND 1

A primeira subida, de 600m, correspondia exactamente ao que tinha previsto. Um trilho agradável, muito bom de subir. Meti um passo muito pequeno mas constante e ultrapassei algumas pessoas até lá acima. Só se complicou um bocado nos 100m finais, em que subimos à mau pela encosta, sem trilho. O sol pôs-se durante esta subida e o tempo estava fresco. Quando cheguei ao topo e comecei mais uma travessia de uma cumeada, sentei-me numa rocha e tirei o relógio da mala, que estava a carregar. Demorara menos de uma hora a subir, melhor do que esperava. Perfeito! Tirei uma barra e comi lentamente. Nesta altura já estava sozinho, infelizmente o meu andamento e do Joel ficaram diferentes a seguir ao Refugia de L'Illa e ele seguia um pouco atrás. 

Preparei-me para a descida.

Como podem ver no gráfico, a descida é mais que a subida. O fundo do vale era 800 metros abaixo de onde estávamos, vencidos numa descida com 5km. 

Começou.

Tentei correr logo de inicio, embalado pelo ânimo da subida, mas logo se começou a revelar impossível. Afinal o trilho não era propriamente limpo, estava cravado de pedra. A noite estava escura, entretanto tinham aparecido algumas nuvens que taparam a lua, só se via do outro lado do vale um carreiro interminável de luzes encosta acima. Ainda não lhe via o fim, era preciso descer mais um bocado. E descemos. Descemos muito. Continuámos a descer e o trilho a ficar mais difícil. Pedra, pedra e mais pedra! Desisti de correr e entrei em modo poupança, de qualquer maneira estava a dar cabo dos pés nas pedras que tapavam o trilho. Descemos, descemos, descemos... Até que finalmente vi umas luzes amarelas no fundo do vale. Era o abastecimento, no fundo de uma garganta muito apertada. Olhei para a a frente e arrepiei-me, um carreiro de luzes brancas recortava a outra encosta até ao céu. .

Vall d'Incles, local do abastecimento. 
No abastecimento encontrei o Rui Nascimento, que estava a terminar a sua Ronda dels Cims (100 milhas) e a ter uma prestação excelente. Ele estava eufórico, mas eu estava no outro lado do espectro. Não estava à espera daquela descida. Não estava mesmo. Estava aterrorizado com o que faltava, e ainda faltava muito. Agora, à distância, percebo que foi a minha cabeça que me atraiçoou. Mentalizei-me que esta seria a parte fácil da prova e de repente percebi que podia estar enganado. Tanta vez que isto já me aconteceu, mas há pouco que se possa fazer, faz parte deste desporto.

ROUND 2

Este era o mais temível. A subida tinha quase 900 metros de desnível, até aos 2800m, e depois uma descida que, agora já tinha a certeza, seria muito difícil. Até chegar a um abastecimento em alta montanha. Comecei muito a medo, cheio de dúvidas. Subi de maneira lentíssima, preparado para o pior. Assim que começo a ganhar uma pequena chama de confiança o trilho começa a empinar e a ficar mais difícil, mais técnico. É impossível fazer o que gosto, a passada eficaz, não consigo dar dois passos seguidos com a mesma amplitude, tenho que saltitar de socalco em socalco, de rocha em rocha.. O terreno é tão inclinado que os gémeos vão constantemente distendidos. Perco completamente a postura e subo dobrado para a frente, apoiado nos bastões. Começo a parar de 100 em 100m de desnível para descansar, até nem isso conseguir. A certa altura chegamos ao que eu achava ser o topo só para ver mais um carreiro de luzes, mais 200 metros de subida. Começou a chover e eu comecei a desesperar! Vamos. Ter. Problemas.

Topo virado.

Assim que lá chego acima sento-me numa rocha e vem ter comigo uma pessoa que estava lá a fazer o controlo das passagens. Fala comigo durante uns minutos e diz-me que a próxima subida é um pouco mais fácil que esta. Pensava ele. Depois lá me disse: "pronto, mas eu também não estava cansado quando a fiz. Se calhar é parecida com esta". 

...

Comecei a descida, tal como esperava era complicadíssima. Mais uma tareia de pedras, ainda pior que a outra! Batia, batia, batia... Mais 3km de porrada, pura e dura! Cheguei ao abastecimento ensopado, gelado e muito assustado. Ainda faltava um!

Refugio de Coms de Jan, o penúltimo abastecimento.
Entrei no pequeno refugio onde havia uma lareira acesa e procurei imediatamente um lugar para me sentar. No abastecimento haviam 4 ou 5 beliches, todos ocupados. Resisti à tentação de me deitar também, que era muita, bebi dois cafés e tentei comer alguma coisa. A comida continuava a entrar, mas nesta altura mais que problemas de estômago era pouca a vontade de comer. 

ROUND 3

Enchi-me de coragem e saí do abastecimento, mais um choque térmico. Esta subida era tão ou mais difícil que a anterior! Pedra e mais pedra! Subíamos por uma encosta coberta de pedra, as bandeirolas que indicavam o percurso estavam muito afastadas umas das outras, não havia trilho, havia apenas uma indicação do caminho, tínhamos que escolher a melhor maneira de progredir. Nesta altura vou completamente sozinho, nem sequer vejo luzes à frente ou atrás. Tenho várias vezes a noção que aquele caminho acarreta um perigo muito real, mais uma vez um passo em falso pode ter consequências graves. Ainda por cima vou a alucinar há algum tempo, isto acontece-me sempre que faço a segunda noite, mas nunca com tanta frequência como desta vez. Vejo caras em todos o lado, nas pedras, na terra, nas nuvens que cobrem a lua. Digo a mim mesmo que nada daquilo é real. É engraçado porque tenho essa noção, mas não consigo evitar que aconteça. A certa altura estava convencidíssimo que estava uma família sentada num banco na encosta a observar quem passava, só quando lá cheguei mesmo ao pé é que vi que eram umas rochas. No entanto fui avançando. Muito lentamente, a parar muitas vezes, mas cerrei os dentes e fui avançando, até que finalmente cheguei ao pico, mesmo na altura em que nasceu o sol. 

Ia agora entrar no Vall de Sorteny e iniciar uma descida longuissima que me faria perder 800 metros em 7km.

Vall de Sorteny
O vale era de uma dimensão avassaladora. Não quero sequer tentar descrever, era inacreditável. Estava completamente sozinho, não via ninguém à frente nem atrás até onde a vista alcançava, e a vista era desimpedida por vários quilómetros. Nunca me senti tão pequeno na montanha. O trilho não era fácil, claro, mas isso agora interessava pouco. Desci como pude, sempre a ver coisas que não existiam, como aquelas duas tendas brancas que de certeza que eram o abastecimento, e afinal eram nuvens reflectidas num lago. 

A sensação de derrota e medo tinha desaparecido há algum tempo, nesta altura já nada me fazia duvidar que a prova estava feita. Foi assim enquanto estive uns minutos sentado no ultimo abastecimento e mandei uma mensagem a avisar a família.

Cerca de duas horas depois chegava à meta. Uma meta triste, antes das nove da manhã, alegrada apenas pela presença da Sara. Desta vez sozinha, porque não teve tempo de preparar os miúdos, mas tinha que estar presente. Correu comigo do primeiro ao último metro, não fazia sentido que não estivesse também na chegada. 

Ainda há uma foto a chegar à meta, pela Sara. Ainda por cima prova que corri efectivamente numa subida!
Foram 34h55 para os 112km com 9700D+. Tenho que confessar que estou extremamente satisfeito com a minha prova. Modéstia à parte, fiz uma gestão do esforço muito boa, motivado pelo medo que tinha dela, é certo. Nunca senti que a prova estivesse em risco. Mas que isso não se confunda com desinteresse ou facilidade, muito pelo contrário. Esta foi sem dúvida alguma a corrida mais desafiante e exigente da minha vida. Foi tudo o que esperava e muito mais que isso. O percurso é extremamente duro, mas não é artificialmente duro. Tudo ali faz sentido, do primeiro ao ultimo metro, não podia ser de outra maneira. A organização, à qual pelos vistos há muito a apontar na nova prova Eufória (220km em equipa) na Mitic esteve irrepreensível. Aprendi muito sobre trail, sobre a montanha e até sobre mim. Adorei cada metro desta epopeia, cada pedra, cada subida e cada descida. Dito isto, antes partir um bracinho do que voltar a fazê-la, é que aquilo é de loucos! :)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Fiz tudo o que havia a fazer.

Estudei o percurso, o tamanho das subidas e descidas, li alguns relatos, falei com anteriores participantes e até vi uma série de 6 vídeos do percurso, realizados pelo senhor que criou a prova. Sei de cor os números e as estatísticas. Os impressionantes 10000D+ em 110km, os quilómetros verticais, a subida com 1600+ em 8km, os picos perto dos 3000m, as descidas técnicas... Já os vi todos no papel!

Já preparei a estratégia de alimentação. Sei o que devo comer e com que frequência. Sei o que devo evitar e o que devo reforçar. 

O equipamento, como sempre, ficou para a ultima. Mas está pronto! Entre material meu a precisar urgentemente de reforma, ainda levo os calções do Bruno, as meias do Sommer, a camisola do Vasco, os manguitos do Rodrigo e a bateria do Pedro. Que boa maneira de levar comigo algumas das pessoas mais importantes na caminhada até aqui. Sim, sim. É isso. Não há aqui nenhuma procrastinação envolvida!

O treino está feito. Não estou 100% satisfeito com ele, mas está feito. Desde a semana de descanso após o MIUT que tenho treinado bem. Nenhuma semana abaixo dos 3000D+ e sempre entre 70 a 80km. Juntei à rotina um treino semanal no ginásio, que me tem ajudado muito no reforço muscular, e sessões quase diárias no Bosu, que comprei para ter em casa. A pedra no sapato é o treino das 3 semanas, aquele que mentalmente, para mim, é o mais importante. Precisava de ter feito um bom treino 3 semanas antes da prova, treino esse que estava marcado para a Serra da Estrela, mas que por causa do trabalho foi cancelado. É precisamente o tipo de coisas que me mina a confiança...

Fiz tudo o que havia a fazer para poder estar em Ordino na próxima sexta feira. É lá, numa pequena povoação no centro do principado de Andorra, que às 21 horas de Portugal vou fechar os olhos, respirar fundo, ligar o relógio e finalmente sossegar esta ansiedade crescente que quase me faz vomitar. 

Fiz tudo o que havia a fazer, mas isso de pouco me vai servir. A partir das 21 horas de sexta feira só uma coisa interessa: conquistar o próximo metro.

Que comece a aventura!

Desafio: encontrar uma pessoa nesta fotografia.



quarta-feira, 31 de maio de 2017

Dois dias de alta montanha - de volta à Serra Nevada.

Quase duas horas e 1200 metros de subida depois chegámos ao topo do Veleta. Escapámos das temperaturas negativas sentidas na primeira subida do dia, protegida do sol que nascera há pouco, e apanhámos os primeiros raios de sol  no pico, perto dos 3400m. É nesta altura que temos o primeiro vislumbre do que nos espera. A imensidão da alta montanha, a agressividade dos declives, o terreno agreste e o vento forte e gelado que dificulta ainda mais a respiração.  Mas é quando o vemos que o arrepio se instala. Inconfundível, o Mulhacen, a razão pela qual estamos ali, sobressai imponente numa paisagem lunar e inóspita. Ninguém consegue disfarçar o entusiasmo. Penso para mim que só por aquele momento já tinha valido a pena. Mas ainda havia tanto, mas tanto, para viver naquele fim de semana! Bem vindos a Serra Nevada.

O Mulhacen lá ao fundo 
Depois do fim de semana que tinha tudo para correr mal, mas que afinal foi perfeito, do ano passado, desta vez fomos mais ambiciosos. Aos 3 desse ano juntaram-se outros 6 e foram 9 os que partiram sexta feira depois do dia de trabalho para uma viagem de 8 horas rumo à Serra Nevada. Nove pessoas com objetivos, andamentos, personalidades e humores diferentes. Nove pessoas que  partilhariam todos os minutos dos próximos dois dias e meio na imensidão da Serra Nevada. O plano passava por cerca de 40km durante o sábado e outros 20 no domingo, com uma dormida no Refugio Poquera aos 2500m. Mais gente, caminhos novos, mais tempo e distância. Mais uma vez as probabilidades não estavam a nosso favor, a coisa podia ter corrido muito mal.

Chegada à cidade fantasma de Pradolano na sexta feira às 4 da manhã. O enorme parque subterrâneo onde estacionámos, que no inverno deve estar a abarrotar de gente e movimento, estava completamente vazio, com a exceção de uma raposa que procurava comida nuns caixotes do lixo perto de nós. No meu carro seguiam o Sommer, Arede, eu e o Miguel, que fez as 8 horas de penalty a conduzir. Preparámo-nos para dormitar,  Sommer e Miguel no carro, eu e Arede no chão, quando 5 minutos depois de nos deitarmos o Arede é mordido no pé pela raposa! Ups, estamos a mais, pegámos na esteira e saco de cama e fomos dormir para as escadas.

A raposa morde pés!

Menos de duas horas depois chega a outra metade da comitiva. Diogo, Manel, Brito, Goreti e Madeira. Equipar, tomar o pequeno almoço, ligar o relógio e sair pela rampa do estacionamento que desemboca literalmente nas pistas de ski. Vamos a isto.

O grupo à saída do parque
A primeira subida, que vos falei no inicio deste post, é o primeiro teste à reação de cada um à altitude. Começamos nos 2100m e acabamos nos 3300. Alguns de nós nunca tinham passado dos 1990 da Serra da Estrela (como eu o ano passado) e preparávamo-nos agora para subir 1300 metros acima disso. Acreditem,  os efeitos da altitude não são brincadeira e nenhum de nós está a salvo deles. Uns mais afetados, outros menos, ali por volta dos 3000m todos sentimos que estamos a entrar num mundo novo. No meu caso a aclimatização é toda feita nesta subida. A dor de cabeça que vai aumentando, a dificuldade em recuperar o fôlego, a resistência nula a variações de ritmo e as tonturas que batem à porta cada vez que olho para trás. Felizmente, das vezes que andei em altitude, passadas duas horas habituo-me, e com exceção da dificuldade em andar a ritmos altos todos os outros sintomas desaparecem. Mas atenção, todos reagimos de maneira diferente, e mesmo os que reagem melhor não estão a salvo de um dia se virem metidos numa alhada. Na verdade, parece que é bastante aleatório!

No topo do Veleta
Depois da conquista do Veleta segue-se o inacreditável caminho até ao Mulhacen. Cerca de 7km na cumeada, sempre acima dos 3000m, quase sempre em trilhos, corrivel, com passagem por dois colos que mais parecem janelas  para novos locais e a famosa via ferrata numa escarpa inacreditável. Nada disto era novo para mim, o Sommer e o Diogo, mas mesmo não tendo visto, aposto que corriam com o mesmo sorriso parvo estampado na cara com que eu estava.






Depois de percorrida a cumeada chegamos à base do ataque final ao Mulhacen. 400 metros de subida ingreme, num zigue zague espetacular, levar-nos-iam até aos 3480m no topo da Península Ibérica. Esta é provavelmente a minha subida preferida de todas que já fiz. É perfeita. O trilho tem pequenos patamares que permitem ir moderando o esforço, num caminho com pedra grande e terra no qual vamos constantemente a avaliar a maneira mais eficiente de subir. Colei atrás do Sommer, que também se dá muito bem em altitude e neste tipo de subida. Mesmo sem termos falado durante a subida, sabia que ele estava no mesmo estado de euforia que eu quando trepámos para cima do palanque de rocha onde está o marco dos 3480m. Primeira conquista do dia. Esperámos, pouco, pelo resto da malta para a fotografia da praxe e apressámo-nos em direção da descida. A temperatura era muito baixa, apesar do sol.

No topo do Mulhacen
Nesta altura tínhamos duas hipóteses. O plano inicial era descer até Trevelez (ou Trelevez? A dúvida mantém-se. Não, não quero ir ao Google!), base do duplo quilómetro vertical que tínhamos no menu, mas decidimos passar pelo refugio onde dormiríamos para comer e reabastecer. O ano passado descrevi esta descida como sendo à mau. Basicamente são 1000m de desnível negativo em 4km, sem trilho, numa encosta com pedra, terra e arbustos. Se no ano passado ainda andámos num estradão na primeira parte da descida, desta vez não estivemos com contemplações e apontámos ao refugio logo desde lá de cima. Mas a melhor maneira de perceberem é verem este pequeno vídeo do Sommer a descer por esta mesma encosta.

Refugio Poquera
Estivemos 20 ou 30 minutos no refúgio. Quando saímos já eram 13 horas. A segunda parte do treino era basicamente descer 1000m até aos 1500 (em Trevelez), depois subir 2000m até ao Mulhacen (3480m) e voltar a descer 1000m de volta ao refúgio. Contas por alto, tínhamos 9 horas de caminho pela frente. O jantar no refúgio só era servido até às 21, ia ser muito apertado. Decidimos descer na mesma, depois logo se via. Se nos víssemos apertados, ali por volta dos 2700m, apontaríamos ao refúgio. Se ao menos fosse tão fácil…

Antes da grande descida para Trevelez/Trelevez tínhamos um monte para transpor, que só iria aumentar a descida. No total foram cerca de 8km com uma perda de elevação de 1200m! Uma brutalidade! O melhor de tudo é que era num single que zigue-zagueava na encosta formando pequenos patamares. Frequentemente dava para cortar caminho e passar de um patamar ao outro, ou então seguir no caminho e aumentar a velocidade. O trilho fazia lembrar muito o que encontrei nos Alpes, com pouca pedra e muito corrível. Até a paisagem era parecida, existindo muito água nesta vertente da serra as encostas estavam cobertas de verde. Ninguém se poupou nesta descida. O mais impressionante é que também ninguém se distanciou! Durante os 50 minutos que demorámos a descer quase ninguém trocou palavras, todos estávamos completamente compenetrados na missão. Não houve esperas, ninguém forçou, todos estavam a curtir a descida à sua maneira. Com a povoação a aproximar-se lentamente, a temperatura aumentava a cada metro descido. A amplitude térmica que apanhámos neste fim de semana é inacreditável. Desde temperaturas negativas nos picos até 30 e muitos graus no fundo do vale em Trelevez.

Trevelez (ou Trelevez?)

Abastecimento
Parámos uns breves minutos para beber água e encher os tanques em Trelevez antes de atacar a besta do dia. A temperatura estava altíssima, e se a altitude influencia o desempenho, acho que a temperatura alta ainda o faz mais. Todos estávamos conscientes que teríamos que começar a subida rapidamente para apanharmos ar mais fresco.

O caminho, primeiro num estradão e depois num trilho que eu podia jurar já tinha percorrido nos Alpes, mostrava-se vagarosamente vale acima. Passámos por inúmeros ribeiros onde molhei a cabeça e enchi os flasks com água gelada. A subida é inacreditavelmente longa! Quando chegámos à cota 2700, a tal que supostamente nos permitiria virar para o refúgio, estávamos ainda com montanhas altíssimas a 360º. A solução era continuar caminho até dar para cortar. Assim foi até entrarmos numa zona mais técnica com muita pedra, que ladeava uma cascata espetacular perto dos 3000m. 



A cascata e um gajo qualquer
Virada essa ponta final, entrámos num patamar enorme, todo coberto de verde, com pequenas lagoas resultantes da neve derretida. A água corria de uma para a outra até sair pela cascata que tínhamos passado e de seguida alimentava todos os pequenos ribeiros que fomos passando. Parámos uns minutos a comer em cima de uma rocha e a contemplar mais um local de outro mundo. Uma espécie de cratera, com o Mulhacen 500m acima, ladeado por todos os lados por montanhas menos por uma janela, onde nascia a cascata.


Pensámos que era a altura certa para cortar caminho para o refúgio, já faltava pouco para a hora de fecho do jantar. Mal sabíamos que para isso ainda teríamos que subir mais 200m, ficando a escassos 300 do Mulhacen. Infelizmente não haveria tempo para essa recta final, ainda por cima o cansaço de 12 horas de treino estava a começar a fazer estragos na comitiva, e esta parte final da subida foi psicologicamente muito dificil, porque pensávamos que já estava. Virada a cumeada ficou a faltar a descida para o refúgio. Foi aqui que atirei a toalha ao chão. Tinha metido na cabeça que esta ponta final seria num estradão suave, mas mais uma vez foi encosta abaixo. Fui-me completamente abaixo e arrastei-me até ao fim da cauda do grupo. Uff.

Queria guardar um parágrafo para o refúgio porque foi uma experiência muito engraçada. O Diogo, organizador da empreitada, tratou de reservar dormida para o grupo inteiro no refugio de Poquera. Estamos então numa casa aos 2500m, literalmente no meio da montanha. Assim que entramos pedem-nos para tirar as sapatilhas e calçar umas croc, para não sujar os quartos e áreas comuns. Sentamo-nos à mesa juntamente com uns 40 ou 50 outros residentes e esperamos que nos seja servido um jantar de dois pratos e sobremesa. De seguida cada um de nós aluga uma toalha e uns lençóis. O refugio fornece o edredon e almofada, mas temos que fazer a cama com uns lençóis descartáveis. Para o banho são compradas umas fichas que nos permitem 4 minutos de água quente! E são mesmo quatro minutos, os 3 ou 4 duches têm uma maquineta com um temporizador que mostra a contagem decrescente. Lembrem-se que estamos no meio da montanha, não há nenhuma infra-estrutura (esgotos, água canalizada, energia elétrica), tudo tem que ser racionado! As camaratas dão para 16 pessoas e são fornecidos cacifos para guardar as coisas. Nunca tinha estado em nenhum refúgio, mas adorei ficar neste!

As croc cor de rosa

Jantar
A hora do silêncio era às 22. Apesar de +/- respeitada, estava tão esgotado da jornada que uns minutos depois ferrei e só acordei às 7! Não me lembro da ultima vez que dormi 8 horas eheh Isso obviamente ajudou a que tivesse uma noite regeneradora e estivesse de baterias carregadas para o segundo dia. Desta vez o plano era mais simples: subir um KV até ao Mulhacen, percorrer a cumeada dos 3000m e descer até Pradolano, cerca de 20km.

À saída do refúgio para o segundo dia
No inicio da subida percebi logo que estava bem e foi um prazer até chegar novamente ao pico. Esta subida tem a ponta final, os 400m do ataque ao Mulhacen, em comum com a que fizemos no primeiro dia. Mais uma vez ataquei-a com o Sommer, desta vez a forçar o ritmo e a acabar a dar tudo. Que adrenalina! Como chegámos lá mais cedo a temperatura ainda estava muito baixa, arrefecemos rapidamente. Uma das coisas que me mete mais respeito na montanha são as variações de temperatura. Estava sol, mas bastava o vento fortíssimo empurrar uma pequena nuvem para a frente dele que sentíamos a temperatura a baixar facilmente 5 ou 6 graus. Sentámo-nos lá em cima uns minutos protegidos pelas pedras mas não demorámos muito até perceber que era urgente descer.

Abrigados no Mulhacen
Com o grupo fresco, o caminho de volta foi muito tranquilo. Sempre na conversa, a andar a bom ritmo, lá chegamos ao colo do Veleta antes de iniciar a descida final de 1000m até ao carro. O ano passado penei muito nesta descida, por isso este ano decidi ir com o Brito por um estradão paralelo que descia mais devagar, ao contrário do resto do grupo. O pior é que descia tão devagar que se tivéssemos continuado ainda lá andávamos às voltas a esta hora! Não demorou muito até perdermos a paciência e atalhar à mau até encontrar o resto do grupo.

À chegada
Contas feitas, foram 41km com cerca de 3800D+ no primeiro dia e 20km com 1500 no segundo. Mas este fim de semana foi muito mais que isso. Foi um daqueles que me fazem lembrar porque gosto tanto deste desporto. Foram muitas horas de partilha, horas vividas intensamente por um grupo de 9 que até esta altura nem sequer era assim tão intimo. Ao ler a brilhante crónica do Sommer sobre este fim de semana fico roído de inveja por não conseguir transmitir-vos tão bem como foi bom. O que vos posso garantir, com toda a certeza, é que passem os anos que passarem vou recordar estes 3 dias com um sorriso.

No Mulhacen. Melhor foto do fim de semana!