As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Trilhos dos Abutres 2017 - Trail a sério

Acho que desde que comecei a correr em montanha oiço este e aquele a definirem o que é o trail. Há quem diga que tem que ser em trilhos, que tem que ter muita altimetria e dificuldade, outros nem por isso, e falam da distancia e da lógica do percurso. Há quem diga que os há a brincar e a sério. Falam da percentagem de asfalto e de estradão, da quantidade de correntes e rochas para escalar e caminhos para rolar. A mim, se me perguntarem, eu respondo - trail é Abutres.


Depois da espectacular conjugação de factores que tornaram a edição de 2015 numa espécie de tempestade perfeita, e de no ano passado ter falhado por lesão, 2017 marcou o meu regresso àquela que, juntamente com MIUT, Piodão e Arga, é para mim a melhor prova de montanha em Portugal. Desta vez a previsão nos dias anteriores afastou logo o cenário dantesco de 2015, mas a Serra da Lousã não precisa de meteorologia extrema para se agigantar. Na verdade, nenhum dos quase 600 que estavam às 8 da manhã no mercado de Miranda do Corvo fazia ideia do que ia apanhar nas próximas horas. De uma coisa todos nós tínhamos consciência - não ia ser fácil. 

Uma viagem desde Almeirim um pouco em cima da hora não permitiu que conseguisse um lugar na parte da frente do pelotão antes da partida, por isso foram uns primeiros 2km dentro de Miranda a forçar o ritmo, para evitar congestionamentos na entrada dos trilhos. 

O céu estava nublado, mas a chuva acabou por nunca aparecer. Até a temperatura estava amena, o que me fez arrepender imediatamente da escolha de equipamento. A meio da primeira subida suava em bica, já ligeiramente preocupado com a perda de sais.

Este ano houve a novidade de subir um monte de cerca de 300m nos primeiros 7km, em vez de o contornarmos como nos anos anteriores. Uma subida toda ela feita em estradão, que serviu para abrir o pelotão e acrescentar mais uns metros à conta final de desnível positivo, que foi de 2700. No topo do monte encontrámos o Templo Ecuménico de Miranda do Corvo. Parece que é um templo onde estão representadas todas as religiões do mundo, mas há uma que, para mim, se destaca muito das outras. A religião de Nossa Sra. do Mau Gosto.

Sem comentários. Foto do Miguel Cadalso.

Depois de descer o monte da pirâmide cor de laranja a voar num estradão, entrámos finalmente na Serra. O caminho de entrada era um trilho que há dois anos estava completamente inundado. Assim seco era um espectáculo para correr, sempre junto a um ribeiro. O percurso até Vila Nova (15km), espécie de prelúdio dos Abutres, ia sendo feito quase sem dar por isso. Pernas leves e soltas, sorriso na cara enquanto ia deixando bocados de conversa com este e aquele amigo, e cada vez são mais as caras conhecidas nestas provas. Vi o Ricardo, que me levou de volta ao MIUT onde nos vimos pela ultima vez, o Marcelo, que me transportou àquele km que partilhámos em Vallorcine, antes da subida final no UTMB, vi o João Pereira que encontrei há 3 anos no DUT e me fez lembrar a fatídica subida aos bombeiros... Lamechices à parte, é incrível a quantidade de pessoas que fazem parte da minha vida por causa deste desporto.

No trilho de entrada
Depois do abastecimento em Vila Nova começou a primeira grande subida da prova, até ao Observatório. Falar em subidas nos Abutres é sempre duvidoso, porque o sobe e desce é tal maneira constante que às tantas não se sabe bem se estamos numa subida ou descida. Mas a cota no relógio continuava a aumentar, por isso devia mesmo ser a subir. 

Chegados a um planalto antes do ataque final aos 930m do observatório, lembrei-me logo da minha prova de há dois anos. Foi ali que estive no precipício, quase quase a cair na desistência, por causa do frio. Desta vez, com o trilho seco e temperatura amena, o prazer de correr naquele caminho macio e escuro ligeiramente a subir era imenso. Só não era maior porque desde lá de baixo de Vila Nova que 2 ou 3 companheiros decidiram que eram os novos malucos do riso e acharam que toda a gente devia saber isso. Mas pronto, cada um vive aquilo à sua maneira...

Chegada ao observatório, foto do Miguel Cadalso
Foi no observatório o único sitio durante toda a prova que senti algum frio. Demorei-me o mínimo possível no abastecimento, só para voltar a encher o depósito de água. Continuei com a alimentação de geis e barras de hora a hora.

Seguia-se a descida até à Sra. da Piedade. 5km numa espécie de jogo de computador que vai tendo vários níveis de dificuldade. Há de tudo. Desde trilhos bons para correr, outros cheios de pedra, com lama, com água, sempre intercalados com pequenas picadas a subir, mesmo à Abutres. Conhecia bem os próximos 15km. Passei a ultima semana de Dezembro em Gondramaz com a Sara, os miúdos, o Vasco (que também estava em prova) e família. Fizemos lá uns treinos daqueles que enchem a alma e dava um certo conforto reconhecer os sítios onde andava.

Nesta descida comecei a ter as primeiras dificuldades da prova. Cada vez que precisava de alçar as pernas para passar um obstáculo os músculos prendiam e tinha câimbras. Comecei a descer mais devagar e a ser ultrapassado. Contava os quilómetros até ao abastecimento para poder comer alguma coisa salgada, já que não tinha sais nem isotónico. Fiquei um bocado desanimado, ainda era muito cedo e já estava com estes sinais de falência física.

A chegada ao corte da Sra. da Piedade, 28km, foi com 4 horas, mais de uma hora antes do tempo de 2015. Mas é incomparável, foram provas totalmente diferentes. Comi uma sopa espessa e a escaldar, num abastecimento que estava cheio de mais (logo a seguir perceberia porquê). Saí de lá com o Manteigas, o Marcelo e o Miguel com a moral em alta para atacar o que faltava. E não faltava pouco. Os Abutres iam começar.

À saída do abastecimento com o Manteigas e Marcelo, foto do Miguel Cadalso.
A pausa e a sopa fizeram-me bem, assim como a companhia daquele grupo de 4. Íamos entrar nos quilómetros mais técnicos de toda a prova, mas assim que o caminho começa a ficar mais acidentado começam a formar-se filas. Estranho.. O pelotão já estava muito disperso ainda há pouco... 

Os congestionamentos continuaram, chegando mesmo a parar algumas vezes, até que percebi que estávamos a apanhar a cauda da prova dos 30km. Tenho que confessar que foi bastante frustrante. Não que fosse andar muito mais depressa que aquilo, mas parávamos constantemente e as ultrapassagens eram muito, muito, complicadas. É certo que nos desgastámos menos, mas psicologicamente fui-me um bocado abaixo. Acabei por passar nalgumas das melhores partes do percurso em stress. Uma situação chata, mesmo para quem vai na outra prova.

Fila para o supermercado aos 30km. Yep, Miguel Cadalso.
Na cascata dos Abutres
Depois de uma primeira parte muito técnica e inclinada a subir, entramos num estradão curto que desce durante um km, até voltarmos novamente a um trilho para a parte final da subida ao Posto de Vigia. No estradão os engarrafamentos finalmente dispersaram e pudemos abrir um bocado a passada para recuperar o tempo perdido. O pior foi voltar a subir em condições. As câimbras tinham voltado em força. Mesmo em subidas fáceis tinha que abrandar o ritmo e chegava mesmo a coxear. Merda para as câimbras, quase nunca tenho, mas fico irritado quando aparecem de tal forma limitadoras que são. 

Cumpri a subida até ao observatório em serviços mínimos. Nunca me senti a forçar, mas a parte muscular simplesmente não correspondia. Teria de ser o abastecimento que há dois anos me salvou da hipotermia a voltar a dar-me vida. 

Mesmo no final da subida, antes do posto. Foto do Miguel Cadalso.
Lá em cima, no posto de vigia, comi uma bifana deliciosa e mais uns copos de isotonico. Seguia-se mais uma tareia de trilhos que têm tanto de bonito como de técnico, precisava de uma grande amplitude de movimentos das pernas que naquele momento não tinha. O que me dava algum alento é que nas zonas que dava para rolar conseguia fazê-lo de maneira confortável, mesmo quando subia ligeiramente. Antes de chegar à parte mais técnica, junto a Gondramaz, ainda teríamos a parte que mais ansiava da prova. Um trilho espetacular para correr, no meio do bosque, percorrido pelo menos 5 vezes por mim e pelo Vasco naquela semana de dezembro. Esqueci a porra das câimbras e a prova que já estava a fugir do "bom" para o "meh" há algum tempo e voei nessa descida!

Mais uma do Miguel, nessa descida.
Esta descida é o exemplo perfeito do que são os Abutres. Começa nesta autentica passadeira acolchoada, transita para uma parte muito mais inclinada e desemboca numa secção final brutalmente técnica, que inclui a subida para Gondramaz. Duzentos metros verticais a escalar por entre rochas, cascatas, árvores, lama e musgo. Com correntes, cordas e mãos arranhadas. Há dois anos esta parte foi cortada por causa do mau tempo, desta vez voltou para acabar de derreter as minhas pernas que já guinchavam por todo o lado!

Não foi na prova, foi quando lá estivemos em Dezembro, mas passámos por aqui em sentido contrário
Mais uma vez voltaram as câimbras na subida, cada vez mais limitadoras. Rais parta isto, andava a treinar tão bem e agora esta porra... Sossegava-me esta ser a ultima subida da prova. Apesar de ainda termos trilhos muito técnicos até ao fim, esses seriam mais fáceis de gerir.

Breve paragem em Gondramaz, mesmo no largo da Igreja em frente à Casinha do México, onde já fiquei alojado várias vezes. Novo reforço de isotónico e siga caminho. 

Abastecimento de Gondramaz
O percurso até Espinho, local do ultimo abastecimento a 4km da meta é mágico. Só para reforçar a ideia que valeu mesmo a pena andar ali. Consegui colar atrás do Ricardo Diez, do Mundo da Corrida, que não me conhece mas foi a minha lebre durante 4 ou 5km sempre percorridos a trote, num crescente de ânimo que empurrava para um canto as câimbras e  restantes dificuldades. 

Passagem em Espinho sem parar. Faltam 4km, um deles num rio de lama que há dois anos me chegou à cintura. Desta vez pouco passou do tornozelo. 

Mesmo assim estava bonito. Adivinhem? Outra do Miguel Cadalso.
O quilómetro e meio em alcatrão até à meta foi cumprido num trote rígido, apesar de tudo as pernas ainda respondiam. Oito horas e vinte depois estava de volta ao pavilhão e confesso que ainda hoje estou um bocado desiludido com a minha prova. Não pelo tempo, não estabeleci nenhuma marca para cumprir, mas porque nos últimos meses me tinha andado a sentir super bem nos treinos e estava à espera da recompensa neste sábado. Mas não. Nunca andei no limite, mas também nunca me senti com muita força. É frustrante e até tenho andado um bocado desmotivado. Enfim, melhores dias virão.

Sras e srs, MIGUEL CADALSO! Depois de tamanha contribuição para este post com fotos,  acho que a da chegada tem que ser dele! eheh
Apesar de desiludido com a minha prestação, não estou de forma nenhuma desiludido com a prova. Os Abutres mais uma vezes cumpriram na perfeição. São cada vez mais uma prova à parte no panorama português, com pormenores de organização como só vi no MIUT e UTMB, duas provas do world tour. Como diria um senhor, que finalmente conheci naquele dia: aquilo sim, é trail a sério!


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Oh não, mais um post resumo!

Olá. Ainda vou a tempo do post de 2016? Não? Meh.. faço na mesma.

2016...

2016 foi..... bem, foi esquizofrénico. 

É isso. 

Provavelmente o ano com mais convulsão na minha vida. A nível pessoal e familiar foi uma autentica loucura. Desde o nascimento do "mai novo", até à construção da nossa actual casa (que começou e acabou durante 2016), duas mudanças, o trabalho que passou por uma fase terrível e acabou o ano numa das melhores de sempre... 

A montanha russa teve espelho na corrida. Em Janeiro, mês que fui sorteado para ir ao UTMB, praticamente não corri por causa de uma lesão. Com o MIUT a aproximar-se perigosamente arrisquei reiniciar os treinos mesmo não estando 100% seguro que estava recuperado. A coisa correu bem e com dois meses e meio de treino afincado consegui arrancar a melhor prova da minha vida, num dia praticamente perfeito e dificilmente repetivel na Madeira.

No final das 24h e SETE MINUTOS do MIUT 2016
A seguir à prova da Madeira cometi provavelmente o maior erro do ano, que foi participar no Estrela Grande Trail apenas um mês depois. Na verdade foi toda uma conjugação de factores que passaram muito pela sobranceria com que encarei esta prova e que resultaram no fracasso que foi a minha participação no EGT 2016. 

Pelo menos deu para boas fotos!
No fim era altura de lamber feridas e limpar o histórico. Três meses separavam-me do Ultra Trail du Mont Blanc. Mais que o óbvio grande objectivo do ano, a participação no UTMB transformou-se numa das experiências mais avassaladoras da minha vida. A prova correu-me mal. Com o devido distanciamento, admito que ainda não estava preparado para ela, mas faria tudo exactamente da mesma maneira para poder VIVER aquelas 44 horas nos Alpes. Ainda hoje me arrepio quando viajo mentalmente por aqueles trilhos, e a prova que não me consegui desligar dela é que ainda carrego a pulseira vermelha. 


Além das provas, 2016 fica também marcado pelo melhor "treino" da minha vida. E meto treino entre aspas porque a viagem a Serra Nevada foi muito mais que um simples treino. Agora consigo perceber que foi a partir daí que passei a encarar a corrida de uma maneira diferente. Desde aquele fim de semana na montanha, atrai-me não só a parte competitiva do trail, o treino, o chegar mais longe e mais rápido, mas principalmente a aventura. O passar horas na montanha. Aquela sensação de iniciar um treino, ou prova, e não fazer a mínima ideia do que nos espera. A gestão do esforço, o diálogo interior.... 

Pronto, já chega, tá a ficar lamechas.

No fim da segunda ascensão ao ponto mais alto da Península Ibérica.
Ok, já está um ano despachado. Passemos a 2017.

Assim, curto e grosso, estas são AS provas de 2017:

MIUT (115km, 7200D+, Abril) - Vou para o hat trick. Como já disse por aqui, é impossível resistir ao MIUT, é a prova perfeita. Tem tudo o que gosto numa corrida, desde percurso a organização. Mal posso esperar para voltar à ilha e tentar chegar a Machico 7 minutos mais cedo que o ano passado!

Andorra MITIC (112km, 10000D+, Julho)- Balancei muito na escolha desta prova. A ideia original era nova viagem ao Alpes, para o Eiger ou Lavaredo. Pesou principalmente o factor económico, é muito mais barato ir para Andorra com a família do que para os Alpes Suíços ou Italianos, mas já se tornou mais que isso. As estatísticas da Mitic são ridículas. Enfrentarei o mesmo desnível que no UTMB mas com 60km a menos. Desde a primeira edição a taxa de desistências nunca foi inferior a 50% e o tempo médio para terminar anda sempre à volta das 40 horas, o mesmo que no UTMB (relembro, com 60km a menos!). É uma brutalidade de desafio. Eu, que sempre disse que não gosto de provas demasiado técnicas, vou-me enfiar precisamente na boca do lobo! O respeito é gigante, mas a vontade de superar o desafio ainda maior. Já sonho com a famosa subida a Comapedrosa, um quilómetro vertical entre os 2000 e 3000m de altitude, cumprido em 3km!

UTAX (110km, 6000D+, Outubro) - A Serra da Lousã é dos meus sítios preferidos de Portugal. Adoro Gondramaz, onde já passei vários dias com a família. Além disso tenho uma dívida com esta prova, depois de em 2015 não ter participado por lesão. 

Além destes três colossos, a agenda do primeiro semestre já está bastante preenchida com passagens pelos Abutres (50km em Janeiro), Vila de Rei (50km em Março) e Piodão (50km em Abril). Depois, relativamente a provas, apenas tenho intenção de participar novamente no Grande Trail Serra de Arga. Logo se verá.

Pronto. Aguentaram com mais um post resumo de 2016 e planos para 2017. Parabéns! 

Antes de ir embora, vou fechar esta publicação com a minha fotografia preferida de sempre. Simboliza tudo o que foi aquela semana nos Alpes. Tirada pela Joana, namorada do Zé Nuno, que estava com o Manelíco ao colo, no fim do UTMB. Foram 44 horas percorridas não só por mim, mas por eles os 5. O Zé, a Joana, a Sara, a Mel e o Manel.

Vamos a 2017!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Serra da Estrela - Eu nunca usei drogas, mas...

Tenho participado em cada vez menos provas. Não que não goste, não alinho nada naquela treta do trail já não ser o que era, de estar a seguir o caminho do BTT e do espírito não sei do quê ter morrido, bla, bla, bla... Tenho participado menos por uma razão muito simples: dinheiro. As provas que mais me seduzem são longe, e como gosto de viajar com a família toda torna-se muito dispendioso. Para compensar, este ano foram raríssimos os fins de semana que fiquei pelo meu quintal. Acordar às 4 da manhã de sábado de forma a poder sair, treinar e estar em casa à hora de almoço, já se tornou um hábito. Quase sempre no Montejunto, que não considero o meu quintal por ficar a 100km, mas é uma espécie de casa de férias tantas as vezes que lá vou, mas também em Sintra. Todos os sábados já é rotina a viagem de carro de madrugada. Além destes escapes semanais há as outras saídas, as novas Surf Trips, como o Sommer descreveu tão bem neste artigo. Foi assim em Julho, na Sierra Nevada, e foi assim o fim de semana passado, na Serra da Estrela.

Há meses que sonhava com este treino. Desde que lancei a ideia durante um longo para a Maratona do Porto, lá para Setembro, com o Alex e o Rodrigo. Inicialmente marcado para o primeiro fim de semana de Dezembro, teve que ser adiado uma semana por causa do temporal que se abateu sobre o país inteiro nessa altura. Não era sensato irmos para a Estrela num dia desses, mas foi perfeitamente compensado com um treino de 40km e 6 horas na Serra de Sintra, debaixo de chuva torrencial do inicio ao fim. Uma delícia e uma das barrigadas de trail mais divertidas da minha vida!

Vasco, Alex, Rodrigo e eu em Sintra, debaixo da chuva. A foto possível de um treino perfeito!
A hora de saída, marcada para as 21 na minha casa, deu tempo de jantar e deitar os miúdos. Seguia-se uma viagem de 3 horas até Gouveia, onde iríamos dormir umas horas, acordar às 4:30 e começar o treino de cerca de 40km às 6 da manhã em Loriga, de forma a voltar a Almeirim ainda em "horário útil". Engraçado, no caminho para Gouveia falávamos de como "os de fora" frequentemente acham estes planos absurdos, vá-se lá saber porquê...

As horas de sono foram passadas no Quartel da GNR de Gouveia. Sim, isso mesmo. O Alex é GNR e conseguiu que nos acolhessem nas camaratas do quartel naquela noite!

[Peço desde já desculpa pela qualidade das fotos, o meu telemóvel já não é o que era]

Impecável!
O plano de treino era simples: subir a Gargante da Loriga até à Torre, descer pelo KV do Alvoco e voltar para trás pelo mesmo caminho. Duas subidas à Torre e duas descidas. Simples.

Como combinado, arrancámos às 6 da manhã, ainda bem de noite. A temperatura estava nuns agradáveis 10 graus, mas saímos com roupa para o frio, já que o topo da primeira etapa só terminaria 1300m acima.

Já tinha descido uma vez a Garganta, mas a subir era novidade. Feita no sentido ascendente, esta mostra-se por níveis que vão aumentando de dificuldade. Primeiro 2km em estradão e trilho limpo, depois singles no meio do granito e mato e finalmente o nível final, que coincide com a entrada na Garganta propriamente dita, a parte mais técnica e dificil. Ainda de noite até sensivelmente meio da subida, o track no relógio era muitas vezes substituído pelas marcações PR e mariolas existentes. Progredimos sem problemas, com entusiasmo crescente, até chegarmos ao nível final.

Num timing perfeito, a claridade do sol que nascia do outro lado da montanha permitiu-nos desligar os frontais no átrio de entrada da Garganta. Esta divide-se em 4 ou 5 pequenos patamares planos cobertos de erva fofa e rasteira separados por picadas para escalar em rocha. Não tenho a certeza, mas penso que soltei um gritinho histérico, tipo pita que acampa no Meo Arena, enquanto corria num desses patamares. Que perfeição. O manto de erva recortado por pequenos ribeiros de água gelada, o granito imponente e escorregadio, duas paredes gigantes e claustrofóbicas de cada lado, o sol a acender os picos lá mais acima... Uff!! Já perto do fim da subida, o Vasco, que já anda nisto há uma data de anos e fez, por exemplo, a Ronda Del Cims, dizia-me com um sorriso "eu nunca usei drogas, mas deve ser alguma coisa muito parecida com isto".
Um dos patamares lá atrás

A inevitável Selfie na Garganta!
Quando chegámos à barragem, fim da Garganta, olhei para o relógio e íamos com 1 quilómetro vertical. Juro que não dei por ele passar, tal o prazer que estava a sentir. Saímos da Garganta, mas a subida ainda não tinha terminado. Faltavam 4km e cerca de 300m de subida que nos ligariam à Torre. Esta era a única parte do percurso que não conhecia, mas parecia-me relativamente pacifica.

Barragem no fim da Garganta
A temperatura tinha descido brutalmente, um vento fortíssimo empurrava nuvens que ora cobriam tudo num nevoeiro denso ora abriam e mostravam o sol e céu limpo. O cinzento do granito era tapado pontualmente por mantos brancos de gelo e neve, que cobriam rochas, ribeiros e mato denso. Formações graníticas enormes, completamente molhadas e com musgo. De repente a euforia da Garganta começou a dar lugar a alguma apreensão. O track do relógio era frequentemente ajustado de maneira a não passar por cima da neve, porque quase invariavelmente esta cobria armadilhas onde enfiávamos as pernas. Escorregámos e caímos dezenas de vezes nas lajes de granito, avançávamos muito a custo, guiados pelas mariolas, quando o nevoeiro deixava. Os pés molhados na neve começaram a arrefecer, e as mãos a congelar. Dividi as luvas com o Vasco, que se tinha esquecido delas, enquanto o Alex e o Rodrigo travavam também eles uma batalha contra o frio.





O meu relógio dizia-me que estávamos à cota 1960m, praticamente em cima da Torre (1993), mas só a conseguimos ver quase quando demos com o nariz nela.

A primeira subida estava feita. Demorámos uma hora a percorrer os 4km finais. As condições muito adversas e a progressão lenta não nos permitiu gerar calor, quando lá chegámos estávamos frios e desconfortáveis. Parámos só o suficiente para comer qualquer coisa e iniciámos o caminho até ao Alvoco da Serra - cerca de 7km com 1200m de descida.

Já tinha subido duas vezes o KV do Alvoco, mas nunca descido. Lembrava-me bem dos primeiros 2km, num planalto junto à Torre. Percorremo-lo sempre a correr, desesperados por gerar calor e aquecer um pouco. À medida que descíamos lentamente, o nevoeiro ia dissipando, o que permitia finalmente seguir as mariolas. Estávamos a descer do nível das nuvens, a temperatura estava a aumentar e sol rasante a aquecer-nos quando chegamos ao inicio da descida do KV propriamente dita. A vista sobre o vale era absolutamente incrível, com os cumes de nuvens a cobrirem os picos e o sol a brilhar por cima delas.

No topo do KV do Alvoco, antes de descer.
A alegria e boa disposição estavam de volta, e ainda bem, porque esperava-nos um prato bem complicado. o KV do Alvoco é uma brutidade a descer. Não é técnica o bastante para a fazermos a passo, mas tem pedra e é inclinada o suficiente para nunca irmos confortáveis no trote. É longuíssima, nunca desarma. Vamos a bater nas pernas durante 5km, sempre a travar, sempre a mudar de direcção e ajustar o caminho. Os quadricepes começaram a gemer mais ou menos a meio, mas era impossível resistir ao convite para ir a passo de corrida!

Chegámos ao Alvoco, ponto de retorno, com 4 horas e 19km. Tinha previsto um treino à volta das 7 horas, já estávamos bem longe disso. Paciência, agora só há uma coisa a fazer: voltar o cavalo e seguir pelo mesmo caminho!

O KV do Alvoco é capaz de ser das minhas subidas preferidas de todas as que já fiz. Adoro ir a subir sempre no limite. Ali não há descanso, não há patamares como na Garganta. é a partir pedra durante 5km. Sempre a dar! Foi a primeira vez que a subi sem bastões e adorei.

Pela primeira vez no dia seguimos cada um a seu ritmo, uns mais rápidos outros mais lentos, mas todos no limite. Todos sentimos o calor a apertar a meio da subida, todos desesperámos com os zigue-zagues no meio da pedra, todos tivemos ameaças de câimbras quando tivemos que abrir mais as pernas para subir a uma rocha e todos respirámos de alivio quando chegamos ao inicio do planalto que nos levaria até à Torre.
Mariola gigante que marca o fim do KV

De volta ao topo, já com quase 7 horas de treino, decidimos entrar no Centro Comercial da Torre para comer qualquer coisa. O único ponto mau do dia inteiro: parecia que estávamos no Colombo! Despachámo-nos a comprar cada um uma sandes gigante de presunto e queijo da serra e fomos comer para a rua. Meus amigos, neste treino só houve uma coisa melhor que a subida do Alvoco, aquela sandes!

Restava-nos descer até ao carro.

Ainda com a dificuldade daquele troço de 4km entra a Garganta e a Torre em mente, decidimos tentar outro caminho. Foi pior a emenda que o soneto. Desta vez já não havia nevoeiro, mas foi um autentico pesadelo descer por entre rochas molhadas, gelo e mato. Caímos cada um pelo menos uma dezena de vezes. Entrámos em becos sem saída, voltámos para trás e desesperámos pela barragem que marcava o inicio da Garganta. Mais uma hora super tensa e stressante em que arriscámos demasiado. Fiquei sinceramente aliviado quando voltámos à Garganta. Se pudesse voltar atrás, tinha riscado esta parte do treino e ido pela estrada de alcatrão paralela ao que fizemos. Deve ser impecável fazer este segmento no verão, mas é demasiado perigoso no Inverno.

Com todas as dificuldades, cheguei a ansiar pelo conforto da descida da Garganta de Loriga, como se fosse só um pro-forma até chegar ao carro. 

Ahahaha.

Pobre diabo.

A descida da Loriga é 1000 vezes pior que a subida, é super difícil. Uma brutalidade, quase nunca deixa correr, ainda mais com as rochas molhadas! Um massacre brutal tanto para as pernas como para a cabeça. Espetacular!!

Chegámos finalmente ao carro com 9 horas de treino, 39km percorridos e 2700m de subida acumulada. Um percurso extremamente duro, tanto a subir como a descer. Um treino excelente, quase perfeito. 

Chegámos de rastos, esfolados, derreados e com um sorriso parvo na cara. Houve ainda tempo de comer uma bela bifana e beber uma mini antes de arrancarmos para mais 3 horas de viagem rumo a Almeirim. Cheguei a casa ainda a tempo de brincar um pouco com os miúdos e ajudar a Sara a preparar as coisas para recebermos uns amigos cá em casa para jantar. 

"Eu nunca usei drogas, mas...."

No Café S. Vicente, na Loriga. Um café com minis, bifanas, queijos e peluches.





segunda-feira, 28 de novembro de 2016

III Grande Trail das Lavadeiras - Puro.

Há sítios em Portugal onde o difícil é não fazer um bom percurso de trail. Por exemplo, na Lousã ou na Estrela é uma questão de compilar os melhores trilhos e paisagens e perceber o que funciona ou não funciona. Depois há outros que são uma folha em branco. Não há montanha, não há trilhos, nem sequer há paisagens de tirar o fôlego. Quando alguém decide fazer uma prova num desses sítios tem duas hipóteses: utiliza a meia dúzia de carreiros existentes, liga-os com quilómetros de estradão/alcatrão e chama os amigos para um convívio anual que certamente não durará muitas edições mas que no fim colhe os mais rasgados elogios do primo e do cunhado, ou então, se quer fazer uma coisa memorável, só tem uma solução: arregaçar as mangas e trabalhar. E, meus amigos, esta malta da Granja do Ulmeiro trabalha que se farta!

Antes da partida, com os companheiros do Grupo Desportivo da Parreira
Poucos minutos antes da partida, o speaker de serviço dizia-nos com um pesar na voz que, por terem vedado o acesso numa parte inicial, tiveram que alterar o percurso, por isso o primeiro quilómetro e meio seria em estrada. Quase consigo imaginar 2 ou 3 lavadeiros que dormiram mal na noite que souberam que o percurso ia ter 1.5km de alcatrão. E como é que lidaram com isso? Fácil, à maneira GTL: com trabalho! Assim que termina esta volta inicial pela Granja, entramos num single junto ao Mondego com quase 3km (sim, 3km!) todo aberto de propósito para esta edição! 

Um dos que deve ter dormido mal, no trilho novinho junto ao Mondego.
Rapidamente a prova se mostra, com subidas feitas a quatro e descidas de rabo. Tirando os Abutres, em nenhuma outra prova utilizei tanto as mãos para conseguir progredir. Aos quilómetros de trilhos abertos nos últimos anos juntaram-lhes outros tantos, prolongando-os e fazendo ligações entre eles, com os estradões a rarearem cada vez mais. O parte pernas é constante, assim como o piso muito pesado e enlameado. Passamos metade do tempo a saltar por cima de troncos ou a baixar-nos por baixo de outros, subimos escadas de madeira e degraus cavados na terra. descemos por cordas enlameadas, enchemo-nos de lama até à cintura e depois lavamo-la em água suja e gelada... Diversão do primeiro ao ultimo metro! 

Eu sei que já usei esta foto o ano passado, mas ilustra na perfeição o que é esta prova.
Não há lugar à monotonia nesta prova, mesmo que a altitude máxima sejam poucos mais de 100 metros. Não há uma falha na marcação nem um abastecimento fora do sítio. Há trilhos muito técnicos e há trilhos muito rolantes, outros cheios de pedras, outros com raízes e outros cobertos de vegetação que mais parecem um colchão. Há para todos os gostos, mas, acima de tudo, há trilhos, muitos trilhos!

Um percurso assim tão recortado normalmente quer dizer uma coisa: trilhos! E aquela parte junto ao rio engana, é o trilho que foi aberto de propósito, apesar de ser sempre a direito

Por causa do parte pernas, quase nunca deu para meter um ritmo constante, daí esta parvoíce de picos no gráfico da velocidade
Quanto à minha prova, fiquei muito satisfeito! Consegui vir a andar bem (para mim) até ao fim, sem grandes quebras, apesar de vir perto do meu limite. Ainda antes dos 20km fiquei sozinho e até ao fim (43km) andei sempre sem companhia. O percurso não passa por nenhuma povoação, por isso as únicas pessoas que vi durante horas foram os voluntários nos abastecimentos e os bombeiros que estavam nos locais mais perigosos. Foi espectacular estar embrenhado sozinho ali no meio daquele mato tantas horas, numa espécie de missão solitária.

Depois de dois meses de treino exclusivo para a maratona, está a saber muito bem voltar ao mato, e não podia pedir melhor que este percurso de puro e duro trail, com tudo a que temos direito. 

No fim um banho bem quentinho, para tirar os quilos de lama que ainda ficaram, mesmo depois de 100 metros numa espécie de lago com água por cima do joelho já perto do fim, duas bifanas de porco no espeto, uma taça de arroz doce e ficou feito!

Desculpem a porcaria das marcas de água, mas ainda não encontrei outra foto minha e sou um bocado forreta! A foto é do...adivinhem :P
Antes, na reta da meta, o speaker que me terá reconhecido do artigo do ano passado, disse que eu era um amigo do GTL. Mais que amigo, sou um admirador confesso do que este pessoal conseguiu ali fazer. Voltarei sempre que puder e, entretanto, continuarei com a minha cruzada: é obrigatório que mais gente conheça o GTL!



terça-feira, 15 de novembro de 2016

Trilhos de Casaínhos 2016 - Crónica de uma batalha

Este domingo foi dia da romaria anual de Casaínhos, uma prova curtinha (15km) com tudo na medida certa: subidas, descidas, trilhos e feijoada. Dia de convívio, de reencontrar amigos e finalmente conhecer outros. Foi essas coisas bonitas todas, foi... Mas antes disso também foi palco de uma batalha sangrenta que perdurará nos anais da história. 

Essa, a história, surge aqui relatada numa parceria Quarenta e Dois / Crónicas do Sr. Ribeiro, num texto escrito a duas mãos (cada um escrevia 1 ou 2 parágrafos e passava ao outro):



O Sommer chegou primeiro, levou toda a família e amigos. Talvez o peso da derrota do ano passado o tenha feito querer equilibrar a balança, e como de balanças percebe ele, levou mais carga para o seu lado.

O Filipe apareceu quase em cima da hora, com um ar de falsa descontração, sentia-se a pressão por trás dos sorrisos que tentava distribuir gratuitamente às pessoas que se aproximavam sentindo já o sangue da batalha.

Parou o carro à frente do seu adversário e antes de sair disse entredentes à mulher para seguir o guião. Mestre da dissimulação, meteu o mais falso dos sorrisos quando, cordialmente, cumprimentou o seu oponente. Nesse momento tenso, o Filipe reparou num leve tremor da sobrancelha direita do Sommer. Estava a resultar.

A conversa de circunstância quase os faz vomitar de angústia, mas o tempo passou e estavam agora a 5 minutos da partida. O Filipe conta as camisolas pretas da MRT que o cercam e arrepende-se de não ter trazido ele próprio reforços.

Lado a lado, esperaram tensos alheios ao bulício que os rodeia quando soa o sinal da partida que, sem aviso, os lança numa luta feroz.

O de Almeirim sabe que tem de assumir a prova, tem de encostar o de Lisboa, logo ali em Casaínhos, antes mesmo de Fanhões. E, assim, imprime um ritmo controlado apenas meio segundo acima daquilo que sabe que o seu opositor anafado aguenta. “Assim ele sofre, mas não rebenta, para já…”
Habituado aos esquemas, o Sommer combatente trafulha, procura esconder-se no meio da multidão, “Vou apanhá-lo de surpresa!”

E assim passam a porta do Estádio Municipal e voam pela estrada para uns primeiros quilómetros bem ao jeito do Filipe, que se apercebe pelo canto do olhos das dificuldades que o gordo tem em manter um ritmo alto enquanto saltita desconfortavelmente no estradão irregular. Chega a ser constrangedor.

O fosso estava criado, mas é nas subidas que o esquilo mais se sente em casa e, quando atacam a primeira, um trote tranquilo é o suficiente para se aproximar do ofegante adversário que se debatia num engarrafamento causado por outro frequentador de Monsanto. Enervado, o Sopa da Pedra sente a pressão e segue atabalhoado trilho acima, à espera que a descida o confortasse.
Virado o monte, abrem-se as portas do Inferno!!!!

À frente, o Filipe perde a noção da distância para o seu perseguidor e dispara com medo de ser agarrado, lá atrás, o gordo chegado ao cimo do monte, não teve outra hipótese, tapou o nariz, fechou os olhos e mergulhou, corajosamente, soltando um guincho, para fora de pé.

Era a primeira descida, o primeiro encontrão, as primeiras pedras, o da frente, procurava material para sopa, o de trás, não queria cair e ficar em picadinho!

“Mantém o ritmo só mais um bocado!!!” implorou a si mesmo o desgovernado ribatejano, enquanto aproveitava cada bocadinho de descida para ganhar metros à bulldozer que o perseguia. Aproximava-se o meio da prova e a decisiva parede, oásis de esperança para o Sommer, que se benzia a cada curva e contra-curva enlameada das descidas de Casaínhos.

Já na base da parede, o da frente nem teve coragem de olhar para trás "rais parta o gordo, que me respira no pescoço", pensou. Foi mãos nos joelhos, língua a raspar o chão e toca a papar metros que o grandão até bate palmas nesta subida.

Já lá em cima, virou-se, lentamente, como quem contempla a paisagem, mas o gordinho já não caía nessa, sabia que o Filipe o procurava e por isso atirou-se para o chão, com estrondo, escondendo-se por entre a vegetação, tentando que o opositor não o visse. Levantou-se quando se sentiu em segurança e galgou os metros finais, procurando encurtar a distância que os separava!
“Está a funcionar!” pensou, primeiro, para depois achar que estava a ser enganado, “Calma, está a funcionar bem de mais!!! Aqui há gato!”

Terminou a subida ainda a tempo de ver o adversário a fugir.

Parecia tão perto, mas perto também estava o fim da prova e da sua energia.

Era agora ou nunca, pensou o Sommer, enquanto recusava, a arfar, um copo de água oferecido no abastecimento, e arranjava maneira de voltar a colocar no sitio o pulmão que entretanto se tinha desalojado. Esqueceu o amor que até então sentia pela vida e atirou-se a mais uma descida num single aberto de fresco, cheio de raízes sacanas.

O de Almeirim, ainda meio desconcentrado com a visão do gordo a atirar-se para cima de uma silva lá atrás a meio da subida, decide que já não estava para brincadeiras e aumenta a parada. Faltava meia dúzia de quilómetros e tinha o passarão na mão.

O Sommer desesperava com a velocidade com que o trapaceiro se afastava, e balbuciou qualquer coisa para o seu companheiro do lado, mas quando não teve resposta, reparou que estava sozinho...
Estaria a enlouquecer? Seria o fim?

Sozinho atacou aquela que já não era a última subida, mas parecia ser uma depois!

O de Almeirim, com medo, tinha fugido! Engendrou um novo plano maquiavélico, para dar a estocada final no gordo… Ia lançar a contra-espionagem! Deu ordem de arranque aos seus reforços, para baterem as várias estradas, que se cruzavam com a prova, a fim de saber o paradeiro do perseguidor e gerir o ritmo sempre naquela sua forma malandra, abrandar, para o gordo salivar, e voltar a arrancar para o badocha desesperar…

“Desculpas!”, respondeu a Sara do Filipe, quando o gordito no seu delírio disparou qualquer coisa sobre carregar um companheiro ferido aos ombros durante os últimos quilómetros. "Ele vai todo torto e já não sabe o que diz, arranca que é teu", disse a matreira numa sms enviada ao Filipe, que ganhou novo ânimo.

O plano do campino tinha resultado. Faltava ultrapassar uma última parede e depois deslizar para a meta.

Frustrado, lá atrás o esquilo dizia mal da vida e pontapeava pedras na descida enquanto pensava o que tinha corrido mal.

Já com o Estádio Municipal em vista o nosso Ribatejano, finalmente, com gosto riu, por mais uma vitória que lhe sorriu.

Mas faltava alguma coisa… Emoção talvez… Uma perseguição final?? Cadê do gordo??

Ainda do outro lado da encosta, triste, cansado, suado, desidratado, arrastava-se ao som do oboé. Pópópó…

O gordo pensava em dizer, quando chegasse, “À terceira é de vez!”, mas sabia que lhe esperava de resposta, “Não há duas sem três”…

Dobrou a encosta e rebolou com o que tinha, para o estradão que lhe faltava, apanhou a parede caiada do Estádio, e virou, envergonhado passou o portão para os metros finais de mais uma humilhante derrota.

Por mais um ano ficará o machado de guerra enterrado entre os restos da feijoada ao almoço. A azia da derrota deu lugar àquela provocada pelo enfardamento de enchidos e a rivalidade diluiu-se em cerveja preta.

O sol pôs-se sobre o campo de batalha de Casaínhos, segue-se mais um ano, milhares de quilómetros separam os nossos guerreiros do seu próximo embate. Alguns – muitos - destes serão palmilhados pelos dois, fingirão amizade e partirão juntos em aventuras por este mundo fora, acertarão o passo e até darão a mão para ajudar o outro, mas sabendo sempre que se estão a medir e a preparar para o próximo derby de Fanhões, a prova que fica para lá do espírito do trail.


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Maratona do Porto 2016 - Quem dá o que tem...

Desde o final do ano passado que o regresso à Maratona estava nos planos. A ideia era focar o ano nas duas grandes provas (MIUT e UTMB) e depois aproveitar um ultimo trimestre descontraído que incluiria uma maratona do Porto, assim, como dizer, a rolar (lol). Mas a prova rainha não se compadece com estes paternalismos e acabou por ser um dos momentos mais intensos do ano. Afinal de contas, a Maratona é a Maratona…


Há 3 anos tinha sido a minha 4ª maratona, e este ano regressei ao Porto para a sétima. Muito mudou entretanto. Mudei eu, que passei a focar-me muito mais na corrida de montanha, e mudou a própria corrida, deixando a partida de ser no centro do Porto para junto ao rio, em Matosinhos. Sinceramente, esta mudança para mim é irrelevante. Não é isso que vai mudar a essência do percurso. Esse, na sua grande maioria, era e continua a ser centrado no Rio Douro. Para a frente e para trás, sempre junto ao Rio. De notar, isso sim, o aumento de público tanto em número como em entusiasmo, com algumas zonas muito preenchidas!


Vista do pórtico antes da partida.
Esta maratona trouxe outra novidade: pela primeira vez na vida fiz uma corrida em equipa. É muito raro, tanto em estrada como em trail, seguir muito tempo com a mesma pessoa. Não gosto de adaptar o meu ritmo, seja para andar mais depressa ou mais devagar. Mas fiz todos os treinos de preparação para o Porto com o Rodrigo, estávamos exatamente no mesmo ponto e tenho a certeza que, se tivéssemos corrido em separado, os nossos tempos teriam sido iguais. Ambos um pouco mais baixos, mas iguais.


Com o Alexandre (estreia) e Rodrigo (segunda maratona)
Como já vos tinha dito anteriormente, com o decorrer dos treinos mudei de ideias de uma maratona "tranquila" para um ataque ao meu melhor tempo, de 3h19. Defini com o Rodrigo que fixaríamos o ritmo alvo nos 4'40''/km, o que daria algo na casa das 3h17. Para mim, a definição do ritmo da maratona é dos passos mais importantes na preparação. Tem que haver uma perfeita noção do trabalho feito e das nossas capacidades. Não podemos correr o risco de sermos ambiciosos de mais e levar a marretada no fim. Mas se queremos ir no limite, estabelecer um ritmo baixo de mais pode ser frustrante, na medida em que chegamos ao fim com a sensação que podíamos ter dado mais.

A partida foi dada na avenida entre as rotundas da Anémona e do Castelo do Queijo. Com vários blocos divididos por tempo e numa avenida larga, era de esperar que o pelotão fluísse bem, mas curiosamente não foi o caso. Talvez por logo a seguir à partida termos subido a Avenida da Boavista, os primeiros 2km foram bastante confusos, com alguns esticões e paragens. Demorámos um bocado até entrarmos no nosso ritmo.


Junto ao Parque da Cidade.
Mais aceleração menos aceleração, passámos nos 10km confortáveis e certinhos no ritmo alvo. Já se sabe que os primeiros 10km de uma maratona são os 10km mais fáceis que vamos fazer, se assim não for algo está errado.

Enchido o chouriço na volta à doca de Leixões, a prova começou realmente com nova passagem na Rotunda da Anémona, aos 12km. O pelotão dispersou finalmente e corríamos, agora sim, à vontade. Distraídos pela paisagem, os quilómetros passaram sem darmos por eles e o ritmo foi aumentando sem grandes sacrifícios.  Por volta dos 19km, nova estreia! Já posso dizer que tenho algo em comum com a Jéssica Augusto, depois de um pit stop numa casa de banho portátil. Despachado o assunto, meti um bocado de mais andamento para voltar a apanhar o Rodrigo, o que aconteceu cerca de 2km depois, mesmo a chegar à Ribeira. Muita gente na rua e a incentivar na pequena rampa de acesso à Ponte D. Luis, que subimos algo sofregamente. A Meia Maratona estava logo ao virar da ponte, no empedrado de Gaia, a qual cruzámos 1h38 depois da partida - mesmo em cheio nos 4'40''!


Pórtico da Meia Maratona
Confesso que gosto de provas com retornos. É impossível não nos distrairmos à procura de caras conhecidas, a gritar incentivos e a ouvir alguns de volta. Essa é a melhor parte deste segmento do percurso de ida e volta à Afurada, porque de resto é um pouco desinteressante, com a agravante de ter partes muito chatas de empedrado. No entanto estávamos a sentir-nos bem, e o Pacer das 3h15 no raio de visão (estaria a 300/400m) dava uma motivação extra. O ritmo voltou a aumentar e a passagem aos 30km com 2h19 até indicava que estávamos a ganhar algum tempo ao objectivo, mas foi então que levámos o primeiro pontapé nas canelas: a rampa de acesso à Ponte D. Luis para a travessia de volta ao Porto.

Passagem na Ponte D. Luís
Imediatamente senti que algo tinha mudado. Falei com o Rodrigo e ele confirmou que se estava a sentir um bocado desconfortável. A nossa prova ia entrar numa nova fase, a partir daqui só teríamos os depósitos de reserva, a luta ia começar.

Ultrapassada a Ponte voltámos à direita para novo enchimento de chouriço de 1.5km para cada lado. O ritmo não era fluído e olhava constantemente para o relógio, ainda assim mantinha-se no pretendido apesar de muito mais esforçado. Nova passagem por baixo da Ponte D. Luís aos 32km. Disse ao Rodrigo: pronto, metade está feito.

Os 32km são uma marca importantíssima na Maratona, e no Porto ainda adquire um significado maior. Deixa de haver atletas mais lentos em sentido contrário e ficamos apenas nós e uma recta infindável de 10km. A contagem decrescente ia começar.

Ponte D. Luís vista da Ribeira
9.
O trigésimo terceiro km foi dos mais memoráveis pela passagem no túnel. Eye Of The Tiger a bombar, 5 ou 6 televisões com a famosa corrida do Rocky Balboa pelas ruas de Philadelphia, e alguns cartazes motivadores. Muito bom!


8.
Logo a seguir ao túnel, uma subida. Uff!! Fazemos um esforço enorme para volta aos 4'40'' mas ainda conseguimos. Com que consequência??


7.
Porra. Porcaria do vento tá sempre contra?? E as descidas? Só subimos?? Não se desce?? Ritmo já nos 4'50''. Ui, que vai custar!


6.
Disse ao Rodrigo que estava a quebrar, para ele avançar se quisesse. Claro que ele também estava a quebrar, estava exatamente como eu. Ritmo a diminuir, margem a desaparecer.


5.
Estou. Farto. Do. Douro.


4.
Batemos no muro com força e seguimos atordoados. Digo asneiras a uma cadencia maior que os passos por minuto. Apetece-me caminhar um bocado mas não o faço por causa do Rodrigo, provavelmente ele está a pensar o mesmo. Porra destas bandas que só tocam forró ou lá o que é esta merda!


3.
F***** para os 39km!! Farto desta m****, f*****!!! O ritmo foi definitivamente por água abaixo, estamos completamente em modo sobrevivência!


2.
MERDA.


1.
NUNCA MAIS NA VIDA FAÇO UMA MARATONA!! Mas como é que é possível passar pela placa dos 41km e achar que ainda falta uma eternidade?? Corro completamente tenso, curvado, com os maxilares serrados e literalmente a rosnar. Enchente brutal na subida de 500m que nos leva até ao Queimódromo.


0.5.
Olha a Sara com a Mel ao colo! Fim da subida! Então mas isto tá a acabar? Oh Rodrigo, tu queres ver que já tá??


0.195.
Braços no ar, pernas leves, ADORO ISTO!


0.
TÁ FEITO, TÁ FEITO!!

[Rodrigo, a sério que não uma foto nossa na meta??]

Ainda abraço o Rodrigo antes de desfalecer no chão. Olho para o relógio, 3h19m56s, 3 minutos a mais do que aquilo a que nos tínhamos proposto. Os mesmos 3 minutos a mais que demorei a fazer a segunda meia em relação à primeira.

Aquela recepção.
Um fracasso? Nem por sombras. Estou super satisfeito com a nossa prova e orgulhoso do Rodrigo, que retirou meia hora ao seu anterior registo e do Alexandre, que terminou brilhantemente a sua primeira maratona. Deixámos tudo, mas mesmo tudo nas ruas do Porto e chegámos com o depósito completamente vazio. Foi muito difícil, e já não me lembrava quão difícil é. No fim o tempo não foi mau, acabei por igualar praticamente o meu record. Digamos que foi uma batalha muito difícil, no Porto, que terminou num empate com sabor a vitória. Isto faz-me lembrar alguma coisa... :)




quarta-feira, 2 de novembro de 2016

20km de Almeirim - 2016

Já tentei aqui pelo blog algumas vezes, mas é muito difícil definir por palavras o que significam para Almeirim, e particularmente para mim, os 20km. Há alguns factos que o explicam: é das provas mais antigas e com mais tradição em Portugal, neste momento é a única com a distancia de 20km, foi palco para os grandes nomes do atletismo português brilharem (o record nacional dos 20km foi estabelecido em Almeirim). É isso tudo, mas os 20, para nós Almeirinenses, é muito mais que factos.  Os 20 são a nossa prova. Mais que isso, os 20 são a nossa cidade. Até podem ser organizados por uma minoria de Almeirinenses (e eu até conheço pessoalmente muito poucos), mas todos nós que já os corremos, que já aplaudimos ou que já esperámos numa rua fechada para passar os sentimos como nossos. É na nossa rua que todos os anos passam 2000 pessoas a correr, são as nossas águas que bebem, a nossa sopa que todos falam e as nossas caralhotas que arrancam sorrisos.


Este ano comemorou-se a trigésima edição seguida, a primeira sem o membro fundador e pioneiro do atletismo em Almeirim Gabriel Duarte, a quem se fez uma justa homenagem na partida. Mas a melhor homenagem que lhe fizeram foi precisamente não mudarem nada. Tudo nos 20 trabalha em piloto automático. Eles, as formiguinhas, sabem exactamente o que fazer e onde estar. Nós, os que corremos, só temos que dizer presente. E os outros, os que enchem a recta da meta, os que espreitam à janela, os de Alpiarça que  esperam à entrada da barragem, os dos restaurantes que esperam 5 minutos antes de ir preparar a sopa para os turistas, esses só têm que continuar a observar com um sorriso orgulhoso. Porque afinal, os 20 também são deles.

Homenagem ao Gabriel Duarte
Este ano corri os meus nonos 20. O plano era percorrê-los a ritmo de treino longo, já que no próximo domingo é a Maratona do Porto. Tentei convencer-me a mim mesmo disso, mas não precisei de mais que 3km a seguir à meta para saber que só me estava a enganar. Nos 20 é para dar tudo, ponto! Acabei no limite, apesar de um tempo uns bons minutos pior que o meu melhor, e com a certeza que as pernas no dia seguinte iam protestar (e assim foi). Mas que se lixe, nada paga aquele sentimento de passar a voar pelos nossos quintais, de desesperar pelo retorno em Alpiarça, de antecipar o sofrimento na subida da Compal e finalmente percorrer a Avenida 25 de Abril com a certeza que se deixou tudo, mas mesmo tudo, nas ruas da nossa cidade. Só assim é que vale a pena! 

A entrar na recta da meta. Eu disse que ia a dar tudo!