As minhas corridas na estrada

segunda-feira, 20 de março de 2017

III Trail de Almeirim - do lado fácil.

Nesta terceira edição do Trail de Almeirim a primeira vez que entrei no Pavilhão da Escola Preparatória das Fazendas de Almeirim foi no Sábado. Quando lá cheguei já os kits estavam ensacados, os stands dos patrocinadores montados e o pórtico de chegada a ser montado e limpo pelo Hélder e o Francisco. No secretariado, a Andreia entregou-me o meu dorsal e o da Sara. Devemos ter sido dos primeiros a levantar, porque ainda faltavam duas horas para a abertura oficial. Não faz mal, já estava tudo preparado. 


Nessa manhã, enquanto treinava em Montejunto, os três percursos do Trail de Almeirim (30, 18 e caminhada) estavam a ser passados a pente fino, à procura de fitas e placas por colocar. Por isso, quando cheguei ao local de partida, no Domingo, tinha a certeza que o trabalho duro estava feito e que não ia falhar nada. O que também não falhou foi o discurso do Omar antes da partida da prova longa. Inevitavelmente é ele a cara do trail, e todos os que ali estão já o conhecem. Com a atenção que a adrenalina pré-prova permite, ouvimo-lo a apresentar os padrinhos e vassoura da prova, imediatamente antes da contagem decrescente para a partida. Passavam poucos minutos depois das 9 quando os 130 e tal começaram a viagem.



Não participei nas várias reuniões e dias de trabalho no campo, por isso o percurso era uma incógnita. Nem sequer conhecia o ponto de entrada na nossa Serra, 1km de alcatrão depois e imediatamente num trilho novinho. Também não estive envolvido na decisão de distribuição dos abastecimentos, por isso foi uma surpresa quando ainda nem 5km tínhamos e já estávamos a passar pelo primeiro! Lá estava o Joel e comitiva, a dar boas-vindas e uma palavra de ânimo, que nesta altura até era mais importante do que mesas recheadas de comida (que até estavam).


Eu só tive que correr neles, mas alguém abriu e roçou mato de maneira a oferecer tanto single track novo. A certa altura cheguei a pensar que talvez tivessem feito um esforço extra e tapado todos os estradões da Serra, porque vi muito poucos! Os meus familiares trilhos antigos apareciam do nada, ligados por caminhos novos. 

Também do nada apareceu o segundo abastecimento, aos 11km. Relembro, estamos numa prova de 30km e aos 11 já vamos com dois abastecimentos. Mais uma vez não parei, agradeci o apoio ao Hélder e equipa, vi de relance os tabuleiros cheios de queijo, fruta, enchidos, marmelada, e sabe-se lá mais o quê, e trotei trilho acima.

O parte-pernas é constante. A nossa Serra não dá para mais, a amplitude é muito pequena, por isso não há super subidas. Há que compensar com muito carrossel. Os quadricepes não se queixam do pouco trabalho, pelo contrário, há algum tempo que estão a ganir! Arrasto-me trilho acima e abaixo enquanto o suor escorre em bica e arranho as pernas no tojo. Começo a sonhar com um isotonico fresquinho, que não levava, quando aos 17km aparece o terceiro abastecimento no Vigia, o ponto mais alto da Serra. Lá estava o Clemente vestido de frade, 3 mesas cheias de comida e copos de isotonico à disposição. Emborquei três antes de me fazer aos 6 ou 7km mais fáceis da prova, os únicos onde deu para rolar e abrir a passada, até chegarmos a novo abastecimento (sim, 4, em 30km!). Mais uma vez declino a muita comida disponível e troco umas rápidas palavras com o Paulo enquanto sorvo mais uns copos de isotónico. Faltam 8km, dizia ele, a parte das Camelas.

O ultimo brinde preparado pela A20KM era num terreno completamente desconhecido para mim. Não participei nas reuniões onde se decidiu levar o pessoal para ali. Provavelmente teria ficado com uma ponta de pena ao perceber o martírio que todos passariam já tão perto do fim! Mais carrossel, mais sobe e desce, mais singles. Às tantas já não se sabe se vamos a subir ou descer, só sabemos que doi! Quando finalmente saímos do labirinto das Camelas vejo o David a 200 metros da meta, que me recebe com um abraço. 

Agora era só correr até ao pavilhão, entrar lá para dentro, receber a medalha gravada à mão pelo Vitor das mãos da Oriana, irmã do Omar. Desta vez só tive que tomar vantagem do muito completo abastecimento final já na meta, não tive que me preocupar com reposições. Alguém se estaria a preocupar, já que não faltava nada. 

Chegada da grande Sara Brito, vencedora feminina.




Segui para casa com a Sara, que correu na caminhada, para tomar banho antes do almoço incluído na inscrição. Quando lá chegámos só tive que me dirigir ao refeitório e, sem nenhuma fila, recolher a minha taça de Sopa da Pedra, uma bifana e um pampilho, e sentar-me num dos muitos lugares disponíveis. As bebidas eram à descrição, escolhemos entre a diversa oferta e almoçámos calmamente à conversa. Dentro da cozinha via o Alexandre na azáfama do costume a orientar tudo e todos. Estava a correr bem, cá fora as coisas estavam perfeitamente fluídas.

Preparação para o almoço
Para mim o Trail de Almeirim acabou ali. Para eles, a dúzia que trabalhou durante meses, ainda ia a meio. Havia ainda muito para fazer. Nos últimos dois anos eu era um deles, desta vez a minha missão estava muito simplificada: só tive que correr 30km!

Não tenho qualquer justificação para acabar o post com esta fotografia minha e do Rodrigo, mas vou fazer isso na mesma. Obrigado pela compreensão.

NOTA - todas as fotografias são da minha amiga Fátima Condeço.



domingo, 12 de março de 2017

Território - Circuito Centro - Vila de Rei 2017


Para a segunda prova do ano decidi voltar a um Circuito que me deixou muito boas recordações há dois anos, o Território - Circuito Centro, da Horizontes. Na altura corri na etapa de Proença a Nova e gostei muito. Desde o percurso, ao ambiente familiar e paisagens, foi uma prova que me surpreendeu e me deixou com muitas expectativas para aquela que, parece-me, é a etapa rainha do circuito: Vila de Rei. Se correspondeu? Bom... o melhor é continuarem a ler.


Esta prova tinha desde logo uma característica que a diferenciaria de todas as outras etapas do circuito: serviu para apurar dois atletas para o campeonato do mundo de trail, a realizar em Itália. Claro que este facto serviu para chamar toda a elite do trail nacional, tornando-a numa cimeira como poucas vezes se vê, com as principais figuras a competirem directamente. O revés da medalha é que se perdeu o ambiente familiar, o que, sinceramente, também não me faz assim grande confusão. Por razões óbvias, o aumento de competitividade na frente não me afecta lá muito!

Antes da partida houve ainda um momento importante (para mim, claro). Há alguns meses que saí da Associação 20km de Almeirim mas foi apenas recentemente que me juntei a um grupo de bons amigos que já me acompanha na corrida há muito tempo, o Grupo Desportivo da Parreira, nomeadamente o Vasco, que para quem segue este blog não é nenhum estranho. Sábado foi o dia em que vesti pela primeira vez a camisola do GDP.

Atletas do GDP presentes em Vila de Rei.
Cumpridas as formalidades do levantamento de dorsal e controlo zero, fez-se a concentração junto à câmara municipal para uns últimos conselhos e contagem decrescente. Passavam uns minutos das 9 da manhã quando os 200 e tal partiram, sob um céu nublado a ameaçar chuva. Vinte segundos depois, mais coisa menos coisa, já levava 2km de atraso para o grupo da frente. Esfumaram-se cedo as minhas pretensões de qualificação para Itália :(

A partida
O percurso começou logo a subir até ao ponto mais alto da corrida, no marco que assinala o centro geodésico de Portugal, aos 600m de altitude. Os estradões inclinados que nos levaram até lá acima, aos 4km, foram depois substituídos por um trilho bastante longo e rápido a descer outros tantos quilómetros. Na etapa de Proença a Nova foi uma característica muito vincada do percurso, secções muito interessantes, técnicas e até difíceis, com ligações por estradão e estradas florestais. Na altura não me chatearam nada os km de estradão, porque se notava que estavam ali por uma razão. Além disso eram quase sempre no meio de árvores, nunca os achei muito monótonos. Infelizmente não posso dizer o mesmo dos 7 ou 8km após a descida do marco. Um estradão largo, praticamente plano, depois a subir até novo marco geodésico, de Melriça, convidava a ritmos de estrada.

NOTA: este post tem mais uma vez o alto patrocínio do talento fotográfico do grande MIGUEL CADALSO! Depois desta e dos Abutres, nomeado fotografo oficial do Quarenta e Dois. Só é preciso fazer as mesmas prova que eu. :)

hm..
O abastecimento chegou pouco tempo depois da subida ao marco, aos 14km. Desde há algum tempo que quando parto para uma prova vou preparado para não estar dependente dos abastecimentos. Levo comida para cada hora e vou trincando qualquer coisa nos abastecimentos para não serem só geis e barras. No entanto, não tenho por hábito levar isotonico porque não gosto de o beber mole e acabo por beber sempre nos abastecimentos. Infelizmente, em nenhum dos 4 abastecimentos desta prova havia isotónico. Já que estou a falar de abastecimentos, tenho que dizer que, tal como na Ericeira (outra prova da Horizontes), mais uma vez me pareceram mal distribuídos. Eram 4, para 50km. Poucos, mas nada de extraordinário. O problema é que o ultimo estava a 2km da meta. Ou seja, na prática eram 3 abastecimentos. Para mim, não faz sentido aquele abastecimento ali, mas é só a minha opinião. Quanto à qualidade e diversidade prefiro não opinar, já percebi que cada um tem as suas preferências e o que para mim pode ser pobre para outros será mais que suficiente. Mas o que não pode acontecer é ter ouvido amigos que andaram mais para trás no pelotão a dizerem-me que quando lá chegavam já nem fruta havia... Epah, e já agora: "a que km estamos?", "quantos km faltam para o próximo?". TODAS as pessoas que estão a gerir um abastecimento TÊM que saber responder a estas duas simples perguntas! 

Pronto, já despachei isto tudo para não deixar para o fim e pensarem que isto é só dizer mal.

Depois de deixado para trás o abastecimento entrámos numa fase totalmente diferente da prova. Descemos até uma ribeira que cruzámos algumas vezes, com algumas passagens muito giras, andámos em vales muito fechados, sempre em caminhos apertados, com rocha molhada à mistura. Até comentei com um companheiro que parecia uma prova nova. Tal como em Proença, estas zonas muito interessantes depressa fizeram esquecer o estradão chato de há momentos.

Numa das secções de rocha.
Não demorou muito até entrarmos novamente nos estradões de ligação. Muito sobe e desce, picadas, terreno plano, muita corrida, muita. A verdade é que depois de concluída a prova temos pena de não ter andado sempre em trilhos, mas na altura sabe bem papar quilómetros nestas ligações. Ao contrário dos Abutres, desta vez já me senti bem praticamente na prova toda, e logo depois de uma ou outra subida mais complicada tinha pernas para retomar o ritmo de corrida. Os troços mais giros apareciam invariavelmente depois de uma descida acentuada até um vale. Era quando andávamos junto às linhas de água e nos trilhos mais técnicos, com subidas e descidas muito boas.

As zonas que compensavam os estradões

Aqui já vinha a treinar a minha MIUT Face para daqui a mês e meio.
A dupla da frente: David Quelhas e Tiago Romão. Que animais!


Depois do penúltimo abastecimento, no Penedo Furado, a prova pouco mudou. Continuámos a passar por zonas muito engraçadas, mas sempre com os inevitáveis estradões de ligação. Nesta altura o calor já apertava muito e comecei a ficar um pouco desconfortável de estar a beber tanta água. As subidas, nunca demasiado longas ou inclinadas, sucediam-se até que apanhámos uma descida muito técnica, das melhoras da prova, até ao ultimo abastecimento, na zona da Cascata dos Poios. Era aqui, a 2km da meta, que estava o ultimo abastecimento. Segui para a subida final sempre junto à cascata. Uma subida técnica e trabalhosa, muito boa. 

Na meta, à minha espera estava a Sara, que ultimamente, derivado a questões de termos dois miúdos que ainda não se desenrascam sozinhos, tem andado arredada destas lides. Desta vez só teve que esperar 6h49, o tempo que demorei a percorrer os 50km certinhos. Como disse lá atrás, fiquei contente por desta vez não ter passado por debilidades físicas como nos Abutres, mas a prova também era completamente diferente. Uma coisa tenho notado, o nível médio do pelotão tem subido bastante! Ou é só impressão minha?


Quanto à prova, acho que já perceberam que na verdade não me deixou muitas saudades. Ao contrário de Proença, achei certas partes muito maçadoras, apesar de ter troços mesmo muito interessantes. Percebo que não deve ser fácil ligá-los, já que estão distantes, mas foram muitos quilómetros de estradão. As marcação são à Horizontes, económicas QB, mas sempre no sitio certo. Não se espere uma densidade de fitas muito grande, mas na verdade só nos perdemos se formos distraídos. Fiquei a gostar ainda mais desta zona e com vontade de fazer a etapa de Vila Velha de Rodão, mas dificilmente repetirei a de Vila de Rei.

Agora é altura de apontar baterias ao Piodão, etapa final antes de mais um MIUT. O pensamento neste momento é: mas como é que vou dobrar a distancia e triplicar o desnivel daqui a 6 semanas??? Bem, alguma maneira hei-de arranjar!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Trilhos dos Abutres 2017 - Trail a sério

Acho que desde que comecei a correr em montanha oiço este e aquele a definirem o que é o trail. Há quem diga que tem que ser em trilhos, que tem que ter muita altimetria e dificuldade, outros nem por isso, e falam da distancia e da lógica do percurso. Há quem diga que os há a brincar e a sério. Falam da percentagem de asfalto e de estradão, da quantidade de correntes e rochas para escalar e caminhos para rolar. A mim, se me perguntarem, eu respondo - trail é Abutres.


Depois da espectacular conjugação de factores que tornaram a edição de 2015 numa espécie de tempestade perfeita, e de no ano passado ter falhado por lesão, 2017 marcou o meu regresso àquela que, juntamente com MIUT, Piodão e Arga, é para mim a melhor prova de montanha em Portugal. Desta vez a previsão nos dias anteriores afastou logo o cenário dantesco de 2015, mas a Serra da Lousã não precisa de meteorologia extrema para se agigantar. Na verdade, nenhum dos quase 600 que estavam às 8 da manhã no mercado de Miranda do Corvo fazia ideia do que ia apanhar nas próximas horas. De uma coisa todos nós tínhamos consciência - não ia ser fácil. 

Uma viagem desde Almeirim um pouco em cima da hora não permitiu que conseguisse um lugar na parte da frente do pelotão antes da partida, por isso foram uns primeiros 2km dentro de Miranda a forçar o ritmo, para evitar congestionamentos na entrada dos trilhos. 

O céu estava nublado, mas a chuva acabou por nunca aparecer. Até a temperatura estava amena, o que me fez arrepender imediatamente da escolha de equipamento. A meio da primeira subida suava em bica, já ligeiramente preocupado com a perda de sais.

Este ano houve a novidade de subir um monte de cerca de 300m nos primeiros 7km, em vez de o contornarmos como nos anos anteriores. Uma subida toda ela feita em estradão, que serviu para abrir o pelotão e acrescentar mais uns metros à conta final de desnível positivo, que foi de 2700. No topo do monte encontrámos o Templo Ecuménico de Miranda do Corvo. Parece que é um templo onde estão representadas todas as religiões do mundo, mas há uma que, para mim, se destaca muito das outras. A religião de Nossa Sra. do Mau Gosto.

Sem comentários. Foto do Miguel Cadalso.

Depois de descer o monte da pirâmide cor de laranja a voar num estradão, entrámos finalmente na Serra. O caminho de entrada era um trilho que há dois anos estava completamente inundado. Assim seco era um espectáculo para correr, sempre junto a um ribeiro. O percurso até Vila Nova (15km), espécie de prelúdio dos Abutres, ia sendo feito quase sem dar por isso. Pernas leves e soltas, sorriso na cara enquanto ia deixando bocados de conversa com este e aquele amigo, e cada vez são mais as caras conhecidas nestas provas. Vi o Ricardo, que me levou de volta ao MIUT onde nos vimos pela ultima vez, o Marcelo, que me transportou àquele km que partilhámos em Vallorcine, antes da subida final no UTMB, vi o João Pereira que encontrei há 3 anos no DUT e me fez lembrar a fatídica subida aos bombeiros... Lamechices à parte, é incrível a quantidade de pessoas que fazem parte da minha vida por causa deste desporto.

No trilho de entrada
Depois do abastecimento em Vila Nova começou a primeira grande subida da prova, até ao Observatório. Falar em subidas nos Abutres é sempre duvidoso, porque o sobe e desce é tal maneira constante que às tantas não se sabe bem se estamos numa subida ou descida. Mas a cota no relógio continuava a aumentar, por isso devia mesmo ser a subir. 

Chegados a um planalto antes do ataque final aos 930m do observatório, lembrei-me logo da minha prova de há dois anos. Foi ali que estive no precipício, quase quase a cair na desistência, por causa do frio. Desta vez, com o trilho seco e temperatura amena, o prazer de correr naquele caminho macio e escuro ligeiramente a subir era imenso. Só não era maior porque desde lá de baixo de Vila Nova que 2 ou 3 companheiros decidiram que eram os novos malucos do riso e acharam que toda a gente devia saber isso. Mas pronto, cada um vive aquilo à sua maneira...

Chegada ao observatório, foto do Miguel Cadalso
Foi no observatório o único sitio durante toda a prova que senti algum frio. Demorei-me o mínimo possível no abastecimento, só para voltar a encher o depósito de água. Continuei com a alimentação de geis e barras de hora a hora.

Seguia-se a descida até à Sra. da Piedade. 5km numa espécie de jogo de computador que vai tendo vários níveis de dificuldade. Há de tudo. Desde trilhos bons para correr, outros cheios de pedra, com lama, com água, sempre intercalados com pequenas picadas a subir, mesmo à Abutres. Conhecia bem os próximos 15km. Passei a ultima semana de Dezembro em Gondramaz com a Sara, os miúdos, o Vasco (que também estava em prova) e família. Fizemos lá uns treinos daqueles que enchem a alma e dava um certo conforto reconhecer os sítios onde andava.

Nesta descida comecei a ter as primeiras dificuldades da prova. Cada vez que precisava de alçar as pernas para passar um obstáculo os músculos prendiam e tinha câimbras. Comecei a descer mais devagar e a ser ultrapassado. Contava os quilómetros até ao abastecimento para poder comer alguma coisa salgada, já que não tinha sais nem isotónico. Fiquei um bocado desanimado, ainda era muito cedo e já estava com estes sinais de falência física.

A chegada ao corte da Sra. da Piedade, 28km, foi com 4 horas, mais de uma hora antes do tempo de 2015. Mas é incomparável, foram provas totalmente diferentes. Comi uma sopa espessa e a escaldar, num abastecimento que estava cheio de mais (logo a seguir perceberia porquê). Saí de lá com o Manteigas, o Marcelo e o Miguel com a moral em alta para atacar o que faltava. E não faltava pouco. Os Abutres iam começar.

À saída do abastecimento com o Manteigas e Marcelo, foto do Miguel Cadalso.
A pausa e a sopa fizeram-me bem, assim como a companhia daquele grupo de 4. Íamos entrar nos quilómetros mais técnicos de toda a prova, mas assim que o caminho começa a ficar mais acidentado começam a formar-se filas. Estranho.. O pelotão já estava muito disperso ainda há pouco... 

Os congestionamentos continuaram, chegando mesmo a parar algumas vezes, até que percebi que estávamos a apanhar a cauda da prova dos 30km. Tenho que confessar que foi bastante frustrante. Não que fosse andar muito mais depressa que aquilo, mas parávamos constantemente e as ultrapassagens eram muito, muito, complicadas. É certo que nos desgastámos menos, mas psicologicamente fui-me um bocado abaixo. Acabei por passar nalgumas das melhores partes do percurso em stress. Uma situação chata, mesmo para quem vai na outra prova.

Fila para o supermercado aos 30km. Yep, Miguel Cadalso.
Na cascata dos Abutres
Depois de uma primeira parte muito técnica e inclinada a subir, entramos num estradão curto que desce durante um km, até voltarmos novamente a um trilho para a parte final da subida ao Posto de Vigia. No estradão os engarrafamentos finalmente dispersaram e pudemos abrir um bocado a passada para recuperar o tempo perdido. O pior foi voltar a subir em condições. As câimbras tinham voltado em força. Mesmo em subidas fáceis tinha que abrandar o ritmo e chegava mesmo a coxear. Merda para as câimbras, quase nunca tenho, mas fico irritado quando aparecem de tal forma limitadoras que são. 

Cumpri a subida até ao observatório em serviços mínimos. Nunca me senti a forçar, mas a parte muscular simplesmente não correspondia. Teria de ser o abastecimento que há dois anos me salvou da hipotermia a voltar a dar-me vida. 

Mesmo no final da subida, antes do posto. Foto do Miguel Cadalso.
Lá em cima, no posto de vigia, comi uma bifana deliciosa e mais uns copos de isotonico. Seguia-se mais uma tareia de trilhos que têm tanto de bonito como de técnico, precisava de uma grande amplitude de movimentos das pernas que naquele momento não tinha. O que me dava algum alento é que nas zonas que dava para rolar conseguia fazê-lo de maneira confortável, mesmo quando subia ligeiramente. Antes de chegar à parte mais técnica, junto a Gondramaz, ainda teríamos a parte que mais ansiava da prova. Um trilho espetacular para correr, no meio do bosque, percorrido pelo menos 5 vezes por mim e pelo Vasco naquela semana de dezembro. Esqueci a porra das câimbras e a prova que já estava a fugir do "bom" para o "meh" há algum tempo e voei nessa descida!

Mais uma do Miguel, nessa descida.
Esta descida é o exemplo perfeito do que são os Abutres. Começa nesta autentica passadeira acolchoada, transita para uma parte muito mais inclinada e desemboca numa secção final brutalmente técnica, que inclui a subida para Gondramaz. Duzentos metros verticais a escalar por entre rochas, cascatas, árvores, lama e musgo. Com correntes, cordas e mãos arranhadas. Há dois anos esta parte foi cortada por causa do mau tempo, desta vez voltou para acabar de derreter as minhas pernas que já guinchavam por todo o lado!

Não foi na prova, foi quando lá estivemos em Dezembro, mas passámos por aqui em sentido contrário
Mais uma vez voltaram as câimbras na subida, cada vez mais limitadoras. Rais parta isto, andava a treinar tão bem e agora esta porra... Sossegava-me esta ser a ultima subida da prova. Apesar de ainda termos trilhos muito técnicos até ao fim, esses seriam mais fáceis de gerir.

Breve paragem em Gondramaz, mesmo no largo da Igreja em frente à Casinha do México, onde já fiquei alojado várias vezes. Novo reforço de isotónico e siga caminho. 

Abastecimento de Gondramaz
O percurso até Espinho, local do ultimo abastecimento a 4km da meta é mágico. Só para reforçar a ideia que valeu mesmo a pena andar ali. Consegui colar atrás do Ricardo Diez, do Mundo da Corrida, que não me conhece mas foi a minha lebre durante 4 ou 5km sempre percorridos a trote, num crescente de ânimo que empurrava para um canto as câimbras e  restantes dificuldades. 

Passagem em Espinho sem parar. Faltam 4km, um deles num rio de lama que há dois anos me chegou à cintura. Desta vez pouco passou do tornozelo. 

Mesmo assim estava bonito. Adivinhem? Outra do Miguel Cadalso.
O quilómetro e meio em alcatrão até à meta foi cumprido num trote rígido, apesar de tudo as pernas ainda respondiam. Oito horas e vinte depois estava de volta ao pavilhão e confesso que ainda hoje estou um bocado desiludido com a minha prova. Não pelo tempo, não estabeleci nenhuma marca para cumprir, mas porque nos últimos meses me tinha andado a sentir super bem nos treinos e estava à espera da recompensa neste sábado. Mas não. Nunca andei no limite, mas também nunca me senti com muita força. É frustrante e até tenho andado um bocado desmotivado. Enfim, melhores dias virão.

Sras e srs, MIGUEL CADALSO! Depois de tamanha contribuição para este post com fotos,  acho que a da chegada tem que ser dele! eheh
Apesar de desiludido com a minha prestação, não estou de forma nenhuma desiludido com a prova. Os Abutres mais uma vezes cumpriram na perfeição. São cada vez mais uma prova à parte no panorama português, com pormenores de organização como só vi no MIUT e UTMB, duas provas do world tour. Como diria um senhor, que finalmente conheci naquele dia: aquilo sim, é trail a sério!


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Oh não, mais um post resumo!

Olá. Ainda vou a tempo do post de 2016? Não? Meh.. faço na mesma.

2016...

2016 foi..... bem, foi esquizofrénico. 

É isso. 

Provavelmente o ano com mais convulsão na minha vida. A nível pessoal e familiar foi uma autentica loucura. Desde o nascimento do "mai novo", até à construção da nossa actual casa (que começou e acabou durante 2016), duas mudanças, o trabalho que passou por uma fase terrível e acabou o ano numa das melhores de sempre... 

A montanha russa teve espelho na corrida. Em Janeiro, mês que fui sorteado para ir ao UTMB, praticamente não corri por causa de uma lesão. Com o MIUT a aproximar-se perigosamente arrisquei reiniciar os treinos mesmo não estando 100% seguro que estava recuperado. A coisa correu bem e com dois meses e meio de treino afincado consegui arrancar a melhor prova da minha vida, num dia praticamente perfeito e dificilmente repetivel na Madeira.

No final das 24h e SETE MINUTOS do MIUT 2016
A seguir à prova da Madeira cometi provavelmente o maior erro do ano, que foi participar no Estrela Grande Trail apenas um mês depois. Na verdade foi toda uma conjugação de factores que passaram muito pela sobranceria com que encarei esta prova e que resultaram no fracasso que foi a minha participação no EGT 2016. 

Pelo menos deu para boas fotos!
No fim era altura de lamber feridas e limpar o histórico. Três meses separavam-me do Ultra Trail du Mont Blanc. Mais que o óbvio grande objectivo do ano, a participação no UTMB transformou-se numa das experiências mais avassaladoras da minha vida. A prova correu-me mal. Com o devido distanciamento, admito que ainda não estava preparado para ela, mas faria tudo exactamente da mesma maneira para poder VIVER aquelas 44 horas nos Alpes. Ainda hoje me arrepio quando viajo mentalmente por aqueles trilhos, e a prova que não me consegui desligar dela é que ainda carrego a pulseira vermelha. 


Além das provas, 2016 fica também marcado pelo melhor "treino" da minha vida. E meto treino entre aspas porque a viagem a Serra Nevada foi muito mais que um simples treino. Agora consigo perceber que foi a partir daí que passei a encarar a corrida de uma maneira diferente. Desde aquele fim de semana na montanha, atrai-me não só a parte competitiva do trail, o treino, o chegar mais longe e mais rápido, mas principalmente a aventura. O passar horas na montanha. Aquela sensação de iniciar um treino, ou prova, e não fazer a mínima ideia do que nos espera. A gestão do esforço, o diálogo interior.... 

Pronto, já chega, tá a ficar lamechas.

No fim da segunda ascensão ao ponto mais alto da Península Ibérica.
Ok, já está um ano despachado. Passemos a 2017.

Assim, curto e grosso, estas são AS provas de 2017:

MIUT (115km, 7200D+, Abril) - Vou para o hat trick. Como já disse por aqui, é impossível resistir ao MIUT, é a prova perfeita. Tem tudo o que gosto numa corrida, desde percurso a organização. Mal posso esperar para voltar à ilha e tentar chegar a Machico 7 minutos mais cedo que o ano passado!

Andorra MITIC (112km, 10000D+, Julho)- Balancei muito na escolha desta prova. A ideia original era nova viagem ao Alpes, para o Eiger ou Lavaredo. Pesou principalmente o factor económico, é muito mais barato ir para Andorra com a família do que para os Alpes Suíços ou Italianos, mas já se tornou mais que isso. As estatísticas da Mitic são ridículas. Enfrentarei o mesmo desnível que no UTMB mas com 60km a menos. Desde a primeira edição a taxa de desistências nunca foi inferior a 50% e o tempo médio para terminar anda sempre à volta das 40 horas, o mesmo que no UTMB (relembro, com 60km a menos!). É uma brutalidade de desafio. Eu, que sempre disse que não gosto de provas demasiado técnicas, vou-me enfiar precisamente na boca do lobo! O respeito é gigante, mas a vontade de superar o desafio ainda maior. Já sonho com a famosa subida a Comapedrosa, um quilómetro vertical entre os 2000 e 3000m de altitude, cumprido em 3km!

UTAX (110km, 6000D+, Outubro) - A Serra da Lousã é dos meus sítios preferidos de Portugal. Adoro Gondramaz, onde já passei vários dias com a família. Além disso tenho uma dívida com esta prova, depois de em 2015 não ter participado por lesão. 

Além destes três colossos, a agenda do primeiro semestre já está bastante preenchida com passagens pelos Abutres (50km em Janeiro), Vila de Rei (50km em Março) e Piodão (50km em Abril). Depois, relativamente a provas, apenas tenho intenção de participar novamente no Grande Trail Serra de Arga. Logo se verá.

Pronto. Aguentaram com mais um post resumo de 2016 e planos para 2017. Parabéns! 

Antes de ir embora, vou fechar esta publicação com a minha fotografia preferida de sempre. Simboliza tudo o que foi aquela semana nos Alpes. Tirada pela Joana, namorada do Zé Nuno, que estava com o Manelíco ao colo, no fim do UTMB. Foram 44 horas percorridas não só por mim, mas por eles os 5. O Zé, a Joana, a Sara, a Mel e o Manel.

Vamos a 2017!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Serra da Estrela - Eu nunca usei drogas, mas...

Tenho participado em cada vez menos provas. Não que não goste, não alinho nada naquela treta do trail já não ser o que era, de estar a seguir o caminho do BTT e do espírito não sei do quê ter morrido, bla, bla, bla... Tenho participado menos por uma razão muito simples: dinheiro. As provas que mais me seduzem são longe, e como gosto de viajar com a família toda torna-se muito dispendioso. Para compensar, este ano foram raríssimos os fins de semana que fiquei pelo meu quintal. Acordar às 4 da manhã de sábado de forma a poder sair, treinar e estar em casa à hora de almoço, já se tornou um hábito. Quase sempre no Montejunto, que não considero o meu quintal por ficar a 100km, mas é uma espécie de casa de férias tantas as vezes que lá vou, mas também em Sintra. Todos os sábados já é rotina a viagem de carro de madrugada. Além destes escapes semanais há as outras saídas, as novas Surf Trips, como o Sommer descreveu tão bem neste artigo. Foi assim em Julho, na Sierra Nevada, e foi assim o fim de semana passado, na Serra da Estrela.

Há meses que sonhava com este treino. Desde que lancei a ideia durante um longo para a Maratona do Porto, lá para Setembro, com o Alex e o Rodrigo. Inicialmente marcado para o primeiro fim de semana de Dezembro, teve que ser adiado uma semana por causa do temporal que se abateu sobre o país inteiro nessa altura. Não era sensato irmos para a Estrela num dia desses, mas foi perfeitamente compensado com um treino de 40km e 6 horas na Serra de Sintra, debaixo de chuva torrencial do inicio ao fim. Uma delícia e uma das barrigadas de trail mais divertidas da minha vida!

Vasco, Alex, Rodrigo e eu em Sintra, debaixo da chuva. A foto possível de um treino perfeito!
A hora de saída, marcada para as 21 na minha casa, deu tempo de jantar e deitar os miúdos. Seguia-se uma viagem de 3 horas até Gouveia, onde iríamos dormir umas horas, acordar às 4:30 e começar o treino de cerca de 40km às 6 da manhã em Loriga, de forma a voltar a Almeirim ainda em "horário útil". Engraçado, no caminho para Gouveia falávamos de como "os de fora" frequentemente acham estes planos absurdos, vá-se lá saber porquê...

As horas de sono foram passadas no Quartel da GNR de Gouveia. Sim, isso mesmo. O Alex é GNR e conseguiu que nos acolhessem nas camaratas do quartel naquela noite!

[Peço desde já desculpa pela qualidade das fotos, o meu telemóvel já não é o que era]

Impecável!
O plano de treino era simples: subir a Gargante da Loriga até à Torre, descer pelo KV do Alvoco e voltar para trás pelo mesmo caminho. Duas subidas à Torre e duas descidas. Simples.

Como combinado, arrancámos às 6 da manhã, ainda bem de noite. A temperatura estava nuns agradáveis 10 graus, mas saímos com roupa para o frio, já que o topo da primeira etapa só terminaria 1300m acima.

Já tinha descido uma vez a Garganta, mas a subir era novidade. Feita no sentido ascendente, esta mostra-se por níveis que vão aumentando de dificuldade. Primeiro 2km em estradão e trilho limpo, depois singles no meio do granito e mato e finalmente o nível final, que coincide com a entrada na Garganta propriamente dita, a parte mais técnica e dificil. Ainda de noite até sensivelmente meio da subida, o track no relógio era muitas vezes substituído pelas marcações PR e mariolas existentes. Progredimos sem problemas, com entusiasmo crescente, até chegarmos ao nível final.

Num timing perfeito, a claridade do sol que nascia do outro lado da montanha permitiu-nos desligar os frontais no átrio de entrada da Garganta. Esta divide-se em 4 ou 5 pequenos patamares planos cobertos de erva fofa e rasteira separados por picadas para escalar em rocha. Não tenho a certeza, mas penso que soltei um gritinho histérico, tipo pita que acampa no Meo Arena, enquanto corria num desses patamares. Que perfeição. O manto de erva recortado por pequenos ribeiros de água gelada, o granito imponente e escorregadio, duas paredes gigantes e claustrofóbicas de cada lado, o sol a acender os picos lá mais acima... Uff!! Já perto do fim da subida, o Vasco, que já anda nisto há uma data de anos e fez, por exemplo, a Ronda Del Cims, dizia-me com um sorriso "eu nunca usei drogas, mas deve ser alguma coisa muito parecida com isto".
Um dos patamares lá atrás

A inevitável Selfie na Garganta!
Quando chegámos à barragem, fim da Garganta, olhei para o relógio e íamos com 1 quilómetro vertical. Juro que não dei por ele passar, tal o prazer que estava a sentir. Saímos da Garganta, mas a subida ainda não tinha terminado. Faltavam 4km e cerca de 300m de subida que nos ligariam à Torre. Esta era a única parte do percurso que não conhecia, mas parecia-me relativamente pacifica.

Barragem no fim da Garganta
A temperatura tinha descido brutalmente, um vento fortíssimo empurrava nuvens que ora cobriam tudo num nevoeiro denso ora abriam e mostravam o sol e céu limpo. O cinzento do granito era tapado pontualmente por mantos brancos de gelo e neve, que cobriam rochas, ribeiros e mato denso. Formações graníticas enormes, completamente molhadas e com musgo. De repente a euforia da Garganta começou a dar lugar a alguma apreensão. O track do relógio era frequentemente ajustado de maneira a não passar por cima da neve, porque quase invariavelmente esta cobria armadilhas onde enfiávamos as pernas. Escorregámos e caímos dezenas de vezes nas lajes de granito, avançávamos muito a custo, guiados pelas mariolas, quando o nevoeiro deixava. Os pés molhados na neve começaram a arrefecer, e as mãos a congelar. Dividi as luvas com o Vasco, que se tinha esquecido delas, enquanto o Alex e o Rodrigo travavam também eles uma batalha contra o frio.





O meu relógio dizia-me que estávamos à cota 1960m, praticamente em cima da Torre (1993), mas só a conseguimos ver quase quando demos com o nariz nela.

A primeira subida estava feita. Demorámos uma hora a percorrer os 4km finais. As condições muito adversas e a progressão lenta não nos permitiu gerar calor, quando lá chegámos estávamos frios e desconfortáveis. Parámos só o suficiente para comer qualquer coisa e iniciámos o caminho até ao Alvoco da Serra - cerca de 7km com 1200m de descida.

Já tinha subido duas vezes o KV do Alvoco, mas nunca descido. Lembrava-me bem dos primeiros 2km, num planalto junto à Torre. Percorremo-lo sempre a correr, desesperados por gerar calor e aquecer um pouco. À medida que descíamos lentamente, o nevoeiro ia dissipando, o que permitia finalmente seguir as mariolas. Estávamos a descer do nível das nuvens, a temperatura estava a aumentar e sol rasante a aquecer-nos quando chegamos ao inicio da descida do KV propriamente dita. A vista sobre o vale era absolutamente incrível, com os cumes de nuvens a cobrirem os picos e o sol a brilhar por cima delas.

No topo do KV do Alvoco, antes de descer.
A alegria e boa disposição estavam de volta, e ainda bem, porque esperava-nos um prato bem complicado. o KV do Alvoco é uma brutidade a descer. Não é técnica o bastante para a fazermos a passo, mas tem pedra e é inclinada o suficiente para nunca irmos confortáveis no trote. É longuíssima, nunca desarma. Vamos a bater nas pernas durante 5km, sempre a travar, sempre a mudar de direcção e ajustar o caminho. Os quadricepes começaram a gemer mais ou menos a meio, mas era impossível resistir ao convite para ir a passo de corrida!

Chegámos ao Alvoco, ponto de retorno, com 4 horas e 19km. Tinha previsto um treino à volta das 7 horas, já estávamos bem longe disso. Paciência, agora só há uma coisa a fazer: voltar o cavalo e seguir pelo mesmo caminho!

O KV do Alvoco é capaz de ser das minhas subidas preferidas de todas as que já fiz. Adoro ir a subir sempre no limite. Ali não há descanso, não há patamares como na Garganta. é a partir pedra durante 5km. Sempre a dar! Foi a primeira vez que a subi sem bastões e adorei.

Pela primeira vez no dia seguimos cada um a seu ritmo, uns mais rápidos outros mais lentos, mas todos no limite. Todos sentimos o calor a apertar a meio da subida, todos desesperámos com os zigue-zagues no meio da pedra, todos tivemos ameaças de câimbras quando tivemos que abrir mais as pernas para subir a uma rocha e todos respirámos de alivio quando chegamos ao inicio do planalto que nos levaria até à Torre.
Mariola gigante que marca o fim do KV

De volta ao topo, já com quase 7 horas de treino, decidimos entrar no Centro Comercial da Torre para comer qualquer coisa. O único ponto mau do dia inteiro: parecia que estávamos no Colombo! Despachámo-nos a comprar cada um uma sandes gigante de presunto e queijo da serra e fomos comer para a rua. Meus amigos, neste treino só houve uma coisa melhor que a subida do Alvoco, aquela sandes!

Restava-nos descer até ao carro.

Ainda com a dificuldade daquele troço de 4km entra a Garganta e a Torre em mente, decidimos tentar outro caminho. Foi pior a emenda que o soneto. Desta vez já não havia nevoeiro, mas foi um autentico pesadelo descer por entre rochas molhadas, gelo e mato. Caímos cada um pelo menos uma dezena de vezes. Entrámos em becos sem saída, voltámos para trás e desesperámos pela barragem que marcava o inicio da Garganta. Mais uma hora super tensa e stressante em que arriscámos demasiado. Fiquei sinceramente aliviado quando voltámos à Garganta. Se pudesse voltar atrás, tinha riscado esta parte do treino e ido pela estrada de alcatrão paralela ao que fizemos. Deve ser impecável fazer este segmento no verão, mas é demasiado perigoso no Inverno.

Com todas as dificuldades, cheguei a ansiar pelo conforto da descida da Garganta de Loriga, como se fosse só um pro-forma até chegar ao carro. 

Ahahaha.

Pobre diabo.

A descida da Loriga é 1000 vezes pior que a subida, é super difícil. Uma brutalidade, quase nunca deixa correr, ainda mais com as rochas molhadas! Um massacre brutal tanto para as pernas como para a cabeça. Espetacular!!

Chegámos finalmente ao carro com 9 horas de treino, 39km percorridos e 2700m de subida acumulada. Um percurso extremamente duro, tanto a subir como a descer. Um treino excelente, quase perfeito. 

Chegámos de rastos, esfolados, derreados e com um sorriso parvo na cara. Houve ainda tempo de comer uma bela bifana e beber uma mini antes de arrancarmos para mais 3 horas de viagem rumo a Almeirim. Cheguei a casa ainda a tempo de brincar um pouco com os miúdos e ajudar a Sara a preparar as coisas para recebermos uns amigos cá em casa para jantar. 

"Eu nunca usei drogas, mas...."

No Café S. Vicente, na Loriga. Um café com minis, bifanas, queijos e peluches.





segunda-feira, 28 de novembro de 2016

III Grande Trail das Lavadeiras - Puro.

Há sítios em Portugal onde o difícil é não fazer um bom percurso de trail. Por exemplo, na Lousã ou na Estrela é uma questão de compilar os melhores trilhos e paisagens e perceber o que funciona ou não funciona. Depois há outros que são uma folha em branco. Não há montanha, não há trilhos, nem sequer há paisagens de tirar o fôlego. Quando alguém decide fazer uma prova num desses sítios tem duas hipóteses: utiliza a meia dúzia de carreiros existentes, liga-os com quilómetros de estradão/alcatrão e chama os amigos para um convívio anual que certamente não durará muitas edições mas que no fim colhe os mais rasgados elogios do primo e do cunhado, ou então, se quer fazer uma coisa memorável, só tem uma solução: arregaçar as mangas e trabalhar. E, meus amigos, esta malta da Granja do Ulmeiro trabalha que se farta!

Antes da partida, com os companheiros do Grupo Desportivo da Parreira
Poucos minutos antes da partida, o speaker de serviço dizia-nos com um pesar na voz que, por terem vedado o acesso numa parte inicial, tiveram que alterar o percurso, por isso o primeiro quilómetro e meio seria em estrada. Quase consigo imaginar 2 ou 3 lavadeiros que dormiram mal na noite que souberam que o percurso ia ter 1.5km de alcatrão. E como é que lidaram com isso? Fácil, à maneira GTL: com trabalho! Assim que termina esta volta inicial pela Granja, entramos num single junto ao Mondego com quase 3km (sim, 3km!) todo aberto de propósito para esta edição! 

Um dos que deve ter dormido mal, no trilho novinho junto ao Mondego.
Rapidamente a prova se mostra, com subidas feitas a quatro e descidas de rabo. Tirando os Abutres, em nenhuma outra prova utilizei tanto as mãos para conseguir progredir. Aos quilómetros de trilhos abertos nos últimos anos juntaram-lhes outros tantos, prolongando-os e fazendo ligações entre eles, com os estradões a rarearem cada vez mais. O parte pernas é constante, assim como o piso muito pesado e enlameado. Passamos metade do tempo a saltar por cima de troncos ou a baixar-nos por baixo de outros, subimos escadas de madeira e degraus cavados na terra. descemos por cordas enlameadas, enchemo-nos de lama até à cintura e depois lavamo-la em água suja e gelada... Diversão do primeiro ao ultimo metro! 

Eu sei que já usei esta foto o ano passado, mas ilustra na perfeição o que é esta prova.
Não há lugar à monotonia nesta prova, mesmo que a altitude máxima sejam poucos mais de 100 metros. Não há uma falha na marcação nem um abastecimento fora do sítio. Há trilhos muito técnicos e há trilhos muito rolantes, outros cheios de pedras, outros com raízes e outros cobertos de vegetação que mais parecem um colchão. Há para todos os gostos, mas, acima de tudo, há trilhos, muitos trilhos!

Um percurso assim tão recortado normalmente quer dizer uma coisa: trilhos! E aquela parte junto ao rio engana, é o trilho que foi aberto de propósito, apesar de ser sempre a direito

Por causa do parte pernas, quase nunca deu para meter um ritmo constante, daí esta parvoíce de picos no gráfico da velocidade
Quanto à minha prova, fiquei muito satisfeito! Consegui vir a andar bem (para mim) até ao fim, sem grandes quebras, apesar de vir perto do meu limite. Ainda antes dos 20km fiquei sozinho e até ao fim (43km) andei sempre sem companhia. O percurso não passa por nenhuma povoação, por isso as únicas pessoas que vi durante horas foram os voluntários nos abastecimentos e os bombeiros que estavam nos locais mais perigosos. Foi espectacular estar embrenhado sozinho ali no meio daquele mato tantas horas, numa espécie de missão solitária.

Depois de dois meses de treino exclusivo para a maratona, está a saber muito bem voltar ao mato, e não podia pedir melhor que este percurso de puro e duro trail, com tudo a que temos direito. 

No fim um banho bem quentinho, para tirar os quilos de lama que ainda ficaram, mesmo depois de 100 metros numa espécie de lago com água por cima do joelho já perto do fim, duas bifanas de porco no espeto, uma taça de arroz doce e ficou feito!

Desculpem a porcaria das marcas de água, mas ainda não encontrei outra foto minha e sou um bocado forreta! A foto é do...adivinhem :P
Antes, na reta da meta, o speaker que me terá reconhecido do artigo do ano passado, disse que eu era um amigo do GTL. Mais que amigo, sou um admirador confesso do que este pessoal conseguiu ali fazer. Voltarei sempre que puder e, entretanto, continuarei com a minha cruzada: é obrigatório que mais gente conheça o GTL!